12.5.16

Julieta volta à janela *

*Republicado, para atender a um pedido.

Por causa da rapariga da papelaria, quase matei a minha Julieta. Hesito antes de contar como tudo aconteceu pois sei que o facto de vedar comentários não é o que me livra de juízos e sentenças, apenas de os enfrentar e ter a trabalheira de mais uma gestão, como se não bastassem as muitas que já me ocupam. E, neste caso, estou certa, acusar-me-ão de tolice. 
Arrisquemos.
Desde o dia em que a rapariga da papelaria manifestou à experiente velhinha a sua descrença no verdadeiro amor, não calhou eu voltar a pôr lá os pés. Mas encontrei-a na semana passada, na rua, e espantei-me ao reparar que mudou de visual. Pintou e soltou o cabelo, tirou o piercing e vestia cores de primavera, longe dos tons de viuvez que era seu hábito usar. Achei-a também de ânimo renovado, mais desprendida, com riso fácil e muito dada à conversa. A minha conclusão foi imediata: ora, pôs-se bonita para atrair o amor! Mas por não haver confiança bastante, nada perguntei. Limitei-me a apreciar o natural desabrochar daquela flor que só por falta de esperança foi, muito tempo, um caule seco e tristonho. 
Mas se é uma verdade universal que a beleza pode apaixonar, também acontece o vice-versa: a paixão embeleza. E, ao mesmo tempo que organizei no meu íntimo este pensamento, lembrei-me da haste da Julieta, que desde o outono dorme, hirta, introvertida e melancólica, num vaso azul, sem indício de voltar a dar flor. 
Regressei a casa decidida. Aproveitando o tempo de feição, ocorreu-me que se pusesse Julieta do lado de fora da janela, bem exposta, talvez o gato vadio que a namorou no verão passado se perdesse novamente de amores por ela. Julieta está pouco ou nada atrativa, bem sei, mas um gato tem instinto, num relance perceberia que continuam firmes as suas raízes e cheia de promessas a seiva que lhe corre por dentro. Assim, voltando o gato a adorá-la, não poderia ela desabrochar de novo?
Com Julieta do lado de fora da janela, pronta para ser amada e florir, fui dedicar-me a outras tarefas e nem dei conta que, ao fim da manhã, se levantou uma dessas ventanias repentinas que pressagiam desastre. Só depois de almoçar e arrumar a mesa com vagares de fim de semana, percebi o resultado da minha irresponsabilidade, quando dei pela falta dela e me debrucei na janela. Lá em baixo, o vaso azul multiplicara-se em cacos no meio dos arbustos e Julieta estava prostrada nas lajetas, com as raízes abraçadas a um resto de terra. Pronto, o mais velho desceu para buscá-la, enquanto o mais novo, solidário, fazia eco dos meus lamentos. 
Julieta regressou com as folhas torcidas, maceradas, aninhada nos braços do meu filho. Primeiro, penitenciei-me pelo descuido. Depois, culpei-a, tão preguiçosa para viver que me obriga a estes disparates. E, como é óbvio, acabei a rogar pragas ao gato, sacana dum raio, que nunca mais apareceu.

05-02-2016