25.5.18

Acordar

Conta-me histórias para me manteres acordada, todas as que lembras e outras que fores capaz de inventar. Mas não digas uma palavra que seja a teu favor. Caso sejas o herói, esconde-te como sabem esconder-se os grandes: vestido de trapos, no vão de uma escada ou à sombra de uma árvore condenada a arder por esquecimento. 

24.5.18

Acontecimentos

Muita coisa acontece enquanto eu escrevo praticamente nada. E, contudo, quem por cá passe, vendo isto tão parado, tão dormente, talvez suponha que morri e – ingrata – disso não dei satisfações aos que generosamente me seguem nem tampouco deixei convite para assistir ao solene e comovente lançar das minhas cinzas nas arribas do Douro. Mas viva posso garantir que estou porque me vão doendo certas partes do corpo, outras afrouxam, as demais enrugam, e todas, invariavelmente, se demoram muito em tudo o que faço, quanto mais não seja pela vontade crescente de prolongar prazeres, impressões e panoramas. 
Vivas estão também a rapariga da papelaria e Alice, a menina que só à força do bisturi consentiu em vir ao mundo e que apertou o laço entre a mãe e a avó, envolvendo-as num ninho de compreensão e solidariedade tardio mas nem por isso menos feliz. Já tem os dois incisivos inferiores e há mais um a romper. É uma menina boa de criar, afiança a avó a quem pergunta como vão os sonos e os apetites. E virando as costas à rapariga, que organiza as revistas no balcão, sussurra-me: a mãe chora mais do que a filha, é noite e dia, não sei que tem. 
Viva está a cabeleireira, a quem o marido ofereceu uma bimby pelas bodas de prata para que ela não se desgastasse tanto na cozinha. Suspiros no salão: isso é que é amor. Todas as senhoras acharam uma bonita atitude, as velhinhas lamentaram que não houvesse dessas facilidades no tempo em que aqueciam a barriga na fornalha, as mais novas queixaram-se que as suas bimbys tiveram de ser reclamadas com uma insistência desesperada e argumentos quase científicos. Só a manicura, que é viva e bem viva: valha-vos deus, sois tão ingénuas que até metendes pena. E a dona Maria Isabel, sem tirar os olhos das unhas bem compostas e levantando um canto da boca com malícia, meteis, querida, meteis, a provar, enfim, que está tão ou mais viva do qualquer outra daquelas mulheres.
Sim, vivo continua também o senhor Pereira, firme nas razões que tem sobre a mulher e as filhas, porém dobrando-se à sensualidade da viúva e atormentado com a suspeita de que o mercedes possa ter mazelas. Anda a fazer um barulhinho, uma espécie de sopro, sabe? para logo adiantar não, claro que não sabe
Parece, portanto, que o mundo está exatamente onde o deixei da última vez que cá estive, que é o mesmo o ângulo de incidência da luz, que se repetem as angústias, os equívocos, os deslumbramentos. Que cada um sabe de cor as suas deixas e as cumpre com resignação, sem vislumbrar outro papel que lhe possa ser atribuído. Nada surpreende ou se revela. Afinal, a única coisa que acontece é estarmos todos vivos. E achei que valia a pena vir aqui dar sinal disso.

27.3.18

Duelo

Não posso competir com ela. Falta-me jeito para escrever sobre o amor como se fosse a dor ciática ou um pote de mel onde chafurdar até à náusea. Também não te dedico versos porque os considero golpes baixos, ao género de uma boa lingerie: seduzem no primeiro impacto, alimentam a fantasia, mas depois (já disse isto ontem?) tornam-se inúteis e não enganam ninguém. Sei falar-te sobre como trocar ideias, suor e saliva mas isso talvez te pareça muito pouco ao pé das promessas que ela faz porque ignora ainda o carácter transitório de tudo. Ela pensa em ti quando a lua enche ou o mar se faz amante devoto e submisso aos pés da costa e diz que tu lhe lembras filmes que viu, livros que leu, visões que teve. Eu, que de romântica nunca tive nem uma falange, penso em ti a propósito das coisas difíceis, quotidianas e passageiras, no caminho entre a casa e o campo de batalha, enquanto pico cebola, lavo os cabelos ou faço transferências bancárias. Ela jura que é capaz de ir até ao fim do mundo por amor. Mas o fim do mundo é longe, às vezes revela-se um deserto, uma secura de morte, outras um labirinto onde as multidões andam às turras e caem redondas no chão. Eu, por amor, sou capaz da mais absoluta lealdade e pouco mais. 

