17.10.17

Creme de beterraba e lentilhas vermelhas

Quando faço creme de beterraba e lentilhas vermelhas, os meus filhos consideram a hipótese de eu ser a melhor mãe do mundo. E se acrescento coentros frescos picadinhos na hora de servir, é certa a minha elevação a deusa criadora de todas as maravilhas que há no céu e na Terra. Sou perdoada pelos rigores a que os obrigo e pelos abusos físicos que os impedem de respirar: beijos, apertos, declarações de amor e outras inconveniências publicamente dispensáveis.
É tão inglória a maternidade. Dias, meses, anos de entrega, noites nas urgências de hospital, viagens adiadas, leituras interrompidas no clímax, a incómoda soberania do relógio, os olhos fixos no telemóvel pela noite dentro, quando chegares liga a dizer que estás bem. Os túneis fundos, obscuros, por onde circula a desoras uma aflição miudinha, um pavor de existir sem nada saber. Que é deles se me falha o coração, se um automóvel me abalroa na estrada, se perco a memória, o bom senso, a mão direita? E afinal, é um creme de beterraba e lentilhas vermelhas com coentros frescos, aviado em três quartos de hora, que faz prova do meu amor.
Mas, enfim, que lembro eu acima de tudo o que a minha mãe por mim fez, desfez, sacrificou ou calou? A sua mão pousando na minha testa, um gesto de segundos com que sonharei pelo resto dos meus dias. Entretenho-me então a imaginar absurdos, cenas cómicas: os meus filhos já adultos sussurrando ao ouvido das amantes, depois do êxtase: sabes o que é que me apetecia agora? O cremezinho de beterraba e lentilhas vermelhas que a minha mãe fazia.


(Estalar uma cebola em pedaços num fio de azeite. Acrescentar uma beterraba em pedaços, uma cenoura às rodelas e duas mãos de lentilhas vermelhas. Água até cobrir. Trinta a quarenta minutos de cozedura. Varinha mágica. Coentros picados. E muito cuidado: a cor seduz e a consistência amacia a aridez de qualquer coração)