4.4.17

Um lugar para o senhor Pereira

Persiste na implicância com a juventude, o senhor Pereira. Quando me vê caminhar lenta, ó menina, se eu tivesse a sua idade não tinha essa moleza. Se calha eu andar mais ligeirinha, quando chegar a velha vai perceber que foi inútil correr. Feliz pelas coisas que possuo, o vosso problema é que nem se lembram de quem não tem nada. Triste pelo que me falta, vocês agora não dão valor ao que têm. Vendo-me sair de carro, antigamente fazíamos muitos quilómetros a pé, automóvel era um luxo. Se vou de bicicleta, que desperdício, um automóvel na garagem e vai ao pão assim? Saio a pé e se trabalhasse como trabalhávamos antigamente não se aguentava nas canetas. Aparecendo-lhe os meus filhos alegres, faladores, a criançada agora é muito irrequieta, não se controla. Mas se os sente macambúzios ou introspetivos, hoje em dia é só facilidades e mesmo assim andam sempre insatisfeitos, vá-se lá perceber... Boas notas? O que conta são os ensinamentos da vida. Notas fracas? Sem estudar não se vai a lado nenhum.
Nada que venha de um menor de cinquenta anos obterá a concordância do senhor Pereira. Terá sempre uma verdade superior, com legitimidade para desaprovar e diminuir. Viveu o vinte e cinco de abril e para ele isso é a condição da maturidade, sendo que a ideia de viver o vinte e cinco de abril é apenas a de ter nascido antes da revolta pois não creio que o senhor Pereira tenha dado o corpo ao manifesto ou sofrido, nem no pré nem no pós, mais do que mera inquietação com os tostões amealhados na banca. De modos que se ri de mim por eu usar fraldas à data. Nada sei sobre ditadura e liberdade. Nada posso saber sobre coisa alguma.
Vejo-o passar no carro novo, devagar, cheio de cuidados, tenso, de olhos arregalados, medroso de qualquer risco ou caganita na pintura, mal medindo as distâncias, travando súbito por tudo e por nada, dando voltas e voltas ao quarteirão em busca de estacionamento com suficiente largueza. 
- Boa tarde, senhor Pereira.
- Boa tarde, menina. Apre! que isto agora é só carros, só carros, só carros, não há um raio de um lugar!
Bufa. E a pintura metalizada do automóvel brilha com esplendor, encandeia a visão e apaga todos os horizontes à volta.