26.3.18

Além do Bojador

Passou o dia mundial da poesia e eu não me lembrei de um verso nem me ocorreu um nome a quem pudesse dedicar a minha gratidão. A minha avó estava certa: os livros podem muito pouco por nós. Lês tanto para quê, rapariga? Para nada, dir-lhe-ia se fosse hoje. Um verso, um poema, um romance, são só enfeites para a tragédia da vida, jamais uma salvação, tampouco um abrigo. Como a velha que se maquilha para à força parecer bela e sai em desfile pelas ruas e cafés. E os outros, sabendo embora da sua decomposição, pelo menos não a veem, real, triste e crua, apenas notam a graça acrescentada com um toque de cor, um traço mais vivo, um brilho mais aceso. Num poema, a infelicidade até parece coisa nobre e o desgosto um privilégio e a perda uma dádiva. Quantas vezes, mais novinha, desejei sofrer para merecer aquele verso de Pessoa Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor. Que tolo me parece hoje o meu pensamento. Estou cada vez mais parecida com a minha avó, que só tinha a quarta classe e por isso dobrou os seus cabos sem o auxílio de uma única estrofe.

15.3.18

A última a morrer

Removo as cochonilhas da minha planta favorita com paciência de Job e um algodão embebido em álcool. Duvido que resulte, mas como a minha ignorância chega ao ponto de deixar que as flores caiam em desgraça por amor, resta-me confiar no google e naqueles que, a troco de nada, publicam segredos e mezinhas para quase tudo nesta vida. A olho nu, as cochonilhas têm um aspeto inofensivo, mas são uma praga mortífera que vai envolvendo os caules e criando ninhos no verso das folhas, ao longo das nervuras. Como qualquer outra malignidade, conseguem reproduzir-se a partir de uma sobra ínfima, por isso todo o cuidado é pouco e toda a paciência é bem-vinda na hora de as eliminar. Escusado será dizer que isto que explico com tanta propriedade não é ciência que eu tenha estudado e muito menos entendido, apenas papagueio o que li sem critério.
Sei que a minha planta favorita está condenada. Com o tempo, começará a ter dificuldade em respirar e absorver energia, perderá cor e morrerá. Mas até lá, removerei as cochonilhas todas as semanas, uma a uma, como se fosse possível mudar o destino. Já todos fizemos isso: mascarar a falência, insistir na dignidade até ao fim. Só no dia em que podemos enterrar o cadáver, virar a cara ao horror da decomposição, baixar os braços, é que nos permitimos aceitar a morte. E a isto, por engano, chamamos esperança.

14.3.18

Gisele

Encontro hoje a rapariga da papelaria ao balcão, muito caída, com os olhos desanimados, prolongando sem necessidade as tarefas a que tem estado a regressar devagarinho e por enquanto só de manhã, explica-me, porque custa deixar Alicita o dia inteiro de uma assentada. Queixa-se que a ausência da filha faz doer o corpo inteiro, os seios formigam, as coxas tremem, braços, mãos, pernas e pés pesam-lhe como se fossem excessos. Pousa a mão no ventre, ponta solta e desarrumada do laço desfeito entre mãe e filha, e comove-se. Às vezes parece que já nada disto é meu, é tudo dela. Pergunto como está afinal a menina, digo que a achei muito linda da última vez que a vi e a rapariga da papelaria endireita as costas e sorri, parecendo até que faz as pazes com a vida. Não é por ser minha mas sim, é muito linda. O assomo de orgulho, porém, já não vai a tempo de evitar que duas lágrimas grossas desçam, sem alarido, pelas abas trémulas do nariz. Eis o amor, penso e não digo. Eis o amor eterno que tanto pediste a Deus, minha cara.
Ainda passo nos correios para enviar um livro e quando vou a preencher o registo, a funcionária que me atende desata num pranto e leva as duas mãos à cara para o abafar. Largo a esferográfica e o papel, quero chegar-lhe e não consigo, está afundada por trás de um balcão. Meu Deus, murmuro enquanto ela se desfaz sem que ninguém mais perceba. O choro vem de muito fundo e sai num silvo longo, contínuo, como coisa que estivesse à espera desde que o mundo é mundo. Não se preocupe que eu não me engano nas contas, diz-me, aproveitando a tomada de fôlego. Com uma mão - porque a outra tem-na ainda a tapar o nariz e a boca - pesa a encomenda, insere os dados, tira a fatura, dá-me o troco, mas eu não vou a lado algum. Fico a vê-la chorar e essa é a minha solidariedade possível, já que me falta arte para palavrinhas de consolo e frases feitas. É que às vezes, diz ela percebendo que hesito e aguardo, às vezes fico só muito cansada.
Certamente é por culpa de Gisele que estas mulheres choram. Diz que não é uma tempestade, é uma depressão que chegou hoje para agitar águas, levantar ventos e desfazer-se em lágrimas sobre ruas e telhados. Há de passar, cedo ou tarde, e nas praças abandonadas, nos lamaçais e nos destroços, a primavera há de dar de novo o seu pesponto colorido e o verão virá, por fim, adoçar a polpa dos frutos. 

