30.3.17

Metades

Escreve-me uma senhora indignada, ou assim me pareceu pelo emotivo abuso da pontuação: e acha bem que o amor seja uma desculpa para a violência?!?!??? tenha cuidado com o que diz!!!!
Minha senhora, não sou guia espiritual, cronista remunerada de assuntos sociais, conselheira do programa das manhãs. Cuidado com o que digo, tenho na presença dos meus filhos. Vivendo sob a minha exclusiva responsabilidade, estão, por enquanto, submetidos ao meu exemplo e às minhas orientações. Mas os leitores são crescidos, seria uma agressão à sua inteligência usar de paninhos quentes ou presumir que leem os meus textos para decidir as suas vidas. 
De resto, não escrevo sobre o que acho bem ou acho mal. Escrevo sobre o que acho ou me surge como evidência. A miséria a pretexto do amor é uma evidência. Mas escrevo só metade, é o que basta. Que graça há em dizer tudo, fechar o círculo, pintar as cores do retrato, formular o juízo e a moral? A outra metade fica para o leitor pensar, imaginar, acrescentar, se no mote vir interesse ou desafio. A senhora é a única responsável pelo que fez com a metade que lhe dei.