15.5.17

Lugar-comum

Era uma solução triste, mas nem por isso descabida. Foi até a primeira a ocorrer-lhe quando se achou grávida. Antigamente não, mas agora é simplesa gente chega lá, diz que não quer o filho e prontos, fazem-se as coisas bem feitas e com limpeza. Mas depois do susto inicial, a rapariga da papelaria ficou a matutar por tanto tempo que esgotou o prazo para reverter o incidente: e se não voltasse a ter outra oportunidade de ser mãe? 
Acha que fiz bem?
Eu não acho coisa alguma. Não é minha a vida, nem o sonho, nem o filho. Tenho sobre o aborto duas visões: uma individual, outra social. Mas a rapariga da papelaria não é eu e também não é um país inteiro, está no território vago da individualidade alheia, perto porque tem nome e rosto, infinitamente longe apenas por ser outra. Dela apenas sei que tem trinta e poucos, um cabelo de ouro falso, é doce e atrevida, idealiza o amanhã com uma melancolia que cheira a velhice de pantufas. Porque me faz perguntas difíceis? Decido responder-lhe com um lugar-comum. Os lugares-comuns são obra de génio, as únicas verdades que não podem ser desditas. E este serve o propósito e salva-me a mim: 
- Acho que deve fazer sempre o que o coração mandar.
A rapariga da papelaria tem sonhado muito com um amor eterno. É um sonho tão puro, tão desarmado, que talvez Deus se tenha disposto a realizar-lho como deve ser: nada de versões fajutas, não um homem com flores na mão ou mel na língua, não um pedido de casamento de joelhos, não um êxtase vulgar, de rotina, obrigado por um contrato vitalício. Um filho, só. O filho amará sempre, apesar e para além de tudo, por cima de palavras mal ditas, portas batidas, mesas reviradas, culpas, tareias, enganos e distâncias. 
- Só espero que...
Interrompe-se com um suspiro e eu, para não a constranger, disperso os olhos pelas revistas no balcão.
- Não é por nada, mas eu preferia mesmo que fosse um menino.