20.4.17

A primavera, às vezes

Nas redondezas, o frio polar guardou por muito tempo as misérias dentro de portas. Andaram recolhidos os bêbados, os jovens desavindos, as chocadeiras de boatos. Os cães pouco ladraram, não houve rumor ou cheiro de ameaça. Até os bichinhos carpinteiros das crianças realizaram o ciclo da hibernação. O parque infantil ficou entregue ao abandono, dando a ideia de não haver futuro para este lugar. Todos os dias, mesmo ao fim de semana, os ociosos foram despachados do café muito antes das oito. E com a noite, caía sobre a praceta um vazio espesso, insuportável, que é o vazio das ausências demoradas. 
Quem estivesse só de passagem havia de ver em tudo isto a tão romanceada paz bucólica. Os mais citadinos, esses que deliram com qualquer cheirinho de terra húmida, interpretariam esta quietude de morte como a sábia e feliz resignação daqueles que vivem dos ciclos. O que o inverno tem de bom é a ilusão de que a vida não dói, só se faz esperar. Depois vem a primavera esclarecer o equívoco. O calor varre a geada dos prados, nas árvores despontam botões de muitas cores e o canto dos pássaros antecipa o nascer do sol, toda a natureza é um coração aberto e disposto, chamando as misérias para que saiam de volta da lareira e tornem às ruas. De madrugada, às vezes, que susto! Um pontapé num contentor do lixo, o chiar de travões no asfalto, uma ladainha agoniada, um estrondo que pode ser disparo ou embate, a viatura de emergência médica gemendo para se enfiar em becos impossíveis. Os cães, desassossegados, ladram aos espíritos que migram no vento de leste.
Numa destas noites, afligi-me com a súplica de uma voz masculina: Deixa-me, mãe! Deixa-me ir, tenho de ir! E no meio de um choro convulsivo, desesperado, humilhado, uma voz rouca disse não até perder as forças. Quando saí, manhã cedo, procurei em vão aquela mãe entre as mulheres que iam a caminho do lavadouro público, já suando em bica sob as trouxas de roupa suja.