25.9.17

Vénus de Willendorf

Estranhando a minha reflexão crítica em torno das filhas do senhor Pereira, perguntaram-me de chofre se fui eu a amante dele.

– intervalo para sorrir –

Elevadas expectativas. Isto é só um blogue com impressões do quotidiano, não uma novela sul-americana que vá, a espaços, sugerindo o extraordinário e o improvável para viciar o leitor. Ora, a amante do senhor Pereira em tudo se opõe a mim: é uma Vénus de Willendorf com o tempo ocupadíssimo e uma vida orgulhosamente urbana, rodeada de gadgets e sapatos com preço para durar uma vida e design para cansar num ano. Precisa que, apesar de tudo isso, alguém lhe lembre que ainda é uma mulher. E se o senhor Pereira é fraco em muita coisa, para isso deve ser bastante. Obviamente que ela carece da excentricidade da viúva, nem perto chega da beleza da rapariga tatuada e falta-lhe a graça jovial da doutora. Mas consigo imaginá-la, com desenvoltura e altivez, segura do seu corpo abundante, a livrar-se dos lençóis onde o senhor Pereira lhe consola todos os cantos da carne e a despachá-lo, já de olhos postos no telemóvel: agora vai, que eu tenho um jantar. Ele vai, de qualquer modo iria, que um homem casado tem horas para tudo, até para as suas vontades. Só duas, três semanas depois, talvez por falta do que fazer, ela voltará a lembrar-se dele e ligará, dócil e vulnerável como uma criança: amor?


(se acaso eu me desse a um homem que não lê além de jornais, gasta os serões em frente à televisão, passa férias enclausurado em resorts asséticos, tem pelo automóvel um amor igual ao que nutre por si mesmo, teme o silêncio e a quietude, ignora as fases da lua e o perfume dos equinócios, não o escreveria num blogue. Contá-lo-ia em livro. Ilustrado.)