26.5.17

Estranhos

Gosto de dar conversa a estranhos e se a minha avó fosse viva deitaria as mãos à cabeça por isto. Sempre teve muito medo que eu fosse raptada, drogada, amputada e jamais devolvida. Quando fui para a escola primária, ordenou-me que não falasse com nenhum desconhecido e muito menos aceitasse ofertas. Logo no primeiro dia desobedeci, aceitei do meu colega de carteira um cacho de uvas em gesso, para pintar, e ela deitou-o ao lixo. Não fosse a serenidade da minha mãe e o seu gracioso entendimento com o mundo, eu teria embarcado na vida pela metade, com um pé atrás, espreitando por cima do ombro e por baixo das camas.
Gosto de dar conversa a estranhos por nada dever nem cobrar. É um instante que vale por si, livre de expectativas, e por isso pode dar-se ao luxo raro da honestidade. Quando um homem, na frutaria, me contou desgostar de tal forma de abacates que os dava às galinhas, ri-me muito com ele. Ficámos na conversa, fazendo graças com a situação, mas se fosse meu pai, meu filho, meu amante, meu amigo, ter-me-ia zangado e cobrar-lhe-ia a leviandade. Ainda haviam de piorar as coisas quando ele, ao ver-me encher um saco de mangas, deixe-se de tropicalices, não há nada como uma maçãzinha de Alcobaça.
E a dona Isaura, que ia todas as manhãs comigo no 90 quando eu estagiava, que seria de mim se fossemos mais do que estranhas? A dona Isaura fazia limpezas na Baixa, tinha as mãos lustrosas e rosadas, sem textura, queimadas pela lixívia. Engraçou comigo logo na primeira viagem e quis saber-me a profissão, que curso tinha, quantas línguas falava. No embalo das conversas, que eram diárias mas não iam além dos quinze minutos, falou-me do filho mais novo, uma joia de rapaz que nenhuma rapariga até então merecera. Preguiçoso, é certo, deixara o décimo segundo ano muito mal acabadinho e não tinha emprego, mas era inteligente ao seu modo e – enfatizou – muito respeitador. Que culpa tinha ele de não lhe verem os talentos? Sem que eu encomendasse, um dia prometeu trazer uma fotografia. Na manhã seguinte, medrosa, planeei fazer de conta que não a via quando entrasse no autocarro. Mas a dona Isaura, que já vinha no 90 desde Contumil, acenou-me efusivamente e foi batendo com a mão no banco ao lado como se faz às crianças para ordenar que sentem. Venha, venha, tenho aqui o meu filho para ver o que acha. Tirou da carteira a fotografia e, muito ansiosa, é ou não é bonito? Oh, era tão feio e desmaiado, com a cabeça enterrada nos ombros e, pior, tinha nos olhos o atordoamento de quem vê fantasmas. 
- A menina não se importa, pois não?
- De quê, dona Isaura?
- De ele não ter os seus estudos. 
Percebi então que a dona Isaura andara desde o princípio a fantasiar um romance. Estava convencida de que eu era a rapariga certa para salvar o filho daquela injusta e injustificada solidão, dando-lhe um rumo, uma família e certamente um emprego.
- Tenho a certeza que ele também vai gostar muito de si. 
Nunca mais apanhei o 90. Passei a ir a pé, coisa pouca, meia hora sempre a descer e nem que chovesse. Até ao dia em que parei num pão quente no Marquês para a minha DDR de cafeína e o empregado sisudo me desafiou para um quebra-cabeças de matemática.

25.5.17

Dois botõezinhos

Os meus filhos crescem e vou perdendo as ganas de escrever sobre eles. Em breve serão pessoas comuns, integradas no sistema, respondendo a apelos vulgares, e deixarão de me fazer perguntas difíceis a lembrar o tamanho da minha ignorância e a falta de verdade nas minhas convicções.
Em tempos distantes – e que me parecem já de uma vida anterior – planeei ter muitos filhos. Crescendo uns, outros nasceriam e assim a minha casa seria sempre habitada pelos cheiros, rumores e revelações da infância. Ficou-me o sonho atravessado e, em algumas noites, revolve-me o cérebro e leva-me outra vez a experimentar o poder sobrenatural de dar à luz e a novidade de um amor maior. Acordo com pena por ver a casa condenada a esvaziar-se de inocência e subversão. A idade adulta interessa-me pouco. É morna, distraída, subjugada, tem pouca luz, fala num sentido e faz no outro. Admiro crianças e velhos. Mas os meus filhos estão a deixar de ser crianças e eu vou demorar a ser velha. Às vezes, o mais novo ainda me diz: serei sempre o teu bebé. E eu, sabendo que já só o diz por generosidade, vou pondo freio ao deleite, ao gozo da posse, ao maior equívoco do amor. 
Entretanto, despontaram dois botõezinhos violáceos numa planta que eu só aceitei por dispensar grandes cuidados e me parecer incapaz de dar flor. 

24.5.17

Obra

Vejo o amor como coisa tão simples que muito poucos embarcam no assunto comigo. É uma ponte, digo, e a minha versão parece-lhes fria, grosseira, sem encanto. Oh, que tristeza cada um na sua margem, dizem, e entre eles um rio que em dias maus arrasta lama, lodo, lixo, restos, mortos. Como consideram o amor um templo de cúpulas apontadas aos céus, onde a gente se ajoelha, reza e pede, um lugar de adulações, oferendas e sacrifícios, desiludem-se por eu ver nele uma vulgar obra de engenharia e achá-lo perfeito assim.

