13.11.17

Mona Lisa e a pin up

A cabeleireira pergunta se é desta que faço qualquer coisa que dê nas vistas, uns reflexos, uns dourados, uma corzinha. Acontece que dar nas vistas pela parte exterior da cabeça é para mim ambição pouca e, de resto, este cabelo nunca até hoje provou gota de tinta ou brilho falso, basta-me o que deus e a genética acertaram entre si.
- Qualquer dia as brancas começam a notar-se e hei de tê-la aqui sentadinha todos os meses... Ou esquece que não vai para mais nova?
Ah, fosse possível a uma mulher esquecer tal coisa! Começamos a envelhecer no dia em que sangramos pela primeira vez. Logo nos vão avisando que já somos uma senhoras, e, muitas das vezes, gostaríamos de continuar a pentear bonecas e a sonhar com cantores de rock. A minha avó, por exemplo, que era contemporânea dos três pastorinhos e a quem tudo na vida pesava como uma condenação, sussurrava-me que era conveniente sentar-me com as pernas cruzadas e falava-me como se o meu corpo se tivesse tornado um antro de ciências ocultas e magia negra. Mas eu ainda gostava de passar as manhãs de sábado na praça a rebolar e a fazer o pino na relva e chegava a casa vergonhosamente tingida de verde, a cheirar a poeira e a brisas de outono. Dir-me-ão que as coisas hoje em dia são de outro modo, mas eu tenho sempre para mim que o mundo não evolui tanto quanto aparenta.
Porém, são outros os pensamentos da cabeleireira quando me alerta para os avanços da idade. Vai-me massajando a cabeça, afasta-se, aproxima-se, aprecia de frente, de lado e de trás.  
- E há outra coisa, menina. Isto das brancas e da idade... a certa altura, se a gente não se cuida, eles trocam-nos por outra.
Enfrento-a no espelho, mas nada me ocorre que valha a pena investir contra a tolice. Em fila de espera para arranjar as unhas, a dona Maria Isabel folheia uma revista com aqueles dedos coroados de pedras muito antigas. Levanta os olhos a espaços, sorri para ninguém de coisas que só ela vê ou sabe e retoma a leitura para disfarçar a sua permanente vigilância sobre o mundo. Quem tem resposta pronta é a manicura – e quem havia de ser? –, minha personagem favorita do mundo real, que escancara o óbvio, ri-se das vergonhas do mundo e faz estalar os vernizes enquanto pinta as unhas às clientes.
- Ó Gracinha, olhe que o seu nome não é ao calhas, você tem mesmo graça.
A cabeleireira empertiga-se, fica a segurar-me em duas mechas de cabelo como nas rédeas de um cavalo e confronta a manicura.
- Então porquê?
- Tem medo que o seu homem a troque por outra? Mas você é algum automóvel?
- Tu és muito nova, nem casaste ainda... sabes lá do que falo.
- Mas eu e o pai do meu filho amamos-nos a valer. E agora? Sou menos que você?
- Não é seres menos. Mas, um dia, se lhe dá na veneta, ele vira-te as costas sem satisfações.
- Ai, e eu pintando o cabelo ele volta?
- Não é pintar o cabelo, é um bocadinho de brio, pronto.
- Então e acha que eu não tenho brilho?
- Brio, filha. Brio!
- Ou isso.
Levanta-se a manicura, dá uma voltinha, põe à vista a sua exuberância, a sua alegria, as cores vibrantes da roupa, o riso muito aberto, muito são, o corpo que ela não esconde nem maldiz. Para de repente, uma mão na cintura, a outra na cabeça, o joelho dobrado, o ânimo e o orgulho a estourarem, como fogo de artifício, numa estupenda gargalhada. 
- Isto é brilho que chegue! E aposto que a dona Maria Isabel não me desmente.
A dona Maria Isabel, que não precisa de alardear para ser escutada, pousa a revista, cruza as mãos sobre o regaço, as linhas do rosto fixam-se num sorriso perturbador. É a Mona Lisa. Sei que o que ela disser há de ficar gravado como lei na memória daquelas mulheres. Por isso os secadores desligam-se, a água para de correr nas torneiras, a cabeleireira abandona o meu cabelo no cocuruto, preso por duas molas, a manicura aguenta-se, feliz, na pose de pin up. Já vi isto antes: o mundo inteiro suspenso no cabeleireiro e, lá fora, os rumores do quotidiano ganhando distância e perdendo a lógica. 
Os dedos da dona Maria Isabel fazem girar o elo de ouro no anelar esquerdo. O que dirá a senhora professora, a mulher que estudou as infimidades do universo e conhece as energias que endoidecem os átomos e agitam o carrossel?
- Dona Maria Isabel! Não responde? - a manicura estala os dedos para acordar aquela que supõe estar a dormir. 
- Desculpa filha, não te ouvi. Estava aqui a cismar no que li agora, esta história toda do Carrilho e da Bárbara...
A dona Maria Isabel nunca dorme, ainda que aparente.