20.10.17

Triângulo

Enquanto o país ardia, Alice desesperava no ventre fechado da mãe. A natureza abandonou o trabalho a meio, as hormonas confundiram-se e só com bisturi se chegou a um final feliz. Veio ao mundo no princípio da noite, quando um vento rebelde se levantou do nada, bramindo maus prenúncios pelas frinchas das janelas. Que linda menina, disse o obstetra ao libertá-la. Que linda menina, disse a pediatra, auscultando-a. Que linda menina, disseram as enfermeiras quando a encostaram ao seio da mãe. Assim me conta a avó que já sabemos relutante, medrosa dos acasos, desconfiada de atos de amor sem acabamentos oficiais. Não houve quem não notasse como é mimosinha... Vendo que os doutores não perguntavam pelo pai e que ninguém comentava os olhinhos tão rasgados da bebé, e recordando ainda, pela sua experiência, que a hora da verdade é, afinal, apenas entre mãe e cria, começou a desistir da sua oposição às circunstâncias. Só nós, mulheres, sabemos como dóiE enquanto dói, eles pedem-nos o comer na mesa. Se é para isso, de facto antes vale ficarem longe.
Quero muito desdizê-la: ainda que lhes esteja vedado o entendimento absoluto das dores do nosso ventre, há homens de caráter, companheiros leais, amantes generosos, observadores das fases da Lua, ouvintes atentos dos rumores da Terra. Mas se lhe digo isto, ela recupera a certeza de que a filha foi tola, vítima de má sorte e de fracas escolhas, e de novo se recusará a ser solidária. 
Não. Por agora, dane-se a reputação masculina. Que falem os homens por si. Eu proíbo-me de quebrar a harmonia deste triângulo de mulheres que tanto demorou a nascer.