23.5.17

Linha reta

O senhor Pereira tem sido visitado pelas filhas com alguma regularidade. Não é ainda uma regularidade amorosa, limita-se às datas festivas porque com o pretexto do calendário elas ficam dispensadas de dar o braço a torcer. É curioso como os filhos, entrando na idade adulta, se fazem juízes dos pais à luz não sei de que expectativas e razões. As duas raparigas não perdoam o que a mãe há muito perdoou: a voz de uma outra mulher saudando o senhor Pereira com o tom de quem abre braços, pernas e coração. Seriam elas tão seguras e inflexíveis caso o deslize fosse dos seus maridos? Virariam costas e, em passo firme, começariam uma nova vida, tal como aconselharam à mãe? Ou, desesperadas, usariam os filhos, as recordações, as debilidades, as contas conjuntas, a hipoteca da casa e mais o que lhes ocorresse para os aguentar? Talvez acabassem a esquecer, tomando tudo por um equívoco, uma troca de linhas. Quando o amor não é bastante, a cegueira é a melhor estratégia para preservar um casamento. 
Às vezes, porém, ocorre-me que pode não ser indignação o que afasta as filhas do senhor Pereira e as mantém superiores, como se imunes ao erro. Pode ser inveja. Aos setenta e dois anos, o senhor Pereira viu a luz de um amor novo brotando do coração de uma mulher vinte anos mais jovem, uma mulher que não precisa, não depende, não rasteja. O que dariam elas, quando os seus ventres secarem e os maridos afrouxarem e a vida não aparentar mais novidade, para escutar um igual diz, meu amor
Mas isto que escrevo é apenas o que suponho. Vejo passar as filhas do senhor Pereira, de cabeça erguida, beijando o pai de raspão, e peço a Deus e ao Destino que não as coloquem diante de muitas encruzilhadas, abismos e tentações, não virem o bico ao prego, poupem-nas ao reverso da medalha. Deixem-nas avançar em linha reta, sem desvios nem surpresas, conforme, aliás, o próprio pai lhes ensinou. Não há necessidade de as fazer tombar depois de tão crescidinhas.

19.5.17

Sarilho

No princípio eu ia à Cândida só para me abastecer e descansar os pensamentos. A frescura dos legumes, as múltiplas texturas da fruta, o odor marinho do peixe que ela própria vai buscar à lota todas as madrugadas, pedem tudo aos sentidos e pouco ou nada à inteligência. É um efeito semelhante ao da meditação. Palpar mangas, tomar o peso às laranjas, escolher as folhas de espinafre, medir o grão, avaliar a transparência dos olhos da pescada, tudo isto põe freio à mente e a turbulência assenta como a poeira de um dia anterior. Além disso, a Cândida é cheia de luz e bons sentimentos. Podia ser modelo, tem o cabelo comprido e forte, de ouro genuíno, duas safiras nos olhos, uma pele de quem não tem vícios ou preocupações. E por uma boca como a dela andam muitas senhoras a injetar-se com substâncias estranhas. A Cândida, se fosse modelo, não precisaria de photoshop nem de se maquilhar para ir ao facebook dar os bons dias e dizer hoje acordei assim. Mas o sonho dela era ter aquela loja. 
Então eu costumava lá ir ao fim do dia e parava de pensar, só desfrutava, cheirava, tocava, e assim podia recuperar a simplicidade das coisas terrenas, justas e sem mistério. Às vezes o mais novo: o quê? vamos outra vez à Cândida? E eu a inventar pretextos, as bananas estão no fim, falta-me um raminho de coentros, sem caril não posso fazer o teu prato favorito.
Com o tempo – e sei lá mais o quê – a Cândida foi-me envolvendo devagar num laço, num feitiço ou coisa que o valha, porque me adivinhava e se compadecia. Não pense, eu penso por si. Hoje vai jantar caldeirada e vou já cortar tudo. Mas se com as outras freguesas ela manteve o hábito fácil de comentar a qualidade dos legumes e o preço galopante do salmão, comigo foi-se espraiando: literatura, vidas passadas, profundezas da alma, terapias alternativas. Agora, quando vou à Cândida a minha mente já não pode descansar. Enquanto escama, corta, pesa, ela arrasta-me para o sarilho das inquietações e dos prazeres da Humanidade. Apetece-me sempre conversar consigo, que é que quer? E o mais novo, impaciente mas acostumado, aninha-se entre os sacos de juta e põe-se a contar feijões. 

16.5.17

A minha é a mais esperta

Ao almoço, quem tem filhos fala dos filhos, quem tem cães fala dos cães, quem tem gatos fala dos gatos. Pergunto-me se valerá a pena eu falar-lhes da lagartixa que há uns anos vive no meu terraço. Infelizmente, não posso exibi-la porque foge se me aproximo para a fotografar, escondendo-se por trás dos vasos ou nas brechas das lajetas. Quando deixo a portada aberta, entra-me em casa aos soluços, dá umas voltas desatinadas, enfia-se atrás da estante. Depois, o instinto leva-a de volta para onde há sol, liberdade e alimento. A minha lagartixa é muito mais esperta do que todas as outras. 

