16.9.17

A melhor mãe do mundo

Recordar-se-ão os leitores que a rapariga da papelaria estava grávida e acalentava, sem disso fazer segredo, o sonho de ter um menino. Julgaram, talvez, que a história tinha morrido ou que não me interessava contá-la por não coincidir com o meu prenúncio sobre o sexo do bebé. Acontece apenas que entretanto fui de férias, depois a papelaria fechou portas por quinze dias e durante algum tempo o mais novo não colecionou cromos. De modos que só no início de setembro lá voltei, para acertos de contas com os senhores das autoestradas, e fiquei a saber que nasce no fim deste mês a menina. Alice.
No dia em que me dá a novidade, mostra-me o babygrow cor-de-rosa que a Gisela do pão quente lhe foi oferecer de manhãzinha. Estende-o no balcão, em cima das revistas, e, com ternura, sacode-lhe poeirinhas imaginárias e alisa-lhe os vincos.
- Não é lindo?
Afago-o sem pudor e a textura dócil do veludo remexe-me as lembranças, os olhos enchem-se-me de lágrimas ao recordar o perfume lácteo dos bebés que já não tenho, o choro manso a pedir alimento e aconchego a desoras, os dedos miudinhos, transparentes, abrindo-se em leque e pousando no meu seio. A voz sai-me fraca, sinto-me humilhada pela passagem do tempo, esmagada por uma saudade vã, impossível de matar.
- É muito lindo, sim.
- Sabe que até estou contente por ser uma menina? Vai ser mais fácil conversarmos sobre certas coisas.
- Que coisas?
- Coisas que... sei lá, do corpo. Se fosse um menino, assim sem pai presente, ia-me ver aflita para explicar-lhe... prontos, quando ele se tornasse um homenzinho. Está a perceber?
De novo me sobem as lágrimas aos olhos. Disfarço-as vasculhando o porta-moedas e digo-lhe que dá no mesmo, é só explicar a anatomia e a fisiologia e o resto cada um descobre por si, na sua intimidade, com a sua experiência.
- Ai credo, não me fale já dessas coisas que me faz medo. A minha Alice ainda há de demorar para crescer, se Deus quiser. E Ele há de ajudar-me a ser a melhor mãe do mundo!
De facto, a barriga dela, imensa, redonda, parece o mundo inteiro suspenso numa paz original, na silenciosa e irrecuperável perfeição do universo. A rapariga da papelaria é gente boa. Mas as pessoas descrentes como eu tendem a classificá-la como tonta apenas porque lhe invejam a persistência dos sonhos e o romantismo que a vida merece, do primeiro até ao último suspiro.