11.5.16

Não é o que dizem?

Para escrever como se quer, talvez eu devesse ser infeliz. Não é o que dizem? Que a arte é exorcismo de agudos e recalcados tormentos?
Tenho dores – quem as não tem? Mas arrumam-se em cantos cujo pó limpo ao meu modo para evitar o mofo, a doença, a decomposição. Uso-as de vez em quando, quero a sua maleabilidade garantida, preciso delas para o árduo exercício do perdão. Apesar disso, falta-me o sentimento da desgraça própria, memórias de desamor e até certas tentações: a do vício, a do sono, a da morte. Falta-me crer que o mundo pesa inteiro sobre as minhas costas, que os fantasmas me procuram no escuro e que sou pioneira de todas as angústias e interrogações. Que o amor que vivo ou já vivi é superior e, só por isso, mal entendido com o mundo. Narcisismo também não tenho que chegue. Se por vezes me debruço no lago, o que me espanta e distrai é ver o meu rosto transformar-se de acordo com a direção dos ventos. 
A minha vulgaridade é um terreno estéril para criações que valham. 
Podia, portanto, desistir, dar-me a outros passatempos, mudar de profissão, tentar novas aventuras. Mas a minha crença a respeito do impulso da escrita é outra, bem mais objetiva e, sem dúvida, muito menos fascinante. Além disso – lembro-me agora – escrever é o meu único sustento.