15.5.17

Lugar-comum

Era uma solução triste, mas nem por isso descabida. Foi até a primeira a ocorrer-lhe quando se achou grávida. Antigamente não, mas agora é simplesa gente chega lá, diz que não quer o filho e prontos, fazem-se as coisas bem feitas e com limpeza. Mas depois do susto inicial, a rapariga da papelaria ficou a matutar por tanto tempo que esgotou o prazo para reverter o incidente: e se não voltasse a ter outra oportunidade de ser mãe? 
Acha que fiz bem?
Eu não acho coisa alguma. Não é minha a vida, nem o sonho, nem o filho. Tenho sobre o aborto duas visões: uma individual, outra social. Mas a rapariga da papelaria não é eu e também não é um país inteiro, está no território vago da individualidade alheia, perto porque tem nome e rosto, infinitamente longe apenas por ser outra. Dela apenas sei que tem trinta e poucos, um cabelo de ouro falso, é doce e atrevida, idealiza o amanhã com uma melancolia que cheira a velhice de pantufas. Porque me faz perguntas difíceis? Decido responder-lhe com um lugar-comum. Os lugares-comuns são obra de génio, as únicas verdades que não podem ser desditas. E este serve o propósito e salva-me a mim: 
- Acho que deve fazer sempre o que o coração mandar.
A rapariga da papelaria tem sonhado muito com um amor eterno. É um sonho tão puro, tão desarmado, que talvez Deus se tenha disposto a realizar-lho como deve ser: nada de versões fajutas, não um homem com flores na mão ou mel na língua, não um pedido de casamento de joelhos, não um êxtase vulgar, de rotina, obrigado por um contrato vitalício. Um filho, só. O filho amará sempre, apesar e para além de tudo, por cima de palavras mal ditas, portas batidas, mesas reviradas, culpas, tareias, enganos e distâncias. 
- Só espero que...
Interrompe-se com um suspiro e eu, para não a constranger, disperso os olhos pelas revistas no balcão.
- Não é por nada, mas eu preferia mesmo que fosse um menino.

7.5.17

Os dias da minha mãe

A minha mãe teve seis filhos, mas nunca lhe faltou a paciência nem perdeu o espírito. Como sou caçula, até uma certa altura os meus problemas foram diminuídos aos seus olhos. Uma espécie de pulseira azul na triagem de Manchester, o que não era de condenar, pois se o meu irmão era chamado para cumprir serviço militar e as minhas irmãs estudavam para exames e tinham arrufos com namorados, qual a importância da corrente solta da minha bicicleta? Em compensação, por não ter nascido ninguém depois de mim, foram meus e só meus, durante muitos anos, o seu colo, a sua cama, os seus mimos. E a minha avó, entredentes: se tem algum jeito, uma marmanjona pendurada na mãe!
Versejava com graça e destreza, bastava dar-lhe mote. Dançava, contava, escrevia, tinha um humor garoto e uma cativante subtileza na forma de provocar, ironizar ou apanhar alguém em falta. Foi com ela que aprendi que a elegância pede tanta moderação no uso do acessório como na exibição do essencial, mas como não lhe herdei a beleza - os deuses não podem estar presentes em todas as criações - fracasso todos os dias na tentativa de a imitar.
Tal como os meus filhos, também eu me habituei a dividir a minha mãe com os livros sem inveja ou conflito. Porém, às vezes, aborrecia-me de não haver quem brincasse comigo e a minha impaciência era tal, o ócio desesperava-me tanto, que eu caía aos seus pés repetindo um choradinho:
- Não sei o que hei de fazer!
Ela fechava o livro para poder dar-se só a mim, olhava-me com uma profundidade azul, comovida, magnética, e dizia:
- Então inventa.
E não houve jamais outro conselho que me fosse tão útil nas voltas e reviravoltas da vida.

5.5.17

Sangrar

As nódoas de sangue são as mais difíceis de tirar. As mulheres sabem-no desde o princípio do mundo. 
Podemos até conseguir pôr todos os homens a lavar roupa e isso será socialmente justo. Mas é tolice desejar que sangrem como nós.

4.5.17

Ditaduras

A emergência de uma ditadura é sempre muito insuspeita e vestida de nobres valores: justiça, igualdade, riqueza, segurança. Só existe um discurso para a conquista do poder. Um único caminho que apenas no fim revela o destino que serve. Tarde se desconstroem os eufemismos: justiça afinal é castigo, igualdade converte-se em superioridade, riqueza vira açambarcamento e segurança cumpre-se com grade, grilhão e mordaça. 
Portanto, não é o discurso que conduz a uma vitória porque ele é indiferenciado. É a maior ou menor fragilidade do povo que decide se acabamos reféns ou saímos livres. E o que digo, embora parecendo, nada tem a ver com regimes políticos.

3.5.17

A bicharada

Não há nada mais comum do que o sentimento da maternidade. Todas as mães caminham na corda bamba, equilibrando felicidades e angústias, ansiedade e culpa, saudosismo e expectativa, não havendo muito por onde reivindicar originalidade. Pertencem ao povo, e não aos iluminados, todas as verdades ditas sobre o assunto. É pegar numa enciclopédia de provérbios populares e lá se encontram todos os nossos pensamentos, com a vantagem da graça, da rima e do ritmo. 
Já as nossas bisavós se queixavam que os filhos só davam consumições para, no momento seguinte, louvarem a sua graça à família e aos vizinhos. Não havia blogues e as editoras eram criteriosas, por isso elas partilhavam as inquietações nos patamares dos prédios, nas salas de espera, à volta da lareira. E assim amplificavam o seu desespero quotidiano, a trabalheira de os manter na linha, os raros talentos manifestados desde tenra idade, também o arrependimento pela tareia de cinto, o desgosto pela mediocridade nos estudos, o medo que uma dor de barriga fosse prenúncio de morte. A par se criou o hábito de, virando costas a mãe que se queixasse, as outras desdizerem a sua capacidade de educar. Se fosse meu filho, deixava-lhe aquele rabo a arder.
Admitir que a maternidade tem dores não é, nunca foi, uma questão de coragem. De novo nada tem. De exclusivo, muito menos, e basta apreciar a bicharada da quinta, da selva e da savana. Mas certas mães têm achado novas e grandes oportunidades na miséria de não poderem tomar banho em paz, ler uma revista sem interrupções ou maquilhar-se com deve ser. E graças a elas nunca faltam temas ao lifestyle e livros de venda fácil. 

