23.3.17

Um amor cura-se com outro

Com a morte trágica da Julieta, revelou-se a minha falta de jeito para lidar com delicadezas e snobismos. Afetada, vaidosa, quase ofendida, Julieta não sobreviveu ao meu amor desprendido, ao facto de eu ter negligenciado a sua importância na decoração e de a ter usado para validar teorias existenciais. 
Como é próprio dos que sofrem desgostos e frustrações, durante algum tempo decidi não mais responsabilizar-me por plantas. E, vendo bem, de que me serve uma orquídea tão perfeita que parece falsa e cujas necessidades o meu instinto não alcança, obrigando-me a recorrer à ciência googliana? Mas depois, arrefecidos os ânimos e relativizadas as perdas, cedi à máxima de que um amor se cura com outro e aceitei, com infantil esperança, um cato, uma suculenta e um arbusto que os amigos me deram de presente. Pareceu-me desde logo mais simples cuidar do que não dá flor ou, pelo menos, não tem nela a superior expressão. Sem essa face delicada, erótica, bela e perversa da vida, que apetece tocar, exibir, fotografar, a dimensão trágica de qualquer perda será, com certeza, menor.
Tenho então aqui as plantas, coabitando em paz com o meu desleixo, anónimas, enraizadas em terra vulgar, dessa que pela cor e pelo toque dá sinal de necessidade ou abundância. Está tudo bem para elas, têm firmeza e resiliência, cai-lhes uma folhinha e logo desponta outra, o clima não lhes define os humores. E, de resto, reagem muito bem às mezinhas bizarras com que, em jeito de experiência, as alimento.