1.8.17

Choques elétricos

Enquanto a cabeleireira vai e vem com a tesoura na cabeça do mais novo, a Cristina Ferreira pergunta a quem está aí em casa se será mito ou realidade que os vibradores dão choques elétricos. A manicura arrebita a orelha, tapa a cara com as mãos e escangalha-se a rir. À cliente que lhe estende as unhas, passa ao lado a grande questão alardeada pela apresentadora porque está de costas para o écran. Insiste que quer, desta vez, um vermelho mais sangue, que vá bem com as emoções fortes despertadas pelo estio e com os vestidos que comprou para as noites quentes do sul. A cabeleireira suspende o trabalho e olha-me, com evidente aflição: é mito, pois é? Ainda vou a tempo de me fazer desentendida, franzo a testa como quem mal percebe do que se fala e com esperança de que ela se vire para outra: desculpe? Asneira minha. Ela adianta-se a repetir o que foi perguntado e já vai lançada para a resposta que lhe parece óbvia. Estão a perguntar na televisão se os vibradores dão choques elétricos, mas, quer dizer, é um disparate, aquilo não se liga à corrente. Num relance, certifico-me de que o meu filho está suficientemente compenetrado na adoração da sua própria imagem, tirando as medidas ao novo corte e imaginando como lhe assentará o boné. Quem me salva de responder é a manicura, desbocada como é hábito, o gozo pela vida sempre a pulsar sem freio, sem medo e sem preconceito. Não se liga à corrente mas olhe que, funcionando como deve de ser, é cá uma corrente pelo corpinho todo! Depois de ouvir o povo e o doutor em estúdio, a Cristina Ferreira esclarece: é verdade, sim, pode acontecer. As velhas contratadas para figurar na plateia por tuta-e-meia desassossegam-se, não sabem se neste momento em direto lá para casa lhes fica melhor o humor ou a indiferença. Ah, mas quanta perturbação foi tudo isto causar na cabeleireira! Incapaz de se concentrar, vai aparando os fios de ouro velho do meu pequeno narciso com hesitações de vulgar aprendiz e murmurando queixumes, temores e indignações. Choques elétricos? Deus me proteja! E eu a rir-me, imaginando como irá Deus interceder por ela.
A cliente sai com as unhas renovadas, sangue vivo na ponta dos dedos. Está pronta para rumar a sul, onde as amigas já a esperam num apartamentozinho alugado mesmo à beira-mar. Adivinham-se memoráveis dias de praia e imprevisíveis noites de folia. O pequeno narciso salta da cadeira e corre para mim, cheio de vaidade, reclamando beijos, afagos e elogios. Nem um nem outro deram por nada.

24.7.17

Esquecimento

Atravesso as planícies do Sul num comboio velhinho, com cheiro, roncos e hesitações de quem já merecia o eterno descanso. O ar condicionado mal funciona, a respiração é difícil, as portas não obedecem aos botões de comando. O maquinista — ah, coincidências! — conta que tem um irmão lá em cima, mesmo na minha terra, no Norte vinhateiro, onde há comboios gourmetizados para chineses, americanos e portugueses fáceis de deslumbrar e que abrem os cordões à bolsa por qualquer gracinha. 
O meu país baralha-me. Nunca sei onde é mais profundo o abandono, onde rangem mais os ossos, onde é mais urgente o socorro que os visitantes não oferecem porque, tal como eu, só vêm e vão como quem assiste a um filme, aplaude e logo esquece.

2.7.17

Morrer de amor e cantar*

Já aqui contei que morri de amor aos quinze anos. Foi uma morte lenta e dolorosa, deu-me febre, visão turva e desarranjos viscerais por muitas semanas. Velei-me como achei que merecia: com enorme piedade, lágrimas a rodos e até a elevação de caráter a que os mártires têm direito. A dor aguda e exposta, que assim violentamente me deitou por terra, terá vindo da minha impreparação para o abandono. Eu tinha crescido abrigadinha em colos, festas e mimos, não conhecia a rejeição e menos ainda a indiferença. Então, à primeira estocada morri. E porque tinha apenas quinze anos, as minhas conclusões foram inocentes mas cheias de uma convicção que me enternece lembrar. A primeira foi a de que o amor e a dor variam na razão direta. A segunda, tão comum, foi a de que não voltaria a amar. Sobre ambas estava errada, naturalmente, mas sou feliz por saber que o equívoco se deu na idade justa.
Por esses dias, calhou o meu pai oferecer-me a minha primeira máquina de escrever, um bichinho muito mimoso, usado, com teclado "hcesar", em tons pastel, de arestas meigas, arredondadas. Proprietária exclusiva de um instrumento daqueles, achei que o meu espírito era agora obrigado a grandes criações e sentia-me pronta para isso porque abarrotava de dor e autocomiseração, portanto, meio caminho feito. O outro meio, estava certa de que podia aprender lendo os bons.
Esta foi a única altura da vida em que escrevi poesia. Converti o sofrimento e a adoração em poemas curtos e arrítmicos, de versos brancos, e em outros enormes, com bom corpo, métrica e sem descuido da rima. Para guardar na gaveta, fiz com eles um livro, biografia cantada do meu desgosto, coitadinha da mim!
Um dia tudo passou, conforme predestinaram os mais sábios. A manhã acordou límpida, com uma frescura promissora, e eu era ainda muito jovem, o meu coração afinal sem necrose, a minha esperança pura e intacta. Por isso outros amores vieram, mas por sorte, privilégio ou saúde férrea, não voltei a morrer. E não voltei a escrever poesia.
Ainda hoje acredito que a melhor forma de arrumar uma dor é convertê-la em qualquer coisa de belo, edificá-la, harmonizá-la com o mundo. Terapia para quem sofre, horizonte para quem contempla, e nesse dá-e-recebe, nessa generosidade recíproca, muitas vezes se descobre propósito para o que nos consome. Mesmo que a criação acabe como, mais tarde, os meus poemas: no contentor do lixo de uma avenida junto ao mar.

