17.11.17

Os inocentes

Saem sempre porta fora alguns seguidores quando escrevo sobre as fraquezas do ensino ou a maternidade. Do que a gente gosta é de histórias de pacóvios, pereiras, avós antigas, manicuras mal falantes, raparigas tontas engravidadas por malandros, cabeleireiras machistas, tudo o que nos faça dar graças pela nossa inteligência e superioridade, que ofereça algum consolo pela sorte que nos coube e que, volta e meia, dá ares de ser igualmente miserável. Do que a gente gosta é de pensar que está imune, acima ou adiante. É ilusão, mas ai de nós sem ela! Com que dignidade respiraria o homem douto descobrindo-se igual ao senhor Pereira? Seriam tão hermeticamente elevados os versos da poetisa que visse o esboço da sua melancolia nos olhos da rapariga tonta? Quem revela, de mote próprio e olhos nos olhos, a sua banalidade, o seu sonho idiota, as suas poses de pin up ao espelho, o orgulho bacoco com que tira o automóvel novo da garagem? Quem, enfim, confessa que, em dias de cansaço e descrença, pousa a espada sobre a cabeça dos inocentes?