27.9.16

Há um país...

... em ambos os extremos da autoestrada número um, onde se romantiza com o cheiro de lenha queimada e se toma o odor dos canteirinhos encharcados do condomínio pelo aroma franco da terra molhada. Orgulham-se quando lhes dizemos que ali é que é, cultura a rodos, ao nível das melhores da Europa, os guias turísticos não mentem, o futuro está mesmo para ficar. Há muito que fazer e, felizmente, o ruído é tanto que até parece que a festa é comum ao mundo inteiro. Nesse país, são facilmente seduzidos pelo "genuíno-gourmet" e acham bonito, louvável, que se recuperem os sabores do passado pelo quádruplo do preço, desde que a torta e as compotas da avó sejam servidas nas zonas mais in, com talheres de design, por pessoas pós-graduadas de cabelos bem alisados, e tenham sido recomendadas na secção de lifestyle. Levam os filhos para que eles aprendam a importância das tradições e valorizem o empreendedorismo que favorece a preservação da identidade nacional. E tão querida – porque assética – é a identidade nacional quando devidamente confinada a um restaurante, a uma loja, ou a uma galeria! Enquanto comem, fotografam e publicam os pratos e ficam satisfeitos ao verificar a quantidade de gente que, àquela hora, não faz mais do que pôr gostos.
No momento de fazer a conta, cada um recorre à calculadora do smartphone para dividir o total por dois. É só mesmo para evitar demoras, porque, afinal, tempo é dinheiro. E se um escasseia, ao menos que abunde o outro.
É um país que há mil anos se suporta a si mesmo todos os dias. E que acredita ser já passado, raro e insólito o que, por mero acaso, lhe surja no caminho repetido: uma boca sem dentes, uma casa sem luz, uma criança sem livros, uma porta entreaberta para a miséria, a ignorância e a solidão.

(em oposição a isto)