* post de 2015, republicado a pedido de quem, generosamente, mo lembrou

30.6.17

Quero pato com pimenta

Entrevistas em que se pergunta ao escritor das intenções e mensagens do livro e ele responde urdindo, teorizando, complexificando, intelectualizando, são um fastio. Nestes casos, quase sempre, a obra desilude-me. A mim, como leitora, bastar-me-ia um pouco de honestidade da parte de quem escreve. Um lembrei-me desta história e deu-me para contá-la e eu agradecer-lhes-ia, de coração. Não me imponham o significado e o entendimento das coisas, deixai-me ir pelo meu pé. Se houver entrelinhas, quero ter inteligência para as decifrar. Se não as houver, ficarei feliz com o prazer de ler o verbo bem manobrado, de ter o retrato diante de mim, de num momento pensar que tudo é uma coisa para logo descobrir que pode ser outra e deitar-me a dormir pensando nisso. 
A esse propósito, tenho como referência o alívio que me deram certas palavras de Agustina Bessa-Luís, impressas na badana do livro comentado: Agora, o que se diz da Sibila surpreende-me bastante. Dividem-na em porções, como os mapas de campanha, e descobrem nela teoremas de Lacan e de Freud. Eu sempre pensei que a Sibila era a minha tia Amélia, vaidosa e com jeito para coisas de tribunais, e que sabia como ninguém estufar um pato com pimenta, num lume de rama de pinheiro. A resina, ao arder, dava ao pato um sabor especial. Entre isso e Lacan não sei que relação haverá.

29.6.17

De D. Sebastião a Salvador Sobral, do Bojador à Troika, dos oceanos às redes sociais

Pouco me importa o que o Salvador Sobral diz, fuma ou bebe. Preocupam-me mais estas paixões febris que temos, esta busca doida por heróis em que sempre andamos e a quem nos encostamos para remediar os sonhos que não perseguimos, as vontades a que não obedecemos, os projetos que adiamos. Toda a esperança, toda a expectativa, toda a gratidão assim depositadas, de olhos fechados e coração aberto, quanto nos custa depois! O cantor, o escritor ou o jogador da bola glorificados como divindade, como gente a quem tudo devemos e que, por seu lado, nos deve o pagamento de todas as faturas que temos em atraso. Que poupem por nós, meçam por nós, moderem por nós, dêem a cara por nós, invistam por nós.
Coitado do Salvador Sobral, que só por um gracejo sem graça, um disparate adolescente, nos pôs a dar sermões e a cobrar com tal fervor que até parecemos gente dura, que sabe ao que anda e insiste em lá chegar. Apesar de todas as conquistas, dos cabos dobrados, dos territórios explorados, dos gigantes derrubados, o país está na mesma: instável e leviano na gestão dos seus ganhos.

28.6.17

Framboesas

Não foi só o senhor Pereira: também a viúva trocou de carro. É qualquer coisa muito poderosa, tanto em cilindrada como em aspeto, matrícula de dois mil e dezassete e aquela cor dourada que vai muito bem com os feitios ostensivos de gosto duvidoso. A ela, porém, falta-lhe mestria para o dominar. Estaciona-o em contramão, a um metro do passeio e na diagonal, mesmo a jeito para ser endireitado à força por qualquer estouvado que passe. Aparentemente, isso pouco importa à viúva. Ela gosta é que olhem, reparem, e ainda dá bónus de fidelização. Abre a porta devagar, põe uma perna de fora, o vestido sobe, as coxas ficam ao léu, eis as virilhas, uma nesga das calcinhas que cobrem o sexo abandonado, só muito depois a outra perna, e finalmente em pé sobre os magníficos tacões. A esta altura, o senhor Pereira, que se abeirou de mim a querer saber o que penso de Pedrógão Grande, está todo ele incandescente, liberta faúlhas pelo canto dos olhos, já mete as mãos nos bolsos a disfarçar o vigor da labareda. A menina não acha que esta senhora é uma elegância? E vira-me as costas para se curvar ao chão que a viúva pisa. Como está, minha senhora? Passou bem, minha senhora? Ela semicerra os olhos numa languidez estudada, o xadrez preto e branco do vestido vai ondulando com o passo e toda a linearidade se deforma e contorce, dando a sensação de uma vertigem ou a ideia de um pântano. Retribui o cumprimento, afasta-se dois passos, volta atrás: desculpe, senhor Pereira, nem ofereci. Não estende, mas mostra, na mão aberta, uma caixinha de framboesas. Eu, como sempre, invisível ou à mesma distância que separa o espetador dos personagens do filme. O senhor Pereira vai com dois dedos, muito cuidadoso, agarra a carne selvagem, lustrosa, de uma framboesa, decerto já imagina o gosto do suco escarlate a desfazer-se na língua, o rigoroso balanço entre doçura e acidez, a consistência firme e fugidia. Aceito uma, minha senhora. Muito obrigado, minha senhora.
Ela sorri - e sorri como o diabo - e com um ligeiro aceno de cabeça dispensam-se mais palavras. Afasta-se. De novo com as mãos nos bolsos, ainda quente, o senhor Pereira diz-me baixinho, sem tirar os olhos dela:
- Eu nem gosto disto, só aceitei por educação.

