25.11.17

Indignidade

Desde que a câmara mandou construir passeios ao longo da estrada, acabou-se o paliativo instantâneo para as aflições dos homens. Antes, bastava-lhes encostar os mercedes e os audis na berma e as prostitutas entravam e aviavam-nos logo ali, em menos de um ai. Os meus filhos costumavam perguntar-me o que faziam aquelas mulheres à face da rua a horas impróprias, sentadas em banquinhos de praia, gordas como baleias, desfeitas como trapos, pintadas como bonecas. Vendem sexo, dizia-lhes deste modo porque sou fraca em eufemismos e, em todo o caso, não teria como fantasiar.
Agora, acabaram-se as perguntas porque a construção dos passeios disciplinou tanto a exposição do produto como a afluência de clientela. Mas os sinais estão por toda a parte: uma bolsinha no chão, um casaquinho pendurado num ramo, às vezes um par de sapatos entre as folhas caídas como se largado ao acaso. O negócio continua a fazer-se se os homens estiverem dispostos a investir mais tempo, paciência e trabalhos. Ou estacionando centenas de metros adiante e indo a pé até à orla do mato ou galgando à força os passeios e avançando ao volante por entre os arbustos, pondo em risco o estado irrepreensível dos seus automóveis. Suspeito que à maioria deles qualquer destas hipóteses pareça uma indignidade e o mais provável é que tenham ido procurar onde possam voltar a ser servidos sem demoras nem esforço.