17.4.17

Um domingo tão lindo

Numa esplanada dos subúrbios, fala-se sobre a morte de um homem. Tirou férias para visitar os filhos emigrados no centro da Europa e ficou a meio do caminho, encarcerado no próprio automóvel. Na mesa ao meu lado, dividem-se os géneros na abordagem à tragédia. Dois homens suspendem a leitura do jornal para adivinhar as causas do acidente. Viatura em mau estado, talvez óleo no asfalto, pneus carecas ou algum obstáculo inesperado. A mulher que está com eles desaperta dois botões da camisa para dar o peito ao sol e lamenta as ironias do destino. Não conhecia de perto a vítima mas pode dizer-se que lhe era familiar. Pelo facebook sabia da sua bondade e dedicação às coisas da terra, bem se via que era gente querida pelo entusiasmo, pela graça e pelos inúmeros talentos que, sem cobrar, punha à disposição de todos. Logo ele havia de morrer! Que critério é o de Deus? Sono, concluem os homens. Há gente assim, irresponsável, faz-se à estrada sem noção da lonjura e do esforço. Diz que ele era tão alegre, tão amigo! insiste a mulher. Eles, surdos: a maioria das vezes nem preparam o automóvel para uma viagem destas! Ela quieta, de olhos fechados, consigo mesma: está toda a gente muito abalada lá na freguesia, é uma perda sem tamanho. Eles, reabrindo os jornais: excesso de velocidade, de certeza, é o costume, o portuguesinho tem a mania que é artista... Ela, resignada, esvaziando-se num suspiro: que tristeza esta, num domingo tão lindo.