23.3.17

Um amor cura-se com outro

Com a morte trágica da Julieta, revelou-se a minha falta de jeito para lidar com delicadezas e snobismos. Afetada, vaidosa, quase ofendida, Julieta não sobreviveu ao meu amor desprendido, ao facto de eu ter negligenciado a sua importância na decoração e de a ter usado para validar teorias existenciais. 
Como é próprio dos que sofrem desgostos e frustrações, durante algum tempo decidi não mais responsabilizar-me por plantas. E, vendo bem, de que me serve uma orquídea tão perfeita que parece falsa e cujas necessidades o meu instinto não alcança, obrigando-me a recorrer à ciência googliana? Mas depois, arrefecidos os ânimos e relativizadas as perdas, cedi à máxima de que um amor se cura com outro e aceitei, com infantil esperança, um cato, uma suculenta e um arbusto que os amigos me deram de presente. Pareceu-me desde logo mais simples cuidar do que não dá flor ou, pelo menos, não tem nela a superior expressão. Sem essa face delicada, erótica, bela e perversa da vida, que apetece tocar, exibir, fotografar, a dimensão trágica de qualquer perda será, com certeza, menor.
Tenho então aqui as plantas, coabitando em paz com o meu desleixo, anónimas, enraizadas em terra vulgar, dessa que pela cor e pelo toque dá sinal de necessidade ou abundância. Está tudo bem para elas, têm firmeza e resiliência, cai-lhes uma folhinha e logo desponta outra, o clima não lhes define os humores. E, de resto, reagem muito bem às mezinhas bizarras com que, em jeito de experiência, as alimento. 

21.3.17

Um país carente

Na semana passada descobri que o meu país está profundamente carente. E, por processos que talvez os especialistas da psique saibam explicar, canalizam e alimentam um grande amor, não pelos livros, não pelo prazer da leitura, não pelo que aprendem com a frase, o parágrafo, o cenário criado, a visão revelada, mas pelos próprios escritores, ainda que não os conheçam. Mas, tal como acontece numa grande parte dos amores, é sempre chegado o dia em que a realidade não bate certo com a ilegítima e irreal fantasia que costuma dominar os corações mais débeis. Então, começam os amuos e as birrinhas, formulam-se acusações, fazem-se cobranças, enviam-se faturas, exige-se o divórcio. E o pior, o que mais assusta, é aquele gesto novelesco, dramático, de lançar as roupas do outro pela janela, proporcionando a toda a vizinhança um espetáculo que, se pouco tem de dignidade, menos tem ainda de tolerância. 