27.6.17

Pantera

Lá vai a mãe dos dois filhos com olhos de azeitona preta. É a primeira vez que a vejo sem eles, mas não se julgue que vai de mãos livres, a desfrutar em paz da manhã soalheira, do canto da passarada, das promessas do solstício. Vai carregada de mercearias, os sacos distribuídos pelas dobras dos cotovelos, dos pulsos e dos dedos. Anda a custo, e, sob o peso da carga, pronuncia-se o joelho valgo. Ao passar por mim faz de conta, põe-se a admirar a esplanada do café onde os reformados se procuram na necrologia e os jovens estudam para os exames. Que idade terá? Calculo por alto, tiro medidas à infância que sobrevive no rosto dela, subtraio a idade do filho mais velho, comparo com a do marido, que a esta hora há de estar a gozar o alívio da dose diária de opiáceos, e imagino que tenha sido mãe aos quinze, dezasseis, menos de dezoito sem dúvida. Mas depois, multiplico a amargura que vai pelo corpo abaixo, o cabelo seco, desobediente, o peito raso e côncavo, os tornozelos inchados, e, afinal, é acabada, usada, abusada, e, quem sabe, culpada.
Quantas mulheres podem habitar numa só?, pergunto-me muitas vezes, até quando olho ao espelho, leio o que escrevo, revejo o que fiz, ou me esforço a desculpar o fraco entendimento dos homens sobre nós. E nesta que passa, livre dos filhos mas carregada de mercearias, habitam pelo menos três: uma que é inocente e está sempre à janela dos olhos, outra que se desenganou e endureceu para aguentar o corpo. Na terceira, improvável, só reparo quando ela vai para dobrar a esquina: uma pantera, estampada nas costas da blusa, pronta para investir.

23.6.17

Kakasana

Passam camiões, tornados, bichos de sete cabeças, descargas elétricas, pesos mortos, rodas dentadas, e eu choro, respiro e nem vacilo. Fixar os olhos, jamais as ideias, eis o segredo. Mas, de repente, uma palavra tua e descubro como é precário este equilíbrio. As palmas das minhas mãos, que me sustentam o corpo inteiro, têm o teu nome escrito em todas as linhas.

22.6.17

Ecoponto

As pessoas queixam-se muito da merda que é a televisão, é uma revolta generalizada e barulhenta que me dá pena. É curioso que esses que tanto protestam, em nenhum momento a recusam e lhe cortam o pio e os cabos. Parece-me que são todos obrigados a ver televisão e, ah! que linda a obediência! É metade do dia a assistir e a outra metade a dizer que não devia ter sido mostrado e, no meio de tudo, ainda pagam. Aflitos, com medo de perderem o fio à meada da atualidade e de lhes faltar opinião na hora dos debates. 
É muito bonito o palavreado todo, mas com que facilidade há de levá-lo o vento, sem que um só alicerce do sistema trema! A mudança só se faz quando realmente todos perderem o medo e desligarem o botão. Se não, é como aquela gente que aceita toda a espécie de lixo, achando que tudo se resolve depois separando-o no ecoponto. Renovam o ciclo, jamais o quebram.

20.6.17

Dias consecutivos

Por seis dias consecutivos, Deus esmerou-se na arquitetura de grandezas e miudezas, concebeu-as para nos maravilharem e de forma a que os mistérios fossem revelados em conta-gotas, despertando novas crenças e ainda maior espanto. Mas ao sétimo dia descansou, porque não tinha contrato, não precisava de pão para a boca, não tinha de prestar contas a ninguém e assumiu que as criaturas eram responsáveis pelos próprios atos e pagariam pelos seus erros. 
Tu não descanses, que não és Deus. Se descansas ficas só e hão de apontar-te o dedo assim que estiveres de costas. Deus também está só, mas está no pedestal, nas alturas, nos píncaros desconhecidos do universo, e isso vai valendo alguma coisa, justifica o ouro dos templos, a lonjura das peregrinações, o sacrifício de humanos e animais. A solidão de gente vulgar é invisível e carrega no lombo uma trouxa de culpas, penas e mágoas que não merece cântico ou devoção. Então vá, cumpre, mexe-te, ainda que te falhem as pernas e te ocorra o sonho de dias melhores. Enxota, como moscas, o que puder desconcentrar-te: ideias, poemas, perguntas, suspeitas. Fecha as janelas, a luz é perigosa porque revela as sombras e nas correntes de ar viaja o perfume de flores e frutos proibidos. Ganha com uma mão, paga com a outra, no entremeio dá esmola, lava as duas a seguir. Se te pedirem, cumpre a pena do ladrão, faz as vezes da prostituta, consome como um viciado. Diz justiça, diz amor, diz honestidade, mas deixa que outros tratem disso, tu põe-te na fila, para, arranca, liga, desliga, gosta, desgosta, aproveita o brinde, a promoção, o sorteio, o cartão. Lê o jornal, come a sopinha de letras até ao fim, obrigadinho por ta levarem à boca, interessa-te, espanta-te e comove-te só até amanhã, que amanhã precisam da tua esperança para o fundo de maneio do sistema. Estás assim ou assado, vais andando, podia ser pior, pelo menos isto ou aquilo. À noite, enfia-te na cama, dá-te de frente, de costas e de joelhos, puxa o cobertor, faz a dobra do lençol, reza, agradece e adormece.