20.4.17

A primavera, às vezes

Nas redondezas, o frio polar guardou por muito tempo as misérias dentro de portas. Andaram recolhidos os bêbados, os jovens desavindos, as chocadeiras de boatos. Os cães pouco ladraram, não houve rumor ou cheiro de ameaça. Até os bichinhos carpinteiros das crianças realizaram o ciclo da hibernação. O parque infantil ficou entregue ao abandono, dando a ideia de não haver futuro para este lugar. Todos os dias, mesmo ao fim de semana, os ociosos foram despachados do café muito antes das oito. E com a noite, caía sobre a praceta um vazio espesso, insuportável, que é o vazio das ausências demoradas. 
Quem estivesse só de passagem havia de ver em tudo isto a tão romanceada paz bucólica. Os mais citadinos, esses que deliram com qualquer cheirinho de terra húmida, interpretariam esta quietude de morte como a sábia e feliz resignação daqueles que vivem dos ciclos. O que o inverno tem de bom é a ilusão de que a vida não dói, só se faz esperar. Depois vem a primavera esclarecer o equívoco. O calor varre a geada dos prados, nas árvores despontam botões de muitas cores e o canto dos pássaros antecipa o nascer do sol, toda a natureza é um coração aberto e disposto, chamando as misérias para que saiam de volta da lareira e tornem às ruas. De madrugada, às vezes, que susto! Um pontapé num contentor do lixo, o chiar de travões no asfalto, uma ladainha agoniada, um estrondo que pode ser disparo ou embate, a viatura de emergência médica gemendo para se enfiar em becos impossíveis. Os cães, desassossegados, ladram aos espíritos que migram no vento de leste.
Numa destas noites, afligi-me com a súplica de uma voz masculina: Deixa-me, mãe! Deixa-me ir, tenho de ir! E no meio de um choro convulsivo, desesperado, humilhado, uma voz rouca disse não até perder as forças. Quando saí, manhã cedo, procurei em vão aquela mãe entre as mulheres que iam a caminho do lavadouro público, já suando em bica sob as trouxas de roupa suja. 

18.4.17

De esperanças

A rapariga da papelaria está grávida. E eu sem suspeitar, atribuindo à primavera a luz aumentada nos seus olhos e na sua pele, a tendência para sorrir de coisa nenhuma, a languidez dos movimentos. Também não estranhei a presença frequente da mãe, a dar apoio nas rotinas de trabalho. Por isso, quando a rapariga me anuncia a boa nova, à queima-roupa, gaguejo, sem saber que emoção demonstrar. Então não estava ela ainda à espera de um amor real, recusando-se a aventuras e namoricos de circunstância?
Faz-me muitas perguntas, provavelmente as mesmas que já fez e fará a todas as outras mulheres. Também enjoei? Deu-me o sono a horas impróprias? Pratiquei desporto? Que creme para evitar estrias? Quantos fatinhos comprei? Dói muito? Respondo com paciência e generosidade, embora saiba que os meus sapatos não lhe servirão nos pés. 
A mãe vai sorrindo a espaços, com alguma ternura. Porém, o que nela salta à vista é o coração apertado, aquela angústia grave, permanente, funda, que rouba a paz de espírito e que a rapariga da papelaria, lá para o final do ano, também conhecerá, sem reversão possível. Com o ar de quem desgosta de um prato ou de um vestido:
- Eu não queria que fosse assim. Mas ela... 
- Ó mamã, lá vem você! Eu é que tenho de querer!
- Tu e ele! Ou não foram dois a fazê-lo?
- Tudo se resolve com o tempo, mamã. 
Ah! A boca do povo põe a rolar muitas falsidades e agarramo-nos a elas com uma fé que enternece. Mas a rapariga da papelaria está de esperanças e é, por isso, seu dever acreditar em finais felizes. Vou embora a lembrar-me que a gravidez não constava da lista de objetivos que ela formulou para 2017. Ignoro qual a história, o desatino, o equívoco, a vontade, o sentimento, a urgência ou a promessa que concebeu este filho. Mas só por vê-la assim, feliz e renovada, alegro-me de saber que o destino se marimba para os nossos planos.