10.3.17

Fácil é a vida dos outros*

A vida dos outros, ah, quantas vezes nos parece redondinha, simples, a bater certo com as necessidades, cheia de confortos e conveniências, com poucas e brandas dores e ainda com vantagens extra caídas do céu! O Pedro, por exemplo, acha que a vida do António é fácil, porque o António tem um contrato de trabalho e um salário ao fim do mês, e salário, como se sabe, é sinónimo de independência. Mas o António acha a vida do Pedro fácil porque o Pedro é estagiário, ninguém o pressiona e pode sair às seis horas em ponto e também acha fácil a vida da Marta, que é contabilista e a única coisa que tem de fazer é organizar papéis e dedilhar na calculadora. A Marta acha fácil a vida do António, parece ser divertido passar o dia a escrevinhar coisas, afina aqui, retoca ali, e depois o orgulho de ver tudo exposto na rua e nas revistas, assim como acha fácil a vida da Célia, que limpa e varre os escritórios de fio a pavio enquanto canta canções de amor, concentração zero, responsabilidade nula. A Célia acha fácil a vida da Marta, que trabalha sem levantar o rabo da cadeira e não chega ao fim do dia com o corpo moído e doente, assim como acha fácil a vida do José que, com o cargo que tem na direção, ganha que chegue para férias decentes em paraísos orientais. O José acha fácil a vida da Célia, que consegue tirar os vinte e dois dias a que tem direito e esparramar-se ao sol, pensando em nada, no relvado da praça ou na varanda de casa, e também acha fácil a vida do Carlos, o dono da empresa, que beneficia do luxo enquanto os outros dão o corpo ao manifesto para que o barco se aguente. Mas o Carlos acha fácil a vida do José, que só não desliga ao fim de semana porque não quer e não tem às costas o sustento de vinte famílias, assim como acha fácil a vida do Rogério, que goza, no espírito e na carne, a sua liberdade de solteiro, sem horas marcadas nem mensagens para responder. O Rogério acha fácil a vida do Carlos que, quando regressa a casa, tem juras de amor, mimos, afagos e uma cama morna e acha ainda fácil a vida da Isabel, a última mulher com quem dormiu por acaso, que numa sessão fotográfica ganha para três meses. A Isabel acha fácil a vida do Rogério, que tem trabalho certo e previsível e em quem, pelo menos, veem mais do que um corpo bonito e também acha fácil a vida da Mariana, que não tem um filho para sustentar e para lhe dar cabo da paciência ao fim do dia. A Mariana acha fácil a vida da Isabel, que não precisa de se injetar com hormonas nem fazer sexo em horas certas para despistar a infertilidade, mas também acha fácil a vida do irmão Miguel, que num golpe de sorte e talento se tornou um escritor mediático. O Miguel acha fácil a vida da Mariana, porque uma dona de casa não faz ideia do que é a crítica e do quanto pode pesar o reconhecimento público e também acha fácil a vida do filho Francisco, a quem a adolescência não exige mais do que tempo para ir às aulas e outro tanto para matar com noitadas e miúdas. O Francisco acha fácil a vida do pai Miguel, que não precisa já de se esforçar para mostrar o que vale e encontrou o seu lugar no mundo, e também acha fácil a vida da irmãzinha Laura, que não tem os pais nem o universo inteiro contra ela. A Laura acha fácil a vida do irmão Francisco, que vai para a cama à hora que quer e passa férias com os amigos e acha mesmo muito fácil a vida do primo recém-nascido João, que repousa tranquilo no peito materno e não faz ideia que a tabuada pode ser o inferno na terra. Mas o João, que acaba de rasgar o ventre da mãe, que com ela trabalhou violentamente durante oito horas para vir ao mundo, que num repente lhe foi arrancado embatendo contra o frio, a luz e o barulho, que foi remexido, vasculhado, aspirado, medido e revirado por três pares de mãos, que na brevidade dos sessenta minutos seguintes teve de aprender a respirar, a chorar, a cheirar, a comer e a digerir, o João talvez saiba que nunca nada na vida será fácil para ninguém. Infelizmente, o João esquecerá tudo isto porque a memória tem misteriosos caprichos. E um dia também achará fácil a vida do António, que acha fácil a vida da Marta.

* post de Abril de 2012, republicado para o senhor Pereira que hoje, ao ver-me passar com um calhamaço, suspirou se eu tivesse a sua vida, também lia livros de seiscentas páginas. E para mim, que fiquei a vê-lo arrancar no novo, potente e brilhante automóvel e a pensar rica vida, hein?

9.3.17

*

O amor é mais verdadeiro quando dele não se espera o filho, a casa, as férias, a estabilidade. Meter o amor no saco dos projetos de vida é o que o corrompe e deturpa. Ama-se com honestidade depois das vulgares realizações, quando sobra e vem à tona exatamente apenas o que somos. E por isso um amor novo no coração dos velhos é feliz e desprendido.
Até lá, ama-se uma expectativa, não uma realidade. Sorte a daqueles – raros – em que há coincidência.  

