27.11.17

De onde vens?

Como é que ela pode estar a crescer tanto sem eu crescer com ela?, pergunta-me a rapariga da papelaria destapando o rosto da filha. Ah, não mentiram os que anunciaram a sua perfeição assim que veio ao mundo! Aninhada numa nuvem rosa de veludos, malhas e bordados, envolta num universo de ternura perfumada, Alice encara-me franzindo a testa como a sua avó relutante. Desconfio muito da inocência dos recém-nascidos e penso às vezes que talvez saibam mais do que aparentam. Têm uma espécie de frontalidade inquisidora, bem disfarçada na hora de pedir aconchego e alimento. Quando os meus filhos nasceram, eu passava horas, dias inteiros em amorosa observação fazendo a mesma pergunta: de onde vens? Creio ter estado demasiado tempo à espera de uma resposta, ao invés de me empenhar nas vulgares obrigações de mãe, atentar na evolução do peso e do tamanho, palpar-lhes as gengivas à procura de dentes ou pesquisar a instituição de ensino com as instalações mais asséticas para dali a cinco anos. 
Hoje, penso que talvez os tenha contaminado com essas e outras inquietações supérfluas. Habitaram o meu corpo e dele se alimentaram durante tanto tempo, não admira que lhes tenha passado muito mais do que células, venenos e nutrientes. Porém, quando procuram em mim a resposta para os mistérios que lhes atordoam o pensamento, eu reparo que nada mudou. Todas as minhas dúvidas sobreviveram e voltam à tona a pedir ar. Nada é mais certo agora do que antes.
É por isso que compreendo a rapariga da papelaria.
Já a avó, essa desconfia da pergunta, vê-lhe sentido nenhum, mas onde é que foste buscar o disparate, crescida já tu és, ainda que te falte juízo! E manda que a filha se endireite e espevite, porque a boa vida já lá vai e não há como voltar atrás.