17.4.17

Um domingo tão lindo

Numa esplanada dos subúrbios, fala-se sobre a morte de um homem. Tirou férias para visitar os filhos emigrados no centro da Europa e ficou a meio do caminho, encarcerado no próprio automóvel. Na mesa ao meu lado, dividem-se os géneros na abordagem à tragédia. Dois homens suspendem a leitura do jornal para adivinhar as causas do acidente. Viatura em mau estado, talvez óleo no asfalto, pneus carecas ou algum obstáculo inesperado. A mulher que está com eles desaperta dois botões da camisa para dar o peito ao sol e lamenta as ironias do destino. Não conhecia de perto a vítima mas pode dizer-se que lhe era familiar. Pelo facebook sabia da sua bondade e dedicação às coisas da terra, bem se via que era gente querida pelo entusiasmo, pela graça e pelos inúmeros talentos que, sem cobrar, punha à disposição de todos. Logo ele havia de morrer! Que critério é o de Deus? Sono, concluem os homens. Há gente assim, irresponsável, faz-se à estrada sem noção da lonjura e do esforço. Diz que ele era tão alegre, tão amigo! insiste a mulher. Eles, surdos: a maioria das vezes nem preparam o automóvel para uma viagem destas! Ela quieta, de olhos fechados, consigo mesma: está toda a gente muito abalada lá na freguesia, é uma perda sem tamanho. Eles, reabrindo os jornais: excesso de velocidade, de certeza, é o costume, o portuguesinho tem a mania que é artista... Ela, resignada, esvaziando-se num suspiro: que tristeza esta, num domingo tão lindo.

12.4.17

A salvação

Num dos muitos textos apagados deste blogue, contei da Luisinha, que fracassou ao tentar embarcar na derradeira viagem da qual esperava a salvação. Até hoje me intriga e fascina que o tenha feito precisamente quando a felicidade parecia instalar-se, em grande, na sua vida. Em todo o caso, não fez os cortes nos pulsos com a devida ciência e deixou pistas suficientes para ser resgatada no limite.
Durante o tempo em que esteve internada os médicos proibiram-na de ver aqueles a quem ela queria bem. Podia, portanto, estar a Luisinha a morrer de solidão e culpa, desde que o músculo cardíaco não parasse de bater. E é assim que a medicina vai aumentando ganhos e territórios. 
A novidade é que, passado o susto e assentada a poeira, ela conheceu o Vasco, contou-lhe a sua história, as suas fraquezas, a sua terrível vocação para a dor. Enterneceram-se, comoveram-se, ficaram ligados. Não tardou que ele a pedisse em casamento. Entre baba e ranho, a Luisinha aceitou, aliviada por ver que, afinal, a morte não era a única forma de salvação. Mais tarde viria a descobrir que também não é única maneira de se dar cabo da vida.
Durante algum tempo temeu-se que aquela nova onda de felicidade voltasse a precipitá-la no abismo. Foi vigiada, protegida, satisfeita, e o noivo redobrou os afetos e a compaixão pois não queria perder a mais sedutora mistura que pode encontrar-se numa mulher: beleza e fragilidade. Além disso, a tragédia crónica da Luisinha veio dar cor e utilidade à sua pacata existência de ruminante, que já vinha de longe. Ser o salvador e o guardião de uma mulher é um cargo muito ambicionado pela maioria dos homens.
De modos que a  Luisinha casou com tudo aquilo que era seu direito e muito mais bonita do que no dia em que se meteu a brincar com a morte. No final da boda, o Vasco garantiu aos sogros que a mulher ficaria em boas mãos, ele próprio vigiaria a perigosa relação dela com soporíferos e objetos cortantes e se encarregaria de lhe lembrar as horas certas da medicação. E todos se emocionaram com a grandeza daquele amor.

10.4.17

Pétalas

A menina tem a cara do irmão, a quem me afeiçoei por via de longas trocas de olhares. Veem ambos o mundo através de duas azeitonas pretas, gulosas e húmidas, o sorriso é poupadinho mas honesto, e as narinas, sensíveis, estremecem como pétalas com a cadência do respirar. 
A graça que os liga, presumo que a inventaram para salvar a visão do mundo porque herança não é de certeza. Às oito da manhã, o pai envenena-se no tasco. Sai de lá branco como a morte, impermeável a desgostos, perigos ou alegrias, olhando com uma transparência desumana, opiácea. Atravessa ruas sem cuidados, entra em cheio com os pés nas poças, embate cego nas soleiras e nos postes. Muitas vezes é deus quem o acode no limite, insistindo em mantê-lo vivo. Aos quarenta anos, é uma tragédia sem poética, que se evita com os olhos para mais depressa apagar da memória. A mãe, que é um monstro de corpo, pernas grossas como troncos, peito e ombros com larguezas de macho, revela muitas sobras de infância quando a olhamos de perto. E ao vê-la caminhar de mão dada com os filhos, não se percebe quem guia quem, quem ampara quem, que desgraça é causa e que desgraça será consequência.

7.4.17

Dialética do senhor e do escravo

Jantei uma vez com o meu antigo patrão sem saber que o era. Coisas que nos enredos de Hollywood são comuns, mas na vida real só por diabólica ironia acontecem. Partilhámos o vinho, enchemos a barriga, ainda nos consolámos com sobremesa e café. Havia mais gente, mas a conversa absorveu-nos e tudo foi reduzido a névoa e rumor. Discutimos Kant, Hegel e Marx, discordámos em tudo, rebati com juvenil e inconsequente paixão cada uma das teorias que me apresentou, acusei-o de ignorar a realidade, questionei o valor do seu percurso académico. De igual modo, ele menosprezou a utilidade do meu ofício. Julguei estar na posse de um trunfo quando, no embalo da conversa, percebi que ele ignorava ser correto, em certos casos, colocar uma vírgula junto de um "e". Ri-me tanto quanto pude, superior, desconhecendo quem tinha diante de mim. Ainda nem trinta anos fizera e a moderação não era coisa que eu privilegiasse nas relações humanas. Lembro de ele ter perguntado se eu achava que, na decisão de invadir a Polónia, Hitler se socorrera da gramática. De enfiada, sem me dar tempo, bombardeou-me com dezenas de exemplos em que os líderes fizeram e desfizeram a História sem que as vírgulas contassem para coisa alguma, do Império Romano à guerra do Golfo. E para fechar o círculo, com o olhar afiado, brilhando do tinto e da vitória: o senhor não precisa das vírgulas do escravo
No dia seguinte mandaram-me à administração. Entrei no gabinete e congelei quando a cadeira giratória se voltou e um riso muito fresco e irónico me saudou. Era a hora de decidir se o meu período de experiência me elevaria aos quadros da empresa ou me atiraria para o olho da rua. 