14.6.17

Magníficas experiências

Não é por sermão que tenha levado. É por gosto, principio, hábito e exemplo dos que me educaram, que cumprimento as pessoas com quem me cruzo, mal distinguindo o que vestem, que função têm, com que cara andam. Daí o meu espanto quando ouço a história (e nem sei se é verdadeira) de um professor universitário que, para validar uma investigação sobre "invisibilidade pública", vestiu, durante um mês, a pele de um varredor de rua. A indiferença de que foi vítima nesse quotidiano, diz ele, foi uma lição de humildade. Ao que parece, o professor compreendeu que um simples bom dia não só é prova de respeito pelo outro como pode ainda, nas suas palavras, ser "um sopro de vida".  
Estranho que as pessoas careçam de originais e magníficas experiências para aprender o elementar. Lembra-me aqueles – e são muitos – que só depois de uma grande viagem realizam a própria pequenez, a desimportância dos seus chiliques e o valor do que possuem. Ficam os pobres condenados à arrogância, por falta de meios para viajar. Conheci um homem assim. Publicamente, repetia, mesmo a despropósito, o quanto as caminhadas em desertos escaldantes, planícies inóspitas, bairros de miséria nunca imaginada e destroços de bombardeamentos, o tinham tornado humilde e despojado. Talvez tenha impressionado os que mal o conheciam. Mas eu vi que nenhum quilómetro palmilhado, nenhuma desgraça ou ruína avistada de perto, lhe tirou as manias de superioridade, a tendência para açambarcar o que por direito não era seu, o menosprezo por todos aqueles que andavam na sua órbita, o espírito parolo que se extasia com roncos de motor e telemóveis de última geração. E, na maioria das vezes, nem bom dia nem boa tarde.  

13.6.17

Vulcão

Nunca fui uma mãe preocupada. Sonhei coisas poucas e simples para a infância deles: que brincassem como animais, dormissem como anjos e se sentassem à mesa como príncipes. Cumpriu-se. Mas falhei nos cuidados extremosos, não vedei as escadas, não tranquei facas, remédios e outros venenos. Cólicas, trambolhões, viroses, birras e exames pareceram-me só coisas da vida, que vêm e vão, como outras hão de vir e ir pelo resto dos dias e está tudo bem. Esqueci-me de chorar no primeiro dia de escola. Tudo isto fez de mim fraca companhia para as outras mães e ouvinte desinteressada quando o tema de conversa são os enguiços de rotina, as aflições com amuos, tosses, sonos difíceis, programinhas de tempos livres, um ponto a mais ou a menos na ficha de avaliação.
Às vezes, porém, sem motivo ou sintoma aparente, quando tudo está em paz, qualquer coisa dentro de mim se desarranja. Como um vulcão de repente acordado, emerge uma ideia de futuro, uma imagem do mundo, uma impressão paralela à vida que tenho, e assusto-me. Corro à janela, preciso de os ver e ouvir, mas nem assim consigo alívio. São instantes em que sinto, de forma aguda, concentrada, avassaladora, o que as outras mães vão sentindo em conta-gotas, pelas miudezas do quotidiano. A minha mente é ocupada pela ideia, infeliz, de que eles seguem para o mar alto em barquinhos de casco frágil. E à noite peço-lhes que durmam comigo. Não prego olho porque a cama é pouca para todos e o calor suporta-se mal, mas a angústia vai perdendo corpo, vai perdendo força, esfuma-se e repousa como o pó das coisas passadas.

9.6.17

*

Votam, separam o lixo, ensinam os filhos a dizer por favor e obrigado e acham que isso é prova bastante da sua consciência cívica, do seu trabalho por um mundo que preste.

8.6.17

Florações

O excesso de convívio corrompe-me a escrita. A primavera tem destas coisas, há nela um abuso de disponibilidades, uma transpiração de afeto, uma leviandade nas palavras, uma urgência em estar, receber, visitar. O jornal diz que, nas redes sociais, andam todos nus. As festas estão à porta, tudo é pele, calor, entrega, os dias são tão largos e luminosos que a melancolia não pega. Mas as escancaras não me seduzem. Eu gosto de vasculhar, espreitar pelas fechaduras, arrancar uma peça de roupa de cada vez. O que na primavera me agrada são as florações vagarosas, o intervalo que cresce entre o nascer do sol e o despertar da cidade, a ternura com que a rapariga da papelaria descansa a mão no ventre e se põe a sonhar. 

7.6.17

Infidelidade

De cada vez que escrevo, pergunto-me quantos serei capaz de seduzir, da mesma forma que apenas me lês nos curtos intervalos de outras histórias.

