29.9.17

O sentido da vida (2)

Enquanto a diretora de turma explica em detalhe aos pais como se calcula uma média aritmética, recorrendo a powerpoints e lembrando que é nesta corrida de números que se decide o futuro, a minha deceção e o meu medo tomam corpo nestas linhas. Anoto-as no verso da folha que me deram com informações sobre horários de atendimento, regime de faltas, calendário letivo e quantidade de horas extra de apoio e compensação, tudo isto, afinal, números também. Os pais desassossegam-se nas cadeiras, querem saber ao certo quanto valerão as classificações finais, quanto valerão as notas dos exames, se a educação física também conta. A diretora, que eu desculpabilizo por saber que é mais vítima do que carrasco e tem a má sorte de ser o sinal visível deste cancro, a borbulha inofensiva que revela a malignidade no cérebro, a dorzinha nas costas que anuncia a podridão no ventre, põe-se então a detalhar, com uma condescendência maternal, as percentagens. 
Toda a gente gosta de números. Os números organizam em gavetas, delimitam zonas, dão segurança quando toda a realidade é caos, incerteza e dúvida. Os próprios pais quantificam o valor dos filhos, até nos territórios onde a vida deveria correr com prazer e felicidade: quantas medalhas ganhaste, em que lugar ficaste, quantos golos marcaste, em quanto tempo fizeste, quantos fizeram melhor, quantos ficaram atrás? 
A diretora diz que não quer assustar, porém, foge-lhe a boca para a verdade, a inquietação vaza pelas brechas mal disfarçadas da sua sobriedade. Será uma corrida contra o tempo, não sabe como conseguirão dar tanta matéria – porque a matéria, pelo visto, dá-se, não se ensina, e isto já é pensamento meu, que anoto no verso da folha dos números. Estudar todos dias, deitar mais tarde e levantar mais cedo, se for preciso. Ser doutor ou engenheiro é para quem sua (e eu a julgar que é para quem sabe). E os que não aguentarem, sempre têm as artes e as ciências sociais. Ao fim de semana estudar mais ainda, é um sacrifício fun-da-men-tal, mas não diz em nome do quê, de que futuro, de que país, de que mundo, de que gente. 
Saio derrotada, descrente, perguntando-me que homens e mulheres disto tudo vão nascer. Depois de uma corrida assim, que não almeja conhecimento mas classificação, quão trôpegos ficarão os seus membros, quantas nódoas negras no corpo, que níveis de insuficiência cardíaca? 
O mais velho teve um amigo cuja mãe me dizia, nos intervalos das suas longas tardes no shopping: enquanto o meu Vasco não me aparecer com menos de 85%, estou absolutamente tranquila. Não suspeitava – e nunca chegou a saber – que o seu Vasco nos telefonava a desoras e com voz de mimo implorava que o fôssemos buscar porque não queria mais viver na própria casa.