5.4.17

A carta

Na clandestinidade, ando a fazer tesouro dos bilhetinhos que o mais velho trocou nas aulas com as raparigas e que me pediu o favor de descartar por neles só ver enlevos tolos de pré-adolescência. Ora, não se pode fazer lixo do que algum dia, mesmo que em idade menor, tenha predisposto o coração à poesia. E assim, já que ele me havia autorizado a lê-los, autorizei-me a mim própria a guardá-los, segura de que em menos de vinte anos ele achará graça à recordação e me agradecerá pelo cuidado.
São bilhetinhos amorosos, de passos lentos, pontuados de dúvidas e suposições. A linguagem beneficia dos floreados que só à inocência se desculpam. Confiaram em muitas mãos para circularem a salvo do olho felino das professoras, por baixo das carteiras, dentro de esferográficas, entalados nas páginas dos manuais. Tenho-os agora numa caixa de metal, a mesma que há muitos anos serviu para guardar outros bilhetinhos.
O meu objetivo maior é, porém, a carta. A carta de amor, a melhor que alguma vez li fora de encenações literárias. Espero, paciente, que ele a descarte também para me apropriar daquele rolo enlaçado com fita azul que lhe foi entregue num fim de tarde de outono, uma beleza, da caligrafia ao sentimento, da sintaxe à inteligência. Sei onde está, não lhe mexo mas cobiço-a, desejo-a, morro de medo que a traça a devore, que o descuido a amarfanhe, que o tempo a desbote. De longe a longe pergunto: a carta? Está guardada. Mesquinha, procuro trocar-lhe as voltas: está a ocupar-te espaço, nunca mais estiveram juntos, nem lhe respondeste. Nada. A carta, arrumada entre medalhas, projetos de viagens, esboços de focinhos equídeos, é capítulo de uma história onde eu não entro. 
Às vezes vejo-a, a autora. Ultrapassou-me em tamanho, mas cumprimenta-me ainda com deslumbramento e reverência, sou a mãe dele. Ignora que sei a carta de cor e que estou solidária com cada palavra, pois a maturidade não muda nem uma vírgula ao modo de o amor se revelar. Valem pouco os quase trinta anos de vida que nos separam. 

4.4.17

Um lugar para o senhor Pereira

Persiste na implicância com a juventude, o senhor Pereira. Quando me vê caminhar lenta, ó menina, se eu tivesse a sua idade não tinha essa moleza. Se calha eu andar mais ligeirinha, quando chegar a velha vai perceber que foi inútil correr. Feliz pelas coisas que possuo, o vosso problema é que nem se lembram de quem não tem nada. Triste pelo que me falta, vocês agora não dão valor ao que têm. Vendo-me sair de carro, antigamente fazíamos muitos quilómetros a pé, automóvel era um luxo. Se vou de bicicleta, que desperdício, um automóvel na garagem e vai ao pão assim? Saio a pé e se trabalhasse como trabalhávamos antigamente não se aguentava nas canetas. Aparecendo-lhe os meus filhos alegres, faladores, a criançada agora é muito irrequieta, não se controla. Mas se os sente macambúzios ou introspetivos, hoje em dia é só facilidades e mesmo assim andam sempre insatisfeitos, vá-se lá perceber... Boas notas? O que conta são os ensinamentos da vida. Notas fracas? Sem estudar não se vai a lado nenhum.
Nada que venha de um menor de cinquenta anos obterá a concordância do senhor Pereira. Terá sempre uma verdade superior, com legitimidade para desaprovar e diminuir. Viveu o vinte e cinco de abril e para ele isso é a condição da maturidade, sendo que a ideia de viver o vinte e cinco de abril é apenas a de ter nascido antes da revolta pois não creio que o senhor Pereira tenha dado o corpo ao manifesto ou sofrido, nem no pré nem no pós, mais do que mera inquietação com os tostões amealhados na banca. De modos que se ri de mim por eu usar fraldas à data. Nada sei sobre ditadura e liberdade. Nada posso saber sobre coisa alguma.
Vejo-o passar no carro novo, devagar, cheio de cuidados, tenso, de olhos arregalados, medroso de qualquer risco ou caganita na pintura, mal medindo as distâncias, travando súbito por tudo e por nada, dando voltas e voltas ao quarteirão em busca de estacionamento com suficiente largueza. 
- Boa tarde, senhor Pereira.
- Boa tarde, menina. Apre! que isto agora é só carros, só carros, só carros, não há um raio de um lugar!
Bufa. E a pintura metalizada do automóvel brilha com esplendor, encandeia a visão e apaga todos os horizontes à volta.