8.3.17

Os direitos

A minha caixa de e-mail lembra-me que, por ser mulher, tenho hoje mais direitos do que nunca. Tenho direito a quinze por cento de desconto na compra de calçado de boa marca. Tenho direito a escolher três conjuntos de lingerie e pagar dois. Tenho direito a qualquer livro por um preço que aos homens está vedado. Tenho direito a aceder, com condições especiais, à nova coleção de acessórios e bijuteria. Tenho direito a dois pares de óculos de sol se introduzir o código promocional. 
A minha caixa de e-mail lembra-me que, por ser mulher, é esta a vastidão das minhas possibilidades e são estas as grandezas que mereço. E eu: obrigada mas não preciso. Tenho tudo o que quero, tenho voz, tenho pulso, tenho rumo, tenho pernas, tenho sexo, tenho género, tenho génio, tenho filhos, tenho gosto, tenho contas, tenho espelho, tenho casa, tenho tempo, muito tempo. Ninguém me corta a palavra, o salário ou o corpo. Ninguém me levanta a mão ou o tom. 
Caros senhores do carnaval do mundo, costureiros de lantejoulas, operários da poeira colorida, engenheiros de euforias e paliativos: foi engano, o dia não é para mim. Mas, enfim, àquelas que penam e precisam, de nada servem os direitos que estais dispostos a conceder, os vossos stocks por escoar, a etiqueta cosida a sangue no avesso.

7.3.17

Verdade e mentira

Tendo a família e os amigos como visitas deste espaço, sujeito-me a muitas perguntas e a alguns pedidos. Cruzam o que leem com o que sabem do meu quotidiano e lançam-se a decifrar as entrelinhas ou a subentender rostos por trás dos nomes. Querem saber que papelaria é essa que eu frequento e cuja funcionária apetece ouvir de viva voz. Também há quem peça para ir à minha cabeleireiraE é grande a curiosidade que desperta a dona Maria Isabel ao levantar-me o queixo com os seus dedos maduros, de sangue nobre. Mas a maioria das perguntas são acerca da identidade do senhor Pereira, cujo verdadeiro nome está e estará, obviamente, a salvo. 
Talvez eu dê contornos demasiado generosos às pessoas, fazendo-as mais interessantes do que na realidade são. Ou apenas limpo o que está à volta de modo a que se note o que habitualmente ninguém vê. Em todo caso, sendo certo que o que aqui conto é a mais pura das verdades, impõe-se o adorno com as mais inofensivas mentiras. É real a rapariga da papelaria, porém, ela pode ser da mercearia e podem ser beterrabas os cromos que lhe compro, sem que isso faça diferença. Já a cabeleireira e a sua lúcida e desbocada manicura podem estar trocadas e ser a primeira quem arranja as unhas e a segunda quem corta o cabelo ou uma e outra serem apenas enfermeira e auxiliar do centro de saúde, tratando também, mas de outro modo, de cabeças e mãos. E o senhor Pereira? Ora, eu tenho o meu mas cada um terá o seu, se não andar desatento deste mundo. Não há, portanto, em qualquer das minhas personagens, raridade ou estranheza. Interessam-me pelo motivo oposto: porque são vulgares e padecem de males comuns, apenas lhes falta a arte de os disfarçar. Vejo nelas o reflexo de todos os equívocos, desenganos e desesperanças e dá-me pena. Então ponho-me a escrever, contando que isso me garanta o perdão por tão mesquinho sentimento. 

3.3.17

Sonhos

Quando sonho dormindo, os meus colegas são motoristas de autocarro e o mundo tem os traços vertiginosos de uma obra de Gaudí. Há gente que aparece todas as noites, mas sempre muda e queda como um bibelô. As inutilidades que tenho à venda no olx são compradas por funcionários das Finanças. Os mortos desfilam vestidos de noivos. O meu patrão contrata-me para servir de bandeja a mulher dele. Colegas da primária dançam seminus, com plumas e purpurinas, no carnaval de Ovar. Volto ao secundário invariavelmente para os exames de matemática e biologia a que, por distração, faltei. Faço dezenas de quilómetros a pé com os meus filhos através da escuridão. Salvo golfinhos, tartarugas e toxicodependentes. A minha bicicleta já só tem uma roda e atrelo-a ao automóvel do Rui Moreira para conseguir avançar. Entro armada numa escola e obrigo os professores a sentarem-se nas carteiras, sossegados. Subo contigo uma escadaria em caracol, no topo há uma claraboia incandescente, magnética, mas os degraus não têm fim, desisto e volto para trás deslizando com alívio e moleza pelo corrimão.
Infelizmente, durante o dia perco esta facilidade em inventar e enredar, em mudar o rosto e a expressão do mundo, em arrancar aos fundos da memória aqueles de quem já nem o nome recordo, em ceder a impulsos e vontades dos quais não sou consciente. Acordo, levanto-me, os meus pés estão firmes, o sol nasce do lado certo, as paredes têm ângulos retos. Dentro de mim, tenho a razão a fazer peso, a sensatez a puxar, estou do lado sóbrio da vida, mas nem por isso há menos risco.
Gostava mesmo que os meus colegas fossem motoristas de autocarro.