5.6.17

Mrs. Dalloway, Elena Ferrante, a mulher do senhor Pereira e o arroz de cabidela

Fui à estante repescar Mrs. Dalloway porque a mulher do senhor Pereira me fez lembrar qualquer coisa que eu estava certa de um dia lá ter sublinhado. Correm-se alguns riscos ao pegar num livro que se tenha lido noutra idade. É como encontrar um antigo namorado vinte anos depois: quase sempre se revela vulgar, barrigudo e frouxo, desprovido de encantos. Costuma ter por companhia uma mulher com ar de enfado, um ou dois filhos que gritam muito e dão pontapés no ar, um bom carro, e diz coisas sem interesse nem charme, como agora não tenho tempo para nada. É claro que nada disto é facto,  é apenas ponto de vista, outra cadência que tem agora o meu coração, outros os olhos com que reparo. Mas, enfim, a mediocridade de antigos namorados pouco me importa e nem sequer me envergonha. Já no caso dos livros, pode a coisa resultar num grande sofrimento porque à leitura sempre me entreguei com uma devoção que nem de perto os namorados mereceram. Seguro, se queremos preservar memórias de espanto, surpresa e fascínio, é não reler jamais. Então decidi folhear Mrs. Dalloway distraidamente, pela rama, só buscando a frase, cuja lembrança foi disparada pelo breve encontro com a mulher do senhor Pereira. 
Ia ao pão e à fruta, de saltos altos, muito pintada, nem um fio de cabelo ao acaso, deu-me os bons dias com a altivez do costume. É tão trabalhosa a dignidade de certas pessoas.
- E como está o senhor Pereira?
- Está em casa, a ler os jornais. Tem sempre um semanário, quatro ou cinco diários em atraso... mais os desportivos e vai-se o fim de semana nisto. Eu tenho é de me pôr em casa num instantinho, vou fazer arroz de cabidela para o almoço. O meu marido pela-se por um arroz de cabidela, já me anda a pedir há tanto tempo. E o meu filho também vem. Vou fazer se faço a mais para ele levar.
- Então vá lá à sua vida, vá.
Mas ela não vai.
- Posso-lhe fazer uma perguntinha?
- Pois claro.
- A menina lê muito, não lê?
- Vou lendo.
- Já ouviu falar numa Ferrante, qualquer-coisa Ferrante? Tem quatro livros que é a história da vida dela, ou de outra qualquer, não sei.
- Elena Ferrante. Sim, já li.
- E que lhe parece?
- Os três primeiros são assim-assim. O quarto é um enxerto de porrada. 
Julguei que fosse desentender e virar costas. Mas uma onda de luz acordou-lhe os olhos mortiços. 
- Quer dizer uma tareia? Magoa?
- Ou sufoca, não sei bem. Mas leia e logo verá.
Tirou o saco de compras da bolsa, abriu-o, sacudiu-o para se livrar não sei do quê, voltou a dobrá-lo, pressionou muito bem os vincos e guardou-o de novo. 
- Eu antigamente lia muito, mas agora...
Agora nada, pensei. Não fale, não se humilhe. Já sabemos que foi delapidada, desbastada a sua inteligência, apagados os talentos, embotadas as sensibilidades, enquanto o senhor Pereira lia tranquilamente os jornais. Ontem, como hoje, é a forma que ele tem de saber que o mundo gira sem que precise de o empurrar.
- Vá lá, vá, que um arroz de cabidela é coisa para duas horinhas à volta dos tachos.
- A menina sabe fazer?
- Não.
E ela, a pose recuperada, um sorriso lateral, uma ponta de sarcasmo:
- Já imaginava.

Ah! Eis a frase em Mrs. Dalloway"Apesar de duas vezes mais inteligente do que o marido, tinha de ver as coisas pelos olhos dele – uma das tragédias da vida de casado."

2.6.17

Matéria-prima

Quando um Homem morre, até à forma como coçava o rabo lhe atribuem maravilhas. O cadáver é a mais antiga matéria-prima da estátua.
Chegando a minha hora, por favor, não me façam igual pois por cada grandeza inventada, falseada e apregoada, no íntimo de cada um virá à lembrança uma prova do oposto, qualquer infelicidade que eu tenha cometido, um pé na argola, as costas voltadas, palavras malditas, os sete pecados emergindo em dias de turbulência. E entre a cerimónia e o sentimento poderá haver abismo tão fundo que eu ficarei na dúvida, no limbo, no purgatório. Prevaleça a humildade entre vivos e mortos na hora em ela faz mais sentido: não se armem uns em juízes, nem se louvem os outros como deuses. 

1.6.17

Selinho Blog em Bom: a escolha da Mãe Preocupada

Às vezes, não há como fugir ao circo. E quem, como eu, o espreita mas evita a arena, talvez mereça, de vez em quando, ser obrigada a vestir um fatinho de licra e lantejoulas e a saltar o arco de fogo.
Pipoco Mais Salgado voltou a arrastar-me, pela terceira vez, certamente mais pelo gozo de me ver com esse fatinho do que por achar que eu dê espetáculo que preste. Em todo o caso, grata pela nomeação. É sempre uma honra ser escolhida pelo dono disto tudo da blogosfera, quando o sabemos tão seletivo mas também incapaz de ponto sem nó.

Aqui fica o selinho que me foi atribuído - valha-me Deus, que selinho!


Olhos

Faz tempo que não conheço uns olhos vadios, curiosos, espantados, amantes do acaso e do detalhe. Que digam qualquer coisa da sua dúvida e da sua vontade. Parecem todos muito certos da direção que tomam, apontando uns às biqueiras dos sapatos, outros ao carro da frente e quase todos ao fim do mês. Mesmo assim, as senhoras vão abaixo nos seus tacões impossíveis e os cavalheiros tropeçam nos degraus, mas nem uns nem outros espreitam pelo canto do olho para saber se há quem, como eu, tenha ficado a rir.

