22.8.17

E depois?

À medida que se aproximam da eleições, vão-se esburacando as ruas para a obra parecer vasta. Se é coisa de última hora, pouco importa, tal como pouco importa que abram e fechem sem que se veja diferença. Até no lugar onde moro, tão sossegado que os bichos e os fantasmas andam por onde querem à luz do dia, se instalaram as escavadoras, os penumáticos e os homens de tronco nu. Todos os dias tenho de refazer percursos, desviar por onde nunca estive, meter por quelhos e bouças.
E depois?
A dona Cesaltina continua trôpega no andar, de pernas enfaixadas, apoiando-se nos muretes e na piedade das vizinhas. Na sala de espera do centro de saúde, um homem conta que já não vê o filho há dezassete anos. Estão à porta as festas da freguesia e o presidente da junta vai enfrascar-se e subir ao palco para cantar ponho o carro / tiro o carro / à hora que eu quiser. No funeral de um tipo vulgar, a amante chora copiosa e despudoradamente enquanto a mulher se encolhe de vergonha por não ser sua a maior perda. Morto, já não pode o tipo pedir à amante que seja discreta nem à mulher que erga a cabeça e sorria. O senhor Pereira anda danado com as impertinências que a canalha desenha na tela de pó do seu mercedes. Tem saudades do brilho da novidade, do dia em que saiu do stand dos usados com garantia trazendo o sonho de uma vida nas mãos – matéria, temperatura, consistência, movimento. Mas, enfim, o tempo passa, as coisas gastam-se, abrem-se e fecham-se os buracos na rua, levanta-se a poeira e depois vêm os dedos na canalha, sempre tão inconvenientes, piorar tudo. A mulher procura apaziguá-lo, deixa lá, homem, o que se suja também se lava. Mas não é bem assim, penso eu. Não é bem assim.