2.3.17

Dois gumes

Temendo a multa, o funcionário despachou-se a abrir outra caixa de propósito para atender a mulher que carregava o filho. Ficámos dez ou doze numa fila só, enquanto ela exerceu o direito a ser rapidamente aviada na qualidade de pessoa acompanhada com criança de colo. Entregou os artigos, pagou, guardou o recibo. Depois, largou a criança no chão e, como quem arreia um animal, passou-lhe os dois sacos, enfiou-lhe o gorro na cabeça e deu ordem: upa! 
Em lugar onde falte ética, a lei pode dar para tudo. Tanto ilumina o caminho aos desatentos como dá ideias aos oportunistas.

1.3.17

Um homem e uma mulher

Mal contados, são quinze os anos que passaram sobre a última vez que estive em Lisboa como turista. Depois disso, só entrevistas e reuniões, ir e vir, nenhum desvio, refeição decente, encontro interessante ou olhar demorado. E agora, que tenho Lisboa ronronando como um animal debaixo dos meus pés já maçados e adormeço sossegada no mais geométrico e lúcido dos seus múltiplos corações e acordo devagar com a oferta de uma nesga deste Tejo de bom feitio e conto, não o tempo que tenho até regressar, mas aquele que ainda me sobra para ficar, o que sinto de novo talvez até nem seja propriamente encanto pela cidade, talvez seja mesmo o gozo de dar o braço a torcer e uma vontade impossível de me deixar estar mais um dia. Lembro a minha cidade encolhida, ensimesmada, também arrogante ao seu jeito porque ao seu jeito estupidamente bela. E penso: se, como dizem, Lisboa é uma mulher e o Porto um homem, porque é que se encontram tantas vezes para negociar e tão poucas para se apaixonar?

17.2.17

Feminista

Desconforta-me o recurso de certas mulheres à exibição do corpo como forma de reclamar a igualdade de género. O meu corpo de fêmea, não o desbarato nem o renego. Cuido dele com amor, para que a passagem dos anos não me seja muito severa. Não me importo de sangrar. Concedo que os meus humores estejam sujeitos às luas. Prefiro dez filhos a rasgarem-me do que um só bisturi que me corte. Porém, são íntimas e sagradas as minhas linhas, as fontes de alimento e prazer, os lugares onde sou vigiada por sondas com uma regularidade obrigada. Tudo no corpo de fêmea é ponteiro do tempo, arritmia, imprevisto, até traição. Não havendo como contrariar essa natureza ou igualá-la a outras, respeito-a, admiro-a, salvaguardo-a, por mais que doa, nauseie ou deixe mácula. 
É a minha forma de ser feminista e orgulhosa, em nada incompatível com o exercício pleno dos meus direitos. 

16.2.17

Círculo

Cumpridas as voltas da vida, cada um acaba por regressar à sua natureza original. Chame-se o que se quiser ao que somos na essência: estrutura, base, perfil, cultura. É lá que está o conforto, o território conhecido, os assuntos que dominamos, os lugares onde seremos vistos, se não como bons, pelo menos como iguais. Sempre voltaremos, para envelhecer, aonde conhecemos os corredores, os sótãos, as arrecadações, o cheiro da humidade, o percurso exato da luz, aonde nenhuma sombra nos engane, nenhum espanto nos desoriente. Até lá podemos fazer muitas viagens de alma, testar a elasticidade do coração, sentir a força tremenda que impele a quebrar o instituído, revolver, revolucionar, desdizer o nosso íntimo, o nosso medo, o nosso sonho mais ou menos idiota, mais ou menos impossível. No caminho, há por onde evoluir, mas não há como mudar. Mais cedo ou mais tarde, fecha-se o círculo. 

