23.8.17

Labirinto

- Não dizes nada?
Bebo o café com o ritmo vagaroso que sempre uso e tanto enerva os acelerados. Ela insiste:
- Não tens opinião?
Passo a chávena por água. Ela continua:
- É que isto é grave. Deseduca os miúdos.
Uma gota de detergente e levanta-se a espuma. Ela exalta-se:
- Acho inacreditável. Nos dias de hoje?!?!
A chávena está imaculada, limpo-a, guardo-a no armário. Ela pergunta-me:
- Alertas os teus filhos para estas questões da igualdade? 
Saio sem dar cavaco. Tenho de trabalhar. Era o que me faltava gastar esta conversa com a mesma pessoa que há duas semanas me franziu a testa ao saber que o meu filho passa a roupa a ferro. "Ai, coitado", foi a única coisa que então lhe ocorreu dizer.
A minha geração está suspensa, perdida entre dois mundos: o passado, que teme e não quer repetir, e o futuro que, para transformar, exige fibra, pulso e consciência. Para se livrarem deste labirinto, não chega bradar às paredes que tem de haver uma saída.