26.9.17

O sentido da vida

O mais novo pergunta-me se eu sei qual é o sentido da vida. Apanha-me de manhã, em jejum, no preciso instante em que barro as torradas com manteiga e mel de eucalipto e o meu palato saliva como o de qualquer bicho irracional.
- O sentido da vida?
Repito a pergunta a ver se ganho tempo, estendo-lhe a taça de fruta e a caneca de leite, com esperança de o distrair e poder dizer-lhe, caso insista, que não se fala com a boca cheia. Sim, se eu já descobri o sentido da vida. Ah, o milho tostado do pão cheira tão bem! A manteiga derretida e o mel encharcam-me a polpa dos dedos, sorvo tudo com a língua, prazer e pensamento incompatibilizam-se, sai o prazer a ganhar.
- Queres então saber qual é o sentido da vida?
Sim. Tem a boca cheia de manga e framboesas e, em fila de espera, estão já duas rodelas de banana. Não o gabo ao ponto de achar que a pergunta é de mote próprio. Antes presumo que a tenha ouvido ou lido algures e, vendo nela algum charme, entendeu que ficaria bem reproduzi-la como coisa sua. Gostaria francamente de lhe responder, mas é crime deixar esfriar as torradas, cheira-me agora a canela e às laranjas que acabei de espremer, vou só buscar uma maçã e um iogurte. 
- Então o sentido da vida, é isso que me perguntas?
Sim. Qual-é-o-sen-ti-do-da-vi-da? Amanhã talvez faça panquecas, adianto, é questão de me levantar ainda mais cedo. Mando que beba o leite e coma pelo menos uma fatia de pão, não pode empanturrar-se só de fruta. Mordo a torrada, fecho os olhos, mastigo com uma preguiça luxuriosa, cada uma das minhas células reclama para si igual deleite na sua merecida e ínfima proporção. 
- Ora bem, o sentido da vida...
Ah! Lembrei-me! Sobrou bolo de chocolate de ontem, é comer enquanto está fofo e antes que se estrague. Abro a caixa, ainda há três fatias, precipito-me com ganância, o bolo esfarela-se, a cobertura de natas e cacau cola-se-me aos dedos, outra vez a língua apanha o que é pecado desperdiçar. Levo um naco para a mesa, sento-me de novo, e com os beiços brancos, de ternura láctea, ele faz então a pergunta que me alivia:
- E o que é que vamos comer ao almoço?