15.2.17

Contenção

Talvez o mundo mereça que de vez em quando se diga bem dele e se confie nas suas intenções. É, porém, difícil escrever sobre o que nos assenta, perfeito, no coração: prados verdes, alvoradas limpas, palavras de amor e lealdade, instantes próximos do absoluto, visões que revelam uma lógica justa e digna, horas em que o mal vivido mostra o seu benigno reverso. As minhas alegrias têm uma pobre equivalência verbal. Diminuem-se quando amarradas na sintaxe. Murcham no rigoroso espartilho de vírgulas e pontos. Valem nada lidas fora do círculo íntimo e pessoal. Além disso, ao contrário das tristezas, dos males, das dúvidas, dos desesperos, as alegrias são para fazer durar. E se as exprimo, começo logo a perdê-las. 

13.2.17

Saudinha

A poucos metros da escola, as mães sem ocupação fazem o seu ninho de maledicência e entretêm-se a incubar boatos. Quando passo, interrompem o cochicho. Bom dia, o seu menino está cada vez mais lindo. Quero devolver a simpatia mas falta-me motivo para tal. Sei de cor o modo subtil, bem intencionado, com que usam bater em porta alheia para depois vasculharem toda a casa, desfazerem as camas, abrirem os armários, cheirarem o lixo. Tantos anos a retribuir-lhes com indiferença e não desistem. Quanto mais trancas meto, mais as atiço. E ontem vi o seu mais velho a descer a avenida de bicicleta. Parecia mal agasalhadinho. Ignoro o que fazem da vida, que propósito é o delas, em que nobres divagações se embrenham, que retorno lhes dá tanto investimento em conversa de esquina. Mas olhe que não ia sozinho, ia com a filha do engenheiro Lima. Conhecem os nomes de toda a gente e neles incluem títulos e profissões porque assim as obriga a longa tradição nacional da subserviência e a curvatura nas costas. Sabe que a mulher dele apareceu-lhe um tumor, não sabe? E sobre as desgraças que germinam no recato de cada lar, informam a vizinhança com a intenção mal disfarçada de tirar crédito a conquistas que a elas não foram destinadas. É por isso que eu digo, quero lá saber de sucesso e dinheiro. Importa é saudinha, que sem ela não vou a lado nenhum. A passo arrastado, acabam por seguir todas juntas para o café da igreja, onde até ao fim da manhã ficam ostentando a sua excelente e inútil saudinha, à volta de meias de leite e croissants mistos.

10.2.17

Distância de segurança

Amadureço inclinada para a solidão. Cabelos brancos só dois, não me doem ossos ou dobras do corpo, tenho um sangue limpo de ameaças. Porém, cresce-me um certo acanhamento social, perco o apetite pelo convívio de ocasião e diminuí o número dos que me seduzem para conversar sobre coisas essenciais. Entristece-me o jeito apagado de certas pessoas, nem boi nem vaca, nem raiva nem paixão, nem para trás nem para adiante. Andaram na escola, namoraram, casaram, empregaram-se e foram ficando, cavando lugar. Depois dos trinta, nada mais lhes aconteceu, nada mais construíram, nada mais transformaram, nada mais estudaram. Estão convencidas de que decidem sobre as suas vidas sempre que vão às urnas ou quando respondem se querem fatura com número de contribuinte. Que hei de eu esperar? O que dirão que deslumbre, assuste ou dispare reação? Que amanhã vai chover? Que os filhos só comem sopa passada? Que tudo é muito relativo? Que este é o país que temos? Que nunca mais chega o fim de semana?
Dou comigo saudosa do tempo em que o meu patrão gritava. As suas barbaridades, fazendo eco no corredor, eram a evidência do muito que ainda havia para rebater e transformar. E, ao menos, acordava-me, acelerava-me o pulso, fazia-me gritar também. Mas até ele arrefeceu, tanto lhe dá, é o que for, logo se vê, pode ser, e a mão dele pousa no meu ombro com frouxidão e indiferença como se fosse o fim do mundo e nada mais houvesse a fazer. 
Mais duas décadas, se as viver, e serei um bicho do buraco. Esquecerei o tempo das minhas grandes interações, dos meus atrevimentos, do gosto de falar para muitos ao mesmo tempo, da vontade de saber quem está comigo e quem está contra. Aos poucos voltarei a ser a menina que fui: tímida, melancólica, tirando as medidas aos outros com a devida distância de segurança. 