30.5.17

Savasana

Mesmo de olhos fechados, vejo o bailado de luz solar que o movimento das águas projeta no teto. Dá uma ilusão de claridade interior, de expansão, que ajuda a imitar a morte. 
Não sei porque é que a autoridade tributária e aduaneira gosta tanto de mim e me convida tantas vezes a ir à sua casa, onde passo sempre algumas horas a provar que sou remediada e gasto muito em educação. Os bloggers não me interessam por aquilo que dizem mas por aquilo que veem. Podem tentar enganar os leitores com auto-adjetivações, copiar pensamentos e doutrinas, mas é impossível simularem aquilo em que jamais repararam. A rapariga da papelaria vai ter uma menina. Nunca me engano. Mas se lho digo, há de julgar que estou a rogar praga. Tive uma colega assim: pedia muito para ter um menino. Quando engravidou, disse-lhe que ia ser uma menina, ela bateu três vezes na madeira como se tivesse tido uma visão do demo. Não me enganei. Cada vez mais farta de ouvir culpar a juventude, como se a miséria de cada época fosse de geração espontânea. A inveja é como o cancro, quando se vê por fora é porque já destruiu tudo por dentro, tenho de anotar esta frase. É para mim um mistério que tantas mulheres independentes e desinibidas se franzam de nojo quando se lhes fala do coletor menstrual. O corpo é sempre mais fácil por fora do que por dentro, penso. Quando eu era pequena e me portava mal, o meu irmão chamava-me comunista-marxista-leninista, assim, de uma assentada, e ainda hoje, se debatemos grandes causas, atira bala semelhante, mas agora acabamos a rir, porque os dias, não parecendo, são de temperança. Todas as tardes passo debaixo do viaduto precisamente à hora em que as meninas do colégio, encantadoras nos seus uniformes de inspiração escocesa, se cruzam com as prostitutas cheias de bijuteria dourada a ocultar a decomposição da carne. É um quadro insólito, que me atrai tanto quanto me angustia. Gostaria de as colocar cada qual num tempo que pudesse fechar-se sobre si para se livrar de contaminação: as prostitutas são passado, um novo futuro há de vir com as meninas, inocentes e aplicadas. Mas o tempo não tem prateleiras e o futuro das meninas do colégio é tão cheio de trágicas possibilidades como foi inocente o passado das prostitutas e saber que tudo corre como um rio aonde tantas águas afluem e cuja foz está no segredo dos deuses, perturba e despista.
Abro os olhos e a luz, sem o filtro das pálpebras, magoa como qualquer coisa alheia e despropositada. Há dias em que tenho muita dificuldade em morrer.

29.5.17

Autoridade

Numa feira do livro em saldo, de onde saí de mãos a abanar, a adolescente reclamava baixinho com o pai, apressado de ir ver a bola: mas eu ainda não encontrei o que procuro, papá! O homem, à roda dos quarenta, colarinhos levantados, barba num falso descuido, olhar de viés pousando de fêmea em fêmea, bufou. 
- Mas que queres tu, afinal? 
- Quero Um Amor de Perdição, um qualquer, deve haver tantos...
Ele deu um jeito aos colarinhos, pegou num livro ao calhas, folheou-o sem o ver, e exerceu como soube a sua autoridade paterna:
- Não te metas nisso, Maria Francisca!

26.5.17

Estranhos

Gosto de dar conversa a estranhos e se a minha avó fosse viva deitaria as mãos à cabeça por isto. Sempre teve muito medo que eu fosse raptada, drogada, amputada e jamais devolvida. Quando fui para a escola primária, ordenou-me que não falasse com nenhum desconhecido e muito menos aceitasse ofertas. Logo no primeiro dia desobedeci, aceitei do meu colega de carteira um cacho de uvas em gesso, para pintar, e ela deitou-o ao lixo. Não fosse a serenidade da minha mãe e o seu gracioso entendimento com o mundo, eu teria embarcado na vida pela metade, com um pé atrás, espreitando por cima do ombro e por baixo das camas.
Gosto de dar conversa a estranhos por nada dever nem cobrar. É um instante que vale por si, livre de expectativas, e por isso pode dar-se ao luxo raro da honestidade. Quando um homem, na frutaria, me contou desgostar de tal forma de abacates que os dava às galinhas, ri-me muito com ele. Ficámos na conversa, fazendo graças com a situação, mas se fosse meu pai, meu filho, meu amante, meu amigo, ter-me-ia zangado e cobrar-lhe-ia a leviandade. Ainda haviam de piorar as coisas quando ele, ao ver-me encher um saco de mangas, deixe-se de tropicalices, não há nada como uma maçãzinha de Alcobaça.
E a dona Isaura, que ia todas as manhãs comigo no 90 quando eu estagiava, que seria de mim se fossemos mais do que estranhas? A dona Isaura fazia limpezas na Baixa, tinha as mãos lustrosas e rosadas, sem textura, queimadas pela lixívia. Engraçou comigo logo na primeira viagem e quis saber-me a profissão, que curso tinha, quantas línguas falava. No embalo das conversas, que eram diárias mas não iam além dos quinze minutos, falou-me do filho mais novo, uma joia de rapaz que nenhuma rapariga até então merecera. Preguiçoso, é certo, deixara o décimo segundo ano muito mal acabadinho e não tinha emprego, mas era inteligente ao seu modo e – enfatizou – muito respeitador. Que culpa tinha ele de não lhe verem os talentos? Sem que eu encomendasse, um dia prometeu trazer uma fotografia. Na manhã seguinte, medrosa, planeei fazer de conta que não a via quando entrasse no autocarro. Mas a dona Isaura, que já vinha no 90 desde Contumil, acenou-me efusivamente e foi batendo com a mão no banco ao lado como se faz às crianças para ordenar que sentem. Venha, venha, tenho aqui o meu filho para ver o que acha. Tirou da carteira a fotografia e, muito ansiosa, é ou não é bonito? Oh, era tão feio e desmaiado, com a cabeça enterrada nos ombros e, pior, tinha nos olhos o atordoamento de quem vê fantasmas. 
- A menina não se importa, pois não?
- De quê, dona Isaura?
- De ele não ter os seus estudos. 
Percebi então que a dona Isaura andara desde o princípio a fantasiar um romance. Estava convencida de que eu era a rapariga certa para salvar o filho daquela injusta e injustificada solidão, dando-lhe um rumo, uma família e certamente um emprego.
- Tenho a certeza que ele também vai gostar muito de si. 
Nunca mais apanhei o 90. Passei a ir a pé, coisa pouca, meia hora sempre a descer e nem que chovesse. Até ao dia em que parei num pão quente no Marquês para a minha DDR de cafeína e o empregado sisudo me desafiou para um quebra-cabeças de matemática.