3.4.17

Sirsasana

Sete e meia da manhã, cheira a sândalo e eu estou na penumbra, de cabeça para baixo, vertical como uma estaca, esforçando-me por acreditar que uma respiração profunda e fluida é profilaxia de quase todos os males de corpo e espírito. Nada deveria corromper o meu pensamento nesta hora. Porém, parece-me um desperdício não dar uso completo à cabeça, incluindo delírios e divagações, precisamente quando ela é a grande beneficiária do meu sangue. Assalta-me então a ideia de que isto me anda a dar cabo da vida. Como posso ganhar o pão vivendo apaziguada, de que me serve o domínio das nobres virtudes da paciência e da aceitação? Que linha de jeito se escreve sem um desassossego, um medo, uma paixão, uma lembrança maldita? Enrolo-me, componho-me, retomo devagar a postura que por algum motivo deus ordenou aos humanos: a razão no topo, o coração adiante. Visto-me e saio para a rua ansiando por um combate que me ponha de novo o sangue a ferver. Tenho saúde, cabeça, dois filhos pequenos entrando no mundo a passo acelerado. Não posso encostar a espada quando tudo está de pernas para o ar. 
Regresso amanhã para continuar a praticar a urgente consciência disto.

31.3.17

Madrugada

Não sei se choro por vê-lo partir ou por me lembrar de quando quem partia era eu.

30.3.17

Metades

Escreve-me uma senhora indignada, ou assim me pareceu pelo emotivo abuso da pontuação: e acha bem que o amor seja uma desculpa para a violência?!?!??? tenha cuidado com o que diz!!!!
Minha senhora, não sou guia espiritual, cronista remunerada de assuntos sociais, conselheira do programa das manhãs. Cuidado com o que digo, tenho na presença dos meus filhos. Vivendo sob a minha exclusiva responsabilidade, estão, por enquanto, submetidos ao meu exemplo e às minhas orientações. Mas os leitores são crescidos, seria uma agressão à sua inteligência usar de paninhos quentes ou presumir que leem os meus textos para decidir as suas vidas. 
De resto, não escrevo sobre o que acho bem ou acho mal. Escrevo sobre o que acho ou me surge como evidência. A miséria a pretexto do amor é uma evidência. Mas escrevo só metade, é o que basta. Que graça há em dizer tudo, fechar o círculo, pintar as cores do retrato, formular o juízo e a moral? A outra metade fica para o leitor pensar, imaginar, acrescentar, se no mote vir interesse ou desafio. A senhora é a única responsável pelo que fez com a metade que lhe dei.

29.3.17

*

Ao amor, quase tudo é consentido: o nó cego, o engano, a violência, a usura. Diz-se só fiz isto porque te amo e é como atirar a culpa à criança mais doce e inocente por saber que ninguém tem a frieza de a  castigar.

28.3.17

Branco

Bastou dizer-te que gostava do branco e logo me apareceste com flores brancas, lenços brancos, uma caixa de bombons de chocolate branco. Vestiste camisa branca, mostraste-me os dentes brancos, confessaste que também tinhas páginas em branco. Depois vinho branco, arroz branco, carne branca, couve branca. Hei de ter cabelos brancos, ainda disseste, como se eu precisasse da tua velhice para alguma coisa. E a morte, lembraste, traz a visão de uma luz branca. Para me agradares, tudo de uma assentada. Até me faltar o ar e, de tudo ser tão branco, acabei por desejar o verde mas não te disse, com medo que viesses logo plantar um jardim na minha casa.

24.3.17

Dia do estudante

Hoje é o dia do estudante e com a mesma resignação os alunos entraram nas escolas e à mesma hora se fecharam os portões, apartando o mundo de dentro e o mundo de fora como se inimigos fossem. E pelo brio das pautas e por um amanhã igual ao ontem se continuou a trabalhar, de olhos nos manuais, de braços baixos, em silêncio, silêncio, silêncio, SILÊNCIO POR FAVOR!  

23.3.17

Um amor cura-se com outro

Com a morte trágica da Julieta, revelou-se a minha falta de jeito para lidar com delicadezas e snobismos. Afetada, vaidosa, quase ofendida, Julieta não sobreviveu ao meu amor desprendido, ao facto de eu ter negligenciado a sua importância na decoração e de a ter usado para validar teorias existenciais. 
Como é próprio dos que sofrem desgostos e frustrações, durante algum tempo decidi não mais responsabilizar-me por plantas. E, vendo bem, de que me serve uma orquídea tão perfeita que parece falsa e cujas necessidades o meu instinto não alcança, obrigando-me a recorrer à ciência googliana? Mas depois, arrefecidos os ânimos e relativizadas as perdas, cedi à máxima de que um amor se cura com outro e aceitei, com infantil esperança, um cato, uma suculenta e um arbusto que os amigos me deram de presente. Pareceu-me desde logo mais simples cuidar do que não dá flor ou, pelo menos, não tem nela a superior expressão. Sem essa face delicada, erótica, bela e perversa da vida, que apetece tocar, exibir, fotografar, a dimensão trágica de qualquer perda será, com certeza, menor.
Tenho então aqui as plantas, coabitando em paz com o meu desleixo, anónimas, enraizadas em terra vulgar, dessa que pela cor e pelo toque dá sinal de necessidade ou abundância. Está tudo bem para elas, têm firmeza e resiliência, cai-lhes uma folhinha e logo desponta outra, o clima não lhes define os humores. E, de resto, reagem muito bem às mezinhas bizarras com que, em jeito de experiência, as alimento. 