21.2.18

Paroles, paroles, paroles

Ouço os rapazes debaterem com fervor os direitos das mulheres, proclamando a igualdade e o respeito, apelando ao que é urgente fazer. Vou para participar, dizer do que sei e preciso, esclarecer-lhes dúvidas, explicar certos receios e sentimentos, más memórias, atavismos, obstáculos. Mas eles mal me ouvem. Pois sendo embora solidário o seu discurso, não escutam ainda voz alguma além da deles.

19.2.18

Om

Gemem as sirenes, roncam os motores, gritam as buzinas, zumbem os aviões, disparam os alarmes, papagueiam as chamadas em alta voz. A cidade ou bem que chora ou bem que protesta, ninguém tem consolo nem cómodo. Ao entoar o mantra, julgando-me a salvo do caos e das preocupações mundanas, protegida pela penumbra dourada e pelo aroma do incenso, reparo que faço coro. Não distingo, a certa altura, entre a minha voz e os sons da rua. Sentada em padmasana, fantasio a harmonia universal com o mesmo propósito de qualquer um que buzine na fila do trânsito: a libertação.

16.2.18

Labirinto

A rapariga da papelaria sobe a rua empurrando o carrinho de bebé como se nele levasse o mundo inteiro. Não pelo esforço, mas porque vai em cuidados, muito atenta às pedrinhas no chão, aos declives e às falhas do passeio, aos postes e contentores, salvaguardando o equilíbrio da sua criatura. Tem os sentidos como antenas, de soslaio vigia os carros que se aproximam e as pessoas com quem se cruza, aconchega a mantinha cor-de-rosa, atira um beijo e pergunta quem é a flor mais linda da mãe, quem é? Alice, embalada pelos rumores do quotidiano e pelo baloiço da marcha, não pode ainda responder. Mas um sorriso, por mais breve, bastará para que a rapariga da papelaria saiba que o mundo vai na rota certa.
O senhor Pereira, que traz a mulher num braço e o "Jornal de Notícias" no outro, para a cumprimentar-me e detém-se também a admirar mãe e filha nestas miúdas manifestações de amor. E por confundir a nostalgia evidente nos meus olhos com qualquer outra coisa que nesse instante lhe ocorre, pergunta:
- A menina está a pensar o mesmo que eu, pois está? 
Ora, eu tenho fraca ideia do que possa andar na cabeça do senhor Pereira e também duvido que ele suspeite do que vai na minha. É dos livros e das revistas de cabeleireiro que nem o mais perspicaz dos homens se orienta no labirinto da mente feminina. Vou eu desdizer tão antiga e conveniente verdade?
O senhor Pereira tenta acrescentar suspense ao momento, ora mirando a rapariga da papelaria que já vai longe, ora rindo para mim como um catraio. A mulher impacienta-se e desata-lhe a língua com uma cotovelada:
- Diz lá de uma vez, que me estás a dar nervos.
Enervar a patroa é que não! Sob pena de ficar sem cabidela e sem pantufas, o senhor Pereira resolve-se e fala:
- Estou a pensar que, depois de ser mãe, uma mulher perde a gracinha toda. Olhem que realmente... 
Lanço os olhos à mulher do senhor Pereira buscando nela uma aliada para aguentar, não a afronta – porque nem a tomo como tal –, mas a miséria do que acabo de ouvir. Espanto-me de ver que ela aparenta ter perdido o interesse na conversa. Tem já um ar ausente, abre uma das mãos, estende os dedos, ajeita os anéis, aprecia as unhas bem limadas e pintadas. Quando o marido lhe pergunta não achas? dando-lhe ele, desta vez, a cotovelada, ela responde o quê? 
Com a esperança desbaratada, mal empregue, vertida no lixo, decido dar um saltinho à papelaria. Alguém em minha casa há de estar a precisar de cromos.

