15.10.17

Feira de domingo

Fui à feira de velharias procurar azulejos para o acabamento de uma das minhas carolices de fim de semana. O mais novo, muito permeável ao apelo das cores e dos plásticos, parou em todas as bancas e deslumbrou-se com a bonecada de fraca qualidade que vendem por tuta-e-meia para esvaziar os sótãos: surpresas de ovos kinder, brindes de happy meal, super-heróis desbotados em que nenhuma donzela confiaria. Manhoso, foi-me chamando a atenção para as bancas de livros, com o puro intuito de me distrair e ganhar tempo de escolher onde gastar os seus cêntimos. Não encontrei azulejos, mas interessei-me por uns sabonetes embrulhados em plástico transparente. A vendedora explicou que põe neles muito brio e não usa químicos. Os sabonetes naturais enfraquecem-me, a textura grosseira da aveia e das sementes e o perfume das ervas e dos óleos essenciais deixam-me mansinha e maleável. Vai que não vai para trazer um, mas se já tinha torcido o nariz à embalagem plástica, mais torci quando os cheirei e senti laivos de naftalina, nem o mais leve sinal de alfazema, rosmaninho, jasmim ou eucalipto. Não há sabonetes naturais como os que mando vir propositadamente de Lisboa para a minha higiene e deleite. Quando me chegam pelo correio, em envelope acolchoado, o aroma dos prados, das florestas e dos pomares enche a casa inteira de uma eterna e alegre primavera, impregna-se na roupa e dispõe-me o coração a romantismos. Bairrista que sou, incomoda-me ainda não ter encontrado melhores aqui no Norte, pese embora os dois anos de buscas e experimentações que já lá vão (se eu fosse uma blogger espertalhona, o mais tardar na quarta-feira já estaria a receber amostras de sabonetes dos quatro cantos do mundo). Disse adeus à vendedora e aos sabonetes fajutos. Por vinte cêntimos, o mais novo comprou um monstro a uma senhora que teve cinco AVC e dois cancros, que rico menino, tomara que Deus me dê um netinho como tu. Mais tarde, passando por uma banca com carrinhos antigos, arrependeu-se do dinheiro já gasto com precipitação e eu satisfeita de ver como a vida faz dispensáveis os sermões dos pais.
Quando entrei no pão quente, saía o senhor Pereira com uma roca fumegante e um jornal debaixo do braço. Fez-me a festa do costume, deu um carinho ao mais novo, perguntou pelo irmão e ofereceu-me o jornal: já li, fique com ele se lhe interessa. Aceitei, agradecida, e pus freio à língua antes de lhe dizer que aquilo só me faz jeito para limpar os vidros. Ao final da tarde, como qualquer pessoa de vida facilitada, tomarei um chazinho com biscoitos de fubá e aninhar-me-ei entre as almofadas a ler um livro, coçando as têmporas por vício e mimo. Limpar vidros é que nem pensar.