29.6.17

De D. Sebastião a Salvador Sobral, do Bojador à Troika, dos oceanos às redes sociais

Pouco me importa o que o Salvador Sobral diz, fuma ou bebe. Preocupam-me mais estas paixões febris que temos, esta busca doida por heróis em que sempre andamos e a quem nos encostamos para remediar os sonhos que não perseguimos, as vontades a que não obedecemos, os projetos que adiamos. Toda a esperança, toda a expectativa, toda a gratidão assim depositadas, de olhos fechados e coração aberto, quanto nos custa depois! O cantor, o escritor ou o jogador da bola glorificados como divindade, como gente a quem tudo devemos e que, por seu lado, nos deve o pagamento de todas as faturas que temos em atraso. Que poupem por nós, meçam por nós, moderem por nós, dêem a cara por nós, invistam por nós.
Coitado do Salvador Sobral, que só por um gracejo sem graça, um disparate adolescente, nos pôs a dar sermões e a cobrar com tal fervor que até parecemos gente dura, que sabe ao que anda e insiste em lá chegar. Apesar de todas as conquistas, dos cabos dobrados, dos territórios explorados, dos gigantes derrubados, o país está na mesma: instável e leviano na gestão dos seus ganhos.