7.11.17

Certas palavras

Mãe é mãe, finalizou a mulher na sala de espera, sem reticências. Ah, nisso concordo contigo, disse a outra como se a primeira tivesse exposto um rol de profundos argumentos. Um gesto similar com a cabeça fez prova do consentimento mútuo, de uma inteligência una. Ficou dito o quanto podia dizer-se, não houve perguntas ou explicações. 
Certas palavras vivem com uma independência luxuosa, caminham pelo próprio pé, dispensam a esmola de outras que, ao deitar-lhes a mão, serviriam apenas para diminui-las. São como a roda gigante do universo, que se autoalimenta e justifica sem recurso ou artifício. Há outras além de mãe – ocorre-me, pelo menos, dor – e todos os dias são corrompidas por tantos que acreditam que da descrição vem sempre a riqueza, falando em nome do mundo e dos corações alheios. Mas mãe é mãe, apenas disse a mulher, sabendo que é menor o mal de uma repetição do que o de um adjetivo. E como poderia a outra ter discordado?