19.8.16

Bom dia

Tal como em todas as outras, nesta manhã acordei com alívio. Não sofro de apneia do sono nem, felizmente, de qualquer outro mal que me aproxime do abismo da morte enquanto durmo. A minha vulnerabilidade reside precisamente no oposto: na consciência da vida. É por saber do que sou que sei do risco que corro. Quando a Lili Caneças disse que estar vivo é o contrário de estar morto, toda a gente se riu por ver ali uma lapalissada, ninguém notou que era um pequeno equívoco.

*
À chegada disse bom dia e a senhora da limpeza revirou os olhos: só se for para si. Não estava triste, só queria parecer triste para condizer com o mundo e obter a sua aprovação. E o mesmo ou semelhante me foram respondendo os outros ao longo da manhã, tanto pobres como ricos, amantes e solitários, chefes e subalternos, informados e alheados, doentes e saudáveis. Senti-me um ultraje, uma ofensa a essa infelicidade geral que por arrogância se presume emparelhada com a lucidez. 
À medida que o dia findar, os humores hão de compor-se e uma alegria infantil, urgente, renovará o ar, abrirá sorrisos, amaciará o tom das conversas. Afinal, é sexta-feira e as previsões anunciam o regresso do sol. É sabido que nas pessoas muito lúcidas, a felicidade, além de rara, depende de coisas elevadíssimas como o calendário, o relógio e o tempo que faz.