2.2.17

Mãe incompetente

O mais novo julga que as ilhas dos Açores são barcaças esquecidas no mar alto há muito tempo. Há nelas, ainda, resíduos de carga explosiva usada em batalhas travadas pelo domínio dos oceanos. Quando as águas fervem ou as bocas dos vulcões cospem brasas e fumaças, é porque ainda rebentam, com mais ou menos força, essas sobras muito bem escondidas na estrutura das barcaças. Tremem amiúde devido à presença de criaturas marinhas que não se conformam com a perturbação do seu habitat e manifestam o desgosto baloiçando caudas, tentáculos e barbatanas. Nunca se sabe quando uma dessas criaturas se revoltará em nome de várias gerações antepassadas sacudindo com violência maior uma ou outra barcaça.
Sendo ele inclinado às ciências exatas, às objetividades enciclopédicas e à face do mundo que os sentidos podem atestar, é fácil perceber que na génese destes equívocos estão insinuações minhas. Não é por mal. Só quero prevenir nele o aborrecimento que mais cedo ou mais tarde dá naqueles que vivem reféns do óbvio, porque o óbvio se esgota depois de lidos todos os factos, decorados todos os nomes, aprendidas todas as características. Sei, por outro lado, que pelos delírios e exercícios de imaginação se pode pagar custo elevado. Logo a seguir à dependência, o medo é o mais pesado. 
À noite vai consultar os livros. Não diz aqui nada disso. Mas, por via das dúvidas, não tenciona pôr os pés nessas barcaças. 

1.2.17

Eutanásia

A morte, que é, entre todos os tabus, o mais injustificado, anda a ser dissecada com pinças e paninhos quentes pelos colunistas que hoje reincidem no tema. Alguns sabem muito de História, de Teologia, de Filosofia, citam nomes grandes, aparentam ter de cor todas as constituições, escudam-se em conhecimento livresco, de acordo com..segundo os princípios elementares da...considerando as teorias de... Serei estúpida por não perceber que verdade, afinal, apregoam, se têm de facto opinião e de onde lhes vem o direito ao lugar cativo de mil carateres por semana, tantas vezes mal escritos e ofensivos para quem tenha dois dedos de testa. O teatro do debate público é isto: qualquer coisa sem chama nem compromisso, que mais baralha do que elucida e que passa rasteira quando parece estar a iluminar o caminho.

(Qualquer um que já se tenha visto na iminência de, com as próprias mãos, dar o golpe de misericórdia, sabe que a voz do médico, do juiz e do padre são ciência vaga, sentença inválida, moral sem aplicação. Direitos? Deveres? Liberdades? Juramentos? Não há cartilha ou lei fundamental que não possam ser esmagadas quando um Deus maior e mais urgente é revelado nos olhos de quem se ama.) 

O melhor é rir

Não sendo trágico, seria, de facto, cómico, e agradeço ao Bruno Nogueira por ter-me lembrado que o melhor é mesmo rir. 
Ao pé dos livros que eu li às escondidas quando tinha doze anos, Valter Hugo Mãe é uma candura.