21.3.17

Um país carente

Na semana passada descobri que o meu país está profundamente carente. E, por processos que talvez os especialistas da psique saibam explicar, canalizam e alimentam um grande amor, não pelos livros, não pelo prazer da leitura, não pelo que aprendem com a frase, o parágrafo, o cenário criado, a visão revelada, mas pelos próprios escritores, ainda que não os conheçam. Mas, tal como acontece numa grande parte dos amores, é sempre chegado o dia em que a realidade não bate certo com a ilegítima e irreal fantasia que costuma dominar os corações mais débeis. Então, começam os amuos e as birrinhas, formulam-se acusações, fazem-se cobranças, enviam-se faturas, exige-se o divórcio. E o pior, o que mais assusta, é aquele gesto novelesco, dramático, de lançar as roupas do outro pela janela, proporcionando a toda a vizinhança um espetáculo que, se pouco tem de dignidade, menos tem ainda de tolerância. 

10.3.17

Fácil é a vida dos outros*

A vida dos outros, ah, quantas vezes nos parece redondinha, simples, a bater certo com as necessidades, cheia de confortos e conveniências, com poucas e brandas dores e ainda com vantagens extra caídas do céu! O Pedro, por exemplo, acha que a vida do António é fácil, porque o António tem um contrato de trabalho e um salário ao fim do mês, e salário, como se sabe, é sinónimo de independência. Mas o António acha a vida do Pedro fácil porque o Pedro é estagiário, ninguém o pressiona e pode sair às seis horas em ponto e também acha fácil a vida da Marta, que é contabilista e a única coisa que tem de fazer é organizar papéis e dedilhar na calculadora. A Marta acha fácil a vida do António, parece ser divertido passar o dia a escrevinhar coisas, afina aqui, retoca ali, e depois o orgulho de ver tudo exposto na rua e nas revistas, assim como acha fácil a vida da Célia, que limpa e varre os escritórios de fio a pavio enquanto canta canções de amor, concentração zero, responsabilidade nula. A Célia acha fácil a vida da Marta, que trabalha sem levantar o rabo da cadeira e não chega ao fim do dia com o corpo moído e doente, assim como acha fácil a vida do José que, com o cargo que tem na direção, ganha que chegue para férias decentes em paraísos orientais. O José acha fácil a vida da Célia, que consegue tirar os vinte e dois dias a que tem direito e esparramar-se ao sol, pensando em nada, no relvado da praça ou na varanda de casa, e também acha fácil a vida do Carlos, o dono da empresa, que beneficia do luxo enquanto os outros dão o corpo ao manifesto para que o barco se aguente. Mas o Carlos acha fácil a vida do José, que só não desliga ao fim de semana porque não quer e não tem às costas o sustento de vinte famílias, assim como acha fácil a vida do Rogério, que goza, no espírito e na carne, a sua liberdade de solteiro, sem horas marcadas nem mensagens para responder. O Rogério acha fácil a vida do Carlos que, quando regressa a casa, tem juras de amor, mimos, afagos e uma cama morna e acha ainda fácil a vida da Isabel, a última mulher com quem dormiu por acaso, que numa sessão fotográfica ganha para três meses. A Isabel acha fácil a vida do Rogério, que tem trabalho certo e previsível e em quem, pelo menos, veem mais do que um corpo bonito e também acha fácil a vida da Mariana, que não tem um filho para sustentar e para lhe dar cabo da paciência ao fim do dia. A Mariana acha fácil a vida da Isabel, que não precisa de se injetar com hormonas nem fazer sexo em horas certas para despistar a infertilidade, mas também acha fácil a vida do irmão Miguel, que num golpe de sorte e talento se tornou um escritor mediático. O Miguel acha fácil a vida da Mariana, porque uma dona de casa não faz ideia do que é a crítica e do quanto pode pesar o reconhecimento público e também acha fácil a vida do filho Francisco, a quem a adolescência não exige mais do que tempo para ir às aulas e outro tanto para matar com noitadas e miúdas. O Francisco acha fácil a vida do pai Miguel, que não precisa já de se esforçar para mostrar o que vale e encontrou o seu lugar no mundo, e também acha fácil a vida da irmãzinha Laura, que não tem os pais nem o universo inteiro contra ela. A Laura acha fácil a vida do irmão Francisco, que vai para a cama à hora que quer e passa férias com os amigos e acha mesmo muito fácil a vida do primo recém-nascido João, que repousa tranquilo no peito materno e não faz ideia que a tabuada pode ser o inferno na terra. Mas o João, que acaba de rasgar o ventre da mãe, que com ela trabalhou violentamente durante oito horas para vir ao mundo, que num repente lhe foi arrancado embatendo contra o frio, a luz e o barulho, que foi remexido, vasculhado, aspirado, medido e revirado por três pares de mãos, que na brevidade dos sessenta minutos seguintes teve de aprender a respirar, a chorar, a cheirar, a comer e a digerir, o João talvez saiba que nunca nada na vida será fácil para ninguém. Infelizmente, o João esquecerá tudo isto porque a memória tem misteriosos caprichos. E um dia também achará fácil a vida do António, que acha fácil a vida da Marta.

* post de Abril de 2012, republicado para o senhor Pereira que hoje, ao ver-me passar com um calhamaço, suspirou se eu tivesse a sua vida, também lia livros de seiscentas páginas. E para mim, que fiquei a vê-lo arrancar no novo, potente e brilhante automóvel e a pensar rica vida, hein?

9.3.17

*

O amor é mais verdadeiro quando dele não se espera o filho, a casa, as férias, a estabilidade. Meter o amor no saco dos projetos de vida é o que o corrompe e deturpa. Ama-se com honestidade depois das vulgares realizações, quando sobra e vem à tona exatamente apenas o que somos. E por isso um amor novo no coração dos velhos é feliz e desprendido.
Até lá, ama-se uma expectativa, não uma realidade. Sorte a daqueles – raros – em que há coincidência.