25.5.17

Dois botõezinhos

Os meus filhos crescem e vou perdendo as ganas de escrever sobre eles. Em breve serão pessoas comuns, integradas no sistema, respondendo a apelos vulgares, e deixarão de me fazer perguntas difíceis a lembrar o tamanho da minha ignorância e a falta de verdade nas minhas convicções.
Em tempos distantes – e que me parecem já de uma vida anterior – planeei ter muitos filhos. Crescendo uns, outros nasceriam e assim a minha casa seria sempre habitada pelos cheiros, rumores e revelações da infância. Ficou-me o sonho atravessado e, em algumas noites, revolve-me o cérebro e leva-me outra vez a experimentar o poder sobrenatural de dar à luz e a novidade de um amor maior. Acordo com pena por ver a casa condenada a esvaziar-se de inocência e subversão. A idade adulta interessa-me pouco. É morna, distraída, subjugada, tem pouca luz, fala num sentido e faz no outro. Admiro crianças e velhos. Mas os meus filhos estão a deixar de ser crianças e eu vou demorar a ser velha. Às vezes, o mais novo ainda me diz: serei sempre o teu bebé. E eu, sabendo que já só o diz por generosidade, vou pondo freio ao deleite, ao gozo da posse, ao maior equívoco do amor. 
Entretanto, despontaram dois botõezinhos violáceos numa planta que eu só aceitei por dispensar grandes cuidados e me parecer incapaz de dar flor. 

24.5.17

Obra

Vejo o amor como coisa tão simples que muito poucos embarcam no assunto comigo. É uma ponte, digo, e a minha versão parece-lhes fria, grosseira, sem encanto. Oh, que tristeza cada um na sua margem, dizem, e entre eles um rio que em dias maus arrasta lama, lodo, lixo, restos, mortos. Como consideram o amor um templo de cúpulas apontadas aos céus, onde a gente se ajoelha, reza e pede, um lugar de adulações, oferendas e sacrifícios, desiludem-se por eu ver nele uma vulgar obra de engenharia e achá-lo perfeito assim.

23.5.17

Linha reta

O senhor Pereira tem sido visitado pelas filhas com alguma regularidade. Não é ainda uma regularidade amorosa, limita-se às datas festivas porque com o pretexto do calendário elas ficam dispensadas de dar o braço a torcer. É curioso como os filhos, entrando na idade adulta, se fazem juízes dos pais à luz não sei de que expectativas e razões. As duas raparigas não perdoam o que a mãe há muito perdoou: a voz de uma outra mulher saudando o senhor Pereira com o tom de quem abre braços, pernas e coração. Seriam elas tão seguras e inflexíveis caso o deslize fosse dos seus maridos? Virariam costas e, em passo firme, começariam uma nova vida, tal como aconselharam à mãe? Ou, desesperadas, usariam os filhos, as recordações, as debilidades, as contas conjuntas, a hipoteca da casa e mais o que lhes ocorresse para os aguentar? Talvez acabassem a esquecer, tomando tudo por um equívoco, uma troca de linhas. Quando o amor não é bastante, a cegueira é a melhor estratégia para preservar um casamento. 
Às vezes, porém, ocorre-me que pode não ser indignação o que afasta as filhas do senhor Pereira e as mantém superiores, como se imunes ao erro. Pode ser inveja. Aos setenta e dois anos, o senhor Pereira viu a luz de um amor novo brotando do coração de uma mulher vinte anos mais jovem, uma mulher que não precisa, não depende, não rasteja. O que dariam elas, quando os seus ventres secarem e os maridos afrouxarem e a vida não aparentar mais novidade, para escutar um igual diz, meu amor
Mas isto que escrevo é apenas o que suponho. Vejo passar as filhas do senhor Pereira, de cabeça erguida, beijando o pai de raspão, e peço a Deus e ao Destino que não as coloquem diante de muitas encruzilhadas, abismos e tentações, não virem o bico ao prego, poupem-nas ao reverso da medalha. Deixem-nas avançar em linha reta, sem desvios nem surpresas, conforme, aliás, o próprio pai lhes ensinou. Não há necessidade de as fazer tombar depois de tão crescidinhas.

19.5.17

Sarilho

No princípio eu ia à Cândida só para me abastecer e descansar os pensamentos. A frescura dos legumes, as múltiplas texturas da fruta, o odor marinho do peixe que ela própria vai buscar à lota todas as madrugadas, pedem tudo aos sentidos e pouco ou nada à inteligência. É um efeito semelhante ao da meditação. Palpar mangas, tomar o peso às laranjas, escolher as folhas de espinafre, medir o grão, avaliar a transparência dos olhos da pescada, tudo isto põe freio à mente e a turbulência assenta como a poeira de um dia anterior. Além disso, a Cândida é cheia de luz e bons sentimentos. Podia ser modelo, tem o cabelo comprido e forte, de ouro genuíno, duas safiras nos olhos, uma pele de quem não tem vícios ou preocupações. E por uma boca como a dela andam muitas senhoras a injetar-se com substâncias estranhas. A Cândida, se fosse modelo, não precisaria de photoshop nem de se maquilhar para ir ao facebook dar os bons dias e dizer hoje acordei assim. Mas o sonho dela era ter aquela loja. 
Então eu costumava lá ir ao fim do dia e parava de pensar, só desfrutava, cheirava, tocava, e assim podia recuperar a simplicidade das coisas terrenas, justas e sem mistério. Às vezes o mais novo: o quê? vamos outra vez à Cândida? E eu a inventar pretextos, as bananas estão no fim, falta-me um raminho de coentros, sem caril não posso fazer o teu prato favorito.
Com o tempo – e sei lá mais o quê – a Cândida foi-me envolvendo devagar num laço, num feitiço ou coisa que o valha, porque me adivinhava e se compadecia. Não pense, eu penso por si. Hoje vai jantar caldeirada e vou já cortar tudo. Mas se com as outras freguesas ela manteve o hábito fácil de comentar a qualidade dos legumes e o preço galopante do salmão, comigo foi-se espraiando: literatura, vidas passadas, profundezas da alma, terapias alternativas. Agora, quando vou à Cândida a minha mente já não pode descansar. Enquanto escama, corta, pesa, ela arrasta-me para o sarilho das inquietações e dos prazeres da Humanidade. Apetece-me sempre conversar consigo, que é que quer? E o mais novo, impaciente mas acostumado, aninha-se entre os sacos de juta e põe-se a contar feijões. 

