23.11.17

It's a girl

A mensagem acompanha a ecografia que entra no meu e-mail, vinda do outro lado do mar. 
Eu aqui, tão enraizada, procurando novos ângulos para este horizonte que não muda, tirando duas vezes ao dia as medidas do mesmo itinerário, contando horas e carneiros, variando invariavelmente ao longo do mês, pedindo férias para ir dar ao espírito banhos rápidos de novidade, oh, que alegria me dá saber que ao menos genes meus se espalham pelo mundo, sementes levadas nos perturbadores ventos da mudança e na corrente de amores inadiáveis. 
Resistirá, em país estranho, a vogal nasalada do meu sobrenome? Nascerá a girl com a recordação – como coisa que fosse impressa no adn – do gosto de um lombo de bacalhau regado com azeite transmontano, do cheiro do vinho generoso a fermentar, da mesa de Natal onde, a cada ano, mais uma cadeira se acrescenta? Saberá dizer uns versos de Pessoa e terá na ponta da língua, como frase feita, quase provérbio, tudo vale a pena se a alma não é pequena? E nos dias resignados, melancólicos, sem alento, aprenderá a responder vai-se andando a quem lhe perguntar dos seus humores? Conhecerá a palavra que nomeia a consistência híbrida do que sinto ao olhar a sua fotografia, vulgar ultrassom que só a custo decifro? Saudade antecipada, a impressão de haver um ponto no meio do oceano onde a memória e a esperança se acodem uma à outra para livrar um coração do naufrágio.