30.6.17

Quero pato com pimenta

Entrevistas em que se pergunta ao escritor das intenções e mensagens do livro e ele responde urdindo, teorizando, complexificando, intelectualizando, são um fastio. Nestes casos, quase sempre, a obra desilude-me. A mim, como leitora, bastar-me-ia um pouco de honestidade da parte de quem escreve. Um lembrei-me desta história e deu-me para contá-la e eu agradecer-lhes-ia, de coração. Não me imponham o significado e o entendimento das coisas, deixai-me ir pelo meu pé. Se houver entrelinhas, quero ter inteligência para as decifrar. Se não as houver, ficarei feliz com o prazer de ler o verbo bem manobrado, de ter o retrato diante de mim, de num momento pensar que tudo é uma coisa para logo descobrir que pode ser outra e deitar-me a dormir pensando nisso. 
A esse propósito, tenho como referência o alívio que me deram certas palavras de Agustina Bessa-Luís, impressas na badana do livro comentado: Agora, o que se diz da Sibila surpreende-me bastante. Dividem-na em porções, como os mapas de campanha, e descobrem nela teoremas de Lacan e de Freud. Eu sempre pensei que a Sibila era a minha tia Amélia, vaidosa e com jeito para coisas de tribunais, e que sabia como ninguém estufar um pato com pimenta, num lume de rama de pinheiro. A resina, ao arder, dava ao pato um sabor especial. Entre isso e Lacan não sei que relação haverá.