19.11.17

Estrelas

O mais velho enoja-se ao ver de perto as imagens do nascimento de uma girafa. Compreendo a sensação se tentar olhar pelos olhos dele, que é sabedor mas, na realidade, inconsciente da sua origem. Todas as criaturas nascem como dejetos, como rejeitados, como sobras de uma vida anterior. Trazemos agarrado à pele tudo o mais que repugna e não presta. Chegamos cegos, incapazes, sem brilho nem garantias. A Terra é o caixote do lixo de Deus. Estrelas pô-las Ele a pairar nos céus, fora do nosso alcance, para obter de nós o assombro e a submissão. O mais novo, leitor fervoroso de enciclopédias da vida selvagem, compadece-se da agonia do irmão: não te preocupes, a mãe há de lambê-lo para que fique bonito. Pior a emenda que o soneto, o vómito assoma à boca, mas eu aproveito a deixa para enredar a conclusão que me convém: é o amor generoso que nos salva da indignidade.