20.1.17

A cigana e o gatuno

Susana contou do primeiro slow da adolescência e do arranjinho que a deixou nos braços de um grande constrangimento e teve o dom de me fazer vasculhar memórias. O meu primeiro slow foi por ocasião do Carnaval, em casa de uma família abastada cuja filha mais nova era minha colega de turma. Eu tinha uns doze anos, muito aquém dos doze anos das outras meninas. Era miudinha, lisa, tímida, pensativa e melancólica. Porque a época a isso se prestava, estávamos todos fantasiados. Havia, entre os exemplares do género masculino, a habitual abundância de heróis e figuras de respeito: homens-aranha, mosqueteiros, cowboys, polícias, padres, médicos. As meninas contentavam-se em ser japonesas de passo travado e boca fechada, bailarinas de coxinhas ao léu, fadas ou princesas com uma ridícula sobrecarga de maquilhagem. Aos primeiros acordes formavam-se os pares com uma rapidez que me entontecia, dando-me a impressão de estar tudo previamente combinado, e não me restava senão encostar-me a um canto e fazer de conta que nada daquilo me interessava. Igual a mim, mas na outra ponta da sala, havia um rapaz todo vestido de licra preta, encapuzado e enluvado. Foi esse o único que se me dirigiu e, sem grande jeito, estendeu-me a mão, abraçou-me e balançou-me ao ritmo de qualquer música que não recordo. Terminado o primeiro slow, insistiu para o segundo, depois para o terceiro e por aí adiante. Na altura, eu ainda não sabia dizer não. E fiquei o resto da tarde refém de um gatuno, o único que sobrara para mim e para quem eu sobrara, sem lhe ver o rosto e sem perceber mais do que duas mãos de licra, inseguras, no fundo das minhas costas. 
Pode dizer a moral desta história que cada um tem o que merece? Ora, a japonesa foi envolvida na teia do homem-aranha, a bailarina foi detalhadamente auscultada pelo médico, o padre caiu nas boas graças da fada e as princesas deixaram o polícia vulnerável e desautorizado. Eu, vestida de cigana holandesa – e nunca soube muito bem o que era uma cigana holandesa –, pelos vistos mereci o larápio, o invasor de propriedade privada, o amigo do alheio, o rato, o delinquente, o maior pesadelo noturno da minha avó. E ele nem arte teve para me roubar um pedaço de coração. A vergonha foi tal que jurei não voltar a prestar-me às sobras e a ser invisível aos olhos dos heróis. Mas a parte seguinte da história não entra aqui.  

13.1.17

Mãe

Que frágil fica o adolescente na hora do sono. Tão cansado de planear futuros épicos e improváveis, tão desgastado de insistir na marcha em contramão! E o excesso de certezas a forçar indevidamente a delicada musculatura da alma! Eu mudo o pneu. Eu levo-te ao colo. Eu domino o animal. Eu vou ao telhado. Porém, caindo a noite, ei-lo, aninhado nessa sofrível imitação do ventre materno que é o aconchego da cama. Aí baixa os braços. O peito contrai para se proteger do assombro noturno e o sexo envergonha-se de estar vivo. De olhos muito abertos, perscrutando as sombras do quarto, pede-me que repita uma vez mais o que todas as noites, desde o nascimento, lhe digo para manter fantasmas e pesadelos arredados do seu sono. 
Eu, ao deitar-me, imagino que a mão da minha mãe vem de lá do seu eterno descanso para me pousar na testa, tal como quando eu chorava de desgosto ou alguma doença me atirava à cama. Ao contrário de mim, ela não acalentava os filhos com promessas. Um gesto seu bastava para reconstruir o universo.

12.1.17

Galhofa

- Este pão é de quê? 
Pergunto ao rapaz da padaria, cuja delicadeza de modos e feições me lembra os príncipes incorruptos dos contos de fadas. 
Esbelta!
Responde ele, seguro em todas as consoantes.
- Oh, muito obrigada! Só por isso, levo todos os que tem no cesto.
Ao fim da tarde, o rapaz da padaria costuma dar-se muito à brincadeira. Com a colega, que tem idade para ser sua mãe, ri-se baixinho, faz trocadilhos, sussurra malícias. Certa vez, uma cliente disse que depois do pão ainda tinha de ir aos tomates, eles entreolharam-se e escangalharam-se até às lágrimas. A colega, sufocada de riso e muito vermelha, foi agachar-se atrás do balcão do fundo. Depois de a cliente sair, o rapaz pediu-me desculpa pelo tempo que demorou a recompor-se. Arranjaram uma forma de fintar o cansaço, a dureza dos dias, o calor dos fornos, o gesto repetido, sem novidade ou espanto, de encher sacos de pão: galhofando como dois adolescentes que julgam ver o que aos olhos de mais ninguém se revela.
Desta vez, porém, não é trocadilho mas ignorância. Eu entendo como me é conveniente e trago todos os pães de espelta que sobram da última fornada do dia, em jeito de agradecimento. Saio a tentar engolir o riso e, mal arranjo quem me ouça, partilho o episódio e dou azo à minha própria galhofa.