15.2.18

Ginásio

Dedico muitas horas ao sonho quando estou acordada. Amarro um rol de deliciosas impossibilidades, dou-lhes um rosto, construo-lhes uma morada, encaixo-as num tempo que me convenha. Desde que me tornei adulta, tudo o que sonho enquanto durmo peca por excesso de verosimilhança, não voo, nem mudo de identidade ou sou perseguida por dragões. São reais os meus inimigos, tanto quanto os meus prazeres. Se me aparecer um cão gigante, no pior dos cenários será um grand danois, jamais Cérbero. Não vencerei a gravidade ao atirar-me da varanda, por mais que dê aos braços. Sofro de realidade crónica, até em repouso. E tenho medo de, por causa disso, ficar com a alma empedernida, rangendo com a simples ondulação da vida. Então exercito-a depois de abrir os olhos, quando o sol estoira no meu quarto, imaginando, nem que seja à força, todas as coisas invulgares que me estão reservadas, como a viagem de comboio até ao extremo oriente, o meu corpo fértil e são por toda a velhice, a verdade sussurrada ao meu ouvido ou qualquer outro privilégio que nem a conta bancária, nem a natureza, nem deus me podem conceder.

8.2.18

O vento

O vento trepa pelas coxas de Adriana, levanta-lhe a saia e toda uma primavera se liberta no esvoaçar do padrão florido. Zé Carlos olha de viés, oito anos de namoro, outro tanto de casados, ah, as coxas de Adriana, foi o primeiro a abrir caminho através delas, tem as chaves, a língua, os dedos, uma ou outra palavra mansa que desfaz as resistências, a falta de apetite e outras cismas que vá-se lá entender. Já não se usa tal propriedade. A bem dizer é amor, corrige ele. Não desconfia: nem das intenções do vento nem da graça que Adriana vê no seu assobio longínquo, nas mãos fortes e invisíveis, no modo de lhe roçar o ouvido e levantar os cabelos e, sobretudo, na forma como depois vai sem deixar sobrenome, papel assinado, pedido para o jantar.

5.2.18

Farmácia

O mais novo: mãe, cura-me, dá-me um beijo dos teus. Ora, logo o meu beijo, que já foi veneno, troféu, moeda de troca, alucinogénio, arma de assalto, selo de garantia, ponto que deu nó. Já foi – confesso – o de Judas, mas sem os trinta dinheiros nem a posteridade. Já foi assunto, suposição, história mal contada. Até já foi relógio, mecanismo seco e triste badalando a horas certas. Mas os filhos – oh, inocentes! – veem na boca das mães assepsia e santidade. E agora, a salvo da fama de atos indignos, o meu beijo é só uma farmácia aberta vinte e quatro horas por dia.

1.2.18

Ciência quase exata

As minhas teorias carecem de validação científica e pode acontecer até que aparentem ser opostas ao movimento da Terra. É que não as encontrei em manuais de respeito, em textos alinhados, justificados à esquerda ou à direita. Por isso julgas que falo por falar e que ando como as crianças, atirando barro à parede e pedras aos telhados a ver se pega ou se parte. É inútil dizeres que o dicionário se me opõe e que a enciclopédia me desmente, nem adianta virares contra mim as máximas dos sábios. Segundo fulano. De acordo com sicrano. Eu estudo pelo rosto dos Homens vulgares, que cai, com a mesma naturalidade da maçã, na lama das ruas ou no regaço das mães. E nos seus gestos vejo a dinâmica das forças que mantêm o velho e obscuro equilíbrio do universo. Assim me vai sendo dada a lógica da maioria das coisas. O quotidiano é uma ciência quase exata.