16.5.17

A minha é a mais esperta

Ao almoço, quem tem filhos fala dos filhos, quem tem cães fala dos cães, quem tem gatos fala dos gatos. Pergunto-me se valerá a pena eu falar-lhes da lagartixa que há uns anos vive no meu terraço. Infelizmente, não posso exibi-la porque foge se me aproximo para a fotografar, escondendo-se por trás dos vasos ou nas brechas das lajetas. Quando deixo a portada aberta, entra-me em casa aos soluços, dá umas voltas desatinadas, enfia-se atrás da estante. Depois, o instinto leva-a de volta para onde há sol, liberdade e alimento. A minha lagartixa é muito mais esperta do que todas as outras. 

15.5.17

Lugar-comum

Era uma solução triste, mas nem por isso descabida. Foi até a primeira a ocorrer-lhe quando se achou grávida. Antigamente não, mas agora é simplesa gente chega lá, diz que não quer o filho e prontos, fazem-se as coisas bem feitas e com limpeza. Mas depois do susto inicial, a rapariga da papelaria ficou a matutar por tanto tempo que esgotou o prazo para reverter o incidente: e se não voltasse a ter outra oportunidade de ser mãe? 
Acha que fiz bem?
Eu não acho coisa alguma. Não é minha a vida, nem o sonho, nem o filho. Tenho sobre o aborto duas visões: uma individual, outra social. Mas a rapariga da papelaria não é eu e também não é um país inteiro, está no território vago da individualidade alheia, perto porque tem nome e rosto, infinitamente longe apenas por ser outra. Dela apenas sei que tem trinta e poucos, um cabelo de ouro falso, é doce e atrevida, idealiza o amanhã com uma melancolia que cheira a velhice de pantufas. Porque me faz perguntas difíceis? Decido responder-lhe com um lugar-comum. Os lugares-comuns são obra de génio, as únicas verdades que não podem ser desditas. E este serve o propósito e salva-me a mim: 
- Acho que deve fazer sempre o que o coração mandar.
A rapariga da papelaria tem sonhado muito com um amor eterno. É um sonho tão puro, tão desarmado, que talvez Deus se tenha disposto a realizar-lho como deve ser: nada de versões fajutas, não um homem com flores na mão ou mel na língua, não um pedido de casamento de joelhos, não um êxtase vulgar, de rotina, obrigado por um contrato vitalício. Um filho, só. O filho amará sempre, apesar e para além de tudo, por cima de palavras mal ditas, portas batidas, mesas reviradas, culpas, tareias, enganos e distâncias. 
- Só espero que...
Interrompe-se com um suspiro e eu, para não a constranger, disperso os olhos pelas revistas no balcão.
- Não é por nada, mas eu preferia mesmo que fosse um menino.

7.5.17

Os dias da minha mãe

A minha mãe teve seis filhos, mas nunca lhe faltou a paciência nem perdeu o espírito. Como sou caçula, até uma certa altura os meus problemas foram diminuídos aos seus olhos. Uma espécie de pulseira azul na triagem de Manchester, o que não era de condenar, pois se o meu irmão era chamado para cumprir serviço militar e as minhas irmãs estudavam para exames e tinham arrufos com namorados, qual a importância da corrente solta da minha bicicleta? Em compensação, por não ter nascido ninguém depois de mim, foram meus e só meus, durante muitos anos, o seu colo, a sua cama, os seus mimos. E a minha avó, entredentes: se tem algum jeito, uma marmanjona pendurada na mãe!
Versejava com graça e destreza, bastava dar-lhe mote. Dançava, contava, escrevia, tinha um humor garoto e uma cativante subtileza na forma de provocar, ironizar ou apanhar alguém em falta. Foi com ela que aprendi que a elegância pede tanta moderação no uso do acessório como na exibição do essencial, mas como não lhe herdei a beleza - os deuses não podem estar presentes em todas as criações - fracasso todos os dias na tentativa de a imitar.
Tal como os meus filhos, também eu me habituei a dividir a minha mãe com os livros sem inveja ou conflito. Porém, às vezes, aborrecia-me de não haver quem brincasse comigo e a minha impaciência era tal, o ócio desesperava-me tanto, que eu caía aos seus pés repetindo um choradinho:
- Não sei o que hei de fazer!
Ela fechava o livro para poder dar-se só a mim, olhava-me com uma profundidade azul, comovida, magnética, e dizia:
- Então inventa.
E não houve jamais outro conselho que me fosse tão útil nas voltas e reviravoltas da vida.

5.5.17

Sangrar

As nódoas de sangue são as mais difíceis de tirar. As mulheres sabem-no desde o princípio do mundo. 
Podemos até conseguir pôr todos os homens a lavar roupa e isso será socialmente justo. Mas é tolice desejar que sangrem como nós.