10.10.17

Alta voz

A Mena acabou tudo com o Francisco. Acordou de manhã e disse "é melhor ires embora, já não vale a pena". E ele? Não tugiu nem mugiu, demorou-se no banho e quando regressou nu ao quarto, cresceu nela um nojo insuportável por aquele corpo, pelas irregularidades ósseas, pela monocelha, pelo sinal peludo no antebraço, pelo sexo recolhido, ridículo, risível. Oh, Mena, que horror... Verdade, sim, até deu graças por não ter conseguido engravidar, só de pensar em ter filhos que herdassem tais modos e feições! E depois? Ele levou o essencial, vem buscar o resto no fim de semana. E tu? Acredite quem quiser, porque nem sabe explicar, mas assim que ele saiu vieram-lhe umas forças estranhas, pareciam subir da Terra, desde as plantas dos pés. Arrancou quadros e fotografias das paredes, virou as gavetas da mesinha de cabeceira no chão, abriu o guarda-fatos, tirou metade dos casacos e das calças, descartou finalmente todos os brincos sem par. Conjuntinhos de lingerie ainda com etiqueta foram para a empregada da mãe. Já agora também uns botins e umas sandálias usadas apenas uma vez, que ela sempre foi boa rapariga, coitada. Livrou-se de tudo o que pôde. Encheu três sacos de lixo e outros tantos para doar. Perdeu o pudor, a memória e o apego. Oh, Mena, mas tu no princípio estavas tão apaixonada. Ora, exatamente. Mas tinha descoberto o segredo: nunca deixar arrastar o amor para lá do seu princípio. 
E disto eu fiquei a saber hoje de manhã, pelos vidros abertos do carro que seguia ao meu lado no para-arranca da avenida.