4.3.16

Carta de amor

Devem inibir-se de afirmar que já não se escrevem cartas de amor aqueles que, na verdade, há muito não recebem uma carta de amor. Generalizar conforta, mas falseia. Escrevem-se muitas e eu tenho uma nas mãos. Infelizmente, não me estava destinada mas era para gente da minha casa e autorizaram-me a lê-la quantas vezes eu quisesse. É sabido que uma carta de amor pode ler-se repetidamente sem fastio. A cada leitura acha-se uma entrelinha, desenterra-se uma memória, recupera-se a esperança num mundo que se mova apenas por impulsos benignos. 
A que tenho nas mãos é uma dessas que se dizem extintas, em papel, devidamente endereçada, datada e assinada. A caligrafia beneficiou de amorosos cuidados, os parágrafos são quebrados com rigor, a pontuação tem a cadência do respirar, as palavras estão acentuadas na importância que têm. O sentimento que nela vem revelado e descrito - desde as miudezas psicossomáticas até à visão da eternidade -, toda a gente conhece e não há, entre novos e velhos, quem o sinta de outro modo. Enganado está aquele que se julga capaz de viver um novo amor de forma nova. Porque nesta carta, escrita pelo punho de uma adolescente, eu leio exatamente as mesmas palavras que tenho ouvido a tantos da minha idade e a outros, mais maduros, que garantiam estar na posse de tal experiência que não mais se deixariam apanhar na trama, no delírio, na luz que por vezes mais encandeia do que ilumina, nas ganas de envelhecer e morrer de mão dada sem imaginar o que isso seja. 
Não foi um impulso nem se escreveu de uma assentada, é o que me parece. Vem com sangue-frio, mais obediente à razão do que precipitada por febres, o que, enfim, não a livra de equívocos. Dividida em partes, entra com brandura para não assustar, depois avança a explicar-se e vai crescendo, esmiuçando, interpretando o milagre que atordoa e angustia. É verdade que usa alguns floreados, mas quem resiste a eles na hora de falar de amor? Seco no verbo ele ficaria desengraçado, objetivo na ideia tornar-se-ia vulgar, terreno na intenção levantaria a triste suspeita de ser passageiro. No fim das contas, o floreado é a única vestimenta original com que se pode apresentar uma emoção. Escolha cuidadosamente as palavras quem quiser convencer que há raridade no mais comum dos sentimentos. 
Já me custa lembrar a última carta de amor que recebi em papel. Nos anos recentes, têm-me chegado por e-mail. E algumas, concisas e urgentes, mais ao jeito de bilhete, até vieram por sms. Mas duvido que essas - tão fáceis de corrigir, ajeitar e enviar - sejam verdadeiras cartas de amor. Não há palavra que, por si só, faça prova de um sentimento. É essencial o plano, a trabalheira, o cuidado para manter a folha limpa, a firmeza de não deixar descair as linhas. E também lhe acrescentam valor todos os fracassos e as hesitações, os rascunhos que acabaram no cesto dos papéis, os ensaios mentais que distraíram o amante do quotidiano, a tinta que a transpiração nublou, o caráter deformado por um súbito tremor. Garantido tudo isto, que importa depois que o final da carta seja o que sempre é? Um jorro de falsidades sem propósito de o serem, a ingenuidade a falar alto, a ilusão da vida eterna, doces promessas, levianas promessas, fundamentais promessas.