7.5.17

Os dias da minha mãe

A minha mãe teve seis filhos, mas nunca lhe faltou a paciência nem perdeu o espírito. Como sou caçula, até uma certa altura os meus problemas foram diminuídos aos seus olhos. Uma espécie de pulseira azul na triagem de Manchester, o que não era de condenar, pois se o meu irmão era chamado para cumprir serviço militar e as minhas irmãs estudavam para exames e tinham arrufos com namorados, qual a importância da corrente solta da minha bicicleta? Em compensação, por não ter nascido ninguém depois de mim, foram meus e só meus, durante muitos anos, o seu colo, a sua cama, os seus mimos. E a minha avó, entredentes: se tem algum jeito, uma marmanjona pendurada na mãe!
Versejava com graça e destreza, bastava dar-lhe mote. Dançava, contava, escrevia, tinha um humor garoto e uma cativante subtileza na forma de provocar, ironizar ou apanhar alguém em falta. Foi com ela que aprendi que a elegância pede tanta moderação no uso do acessório como na exibição do essencial, mas como não lhe herdei a beleza - os deuses não podem estar presentes em todas as criações - fracasso todos os dias na tentativa de a imitar.
Tal como os meus filhos, também eu me habituei a dividir a minha mãe com os livros sem inveja ou conflito. Porém, às vezes, aborrecia-me de não haver quem brincasse comigo e a minha impaciência era tal, o ócio desesperava-me tanto, que eu caía aos seus pés repetindo um choradinho:
- Não sei o que hei de fazer!
Ela fechava o livro para poder dar-se só a mim, olhava-me com uma profundidade azul, comovida, magnética, e dizia:
- Então inventa.
E não houve jamais outro conselho que me fosse tão útil nas voltas e reviravoltas da vida.