11.1.17

Lista de resoluções

A rapariga da papelaria mostrou-me a sua lista de resoluções para o novo ano com tal entusiasmo que eu julguei que dali vinha a transformação do mundo. Estava no verso de um recibo, pontuada com alertas de prioridade, corações, smileys e outros rabiscos livres. Está provado que anotar tudo ajuda. 
Ah, que desejos profundos seriam os meus se tivesse de os anotar para me lembrar que os sinto? Que verdade teriam as causas que houvesse risco de eu esquecer no espaço de seis horas? Com que segurança eu daria um passo se a vontade que o empurra precisasse de cábula? Anotar, anoto miudezas, compras, contas, obrigações sociais. O resto persegue-me com tamanha veemência e intervalos tão curtos que nem que eu quisesse podia esquecer, fugir ao chamamento ou à culpa de não realizar.
A rapariga da papelaria está encandeada pelas urgências e pelas palavras fáceis que lhe gritam os meios ao alcance. Não há uma, entre as revistas dispostas no balcão, que se iniba de anunciar fórmulas para merecer o prémio da felicidade, todas elas em passos tão simples e rápidos que só um burro cego e surdo não termina 2017 sentado num trono. Ela alinha, convencida de que cede ao mais íntimo e genuíno impulso. Multiplicou a lista por todos os suportes possíveis: o bolso, o telemóvel, o computador, a porta do frigorífico e até um recorte de cartolina que, diz-me, emoldurou para pôr na mesinha de cabeceira. Assim, de manhã até à noite sei no que tenho de me focar e está provado que ajuda. 
Há de saber um dia a rapariga da papelaria que só quando abrir um intervalo, uma distância segura face ao mundo, terá espaço para a germinação da sua verdadeira identidade, do seu propósito e da sua paixão. Nesse dia, dispensará as listas pois o fluxo do próprio sangue lhe apontará o rumo. Mas é claro que isto não está provado.

9.1.17

Um único amor

A um único amor eu tenho sido fiel de forma constante por toda a minha vida: o amor aos livros. Em tantos outros hesitei, enganei ou falhei, fiz promessas falsas, virei costas sem aviso, sucumbi à raiva ou à descrença, mas no amor aos livros tenho vivido como uma mulher devotada, que não perde a fé nem esmorece no prazer e na entrega. É o único que não hipoteca a minha liberdade, em que a rotina não pesa como uma condenação e que não me faz perguntas além das que servem a minha própria curiosidade.
Ignoro quantos livros li desde que tenho entendimento para decifrar códigos e mundos, quantos li no ano que findou, quantos terei lido no desfecho do próximo. Os amores profundos não se rebaixam em contabilizações, tampouco se desperdiçam a pensar objetivos. Desvalorizam compromissos e anúncios públicos. Sei, porém, que os livros roubaram muitas horas ao meu sono e ao tempo de estudo. Mais tarde, tiveram responsabilidade no menosprezo pelas tarefas domésticas. Os meus filhos, conformados com a primazia desse amor, aprenderam cedo a respeitá-lo e a inibir-se de o perturbar. Aconteceu, amiúde, adormecerem com a cabeça encaixada entre o meu peito e o livro, depois de murmurarem o título, o nome do autor, uma ou outra linha que lhes chamava a atenção e ensarilhava as mentes permeáveis. 
Ninguém me ordenou este amor. Mas, desde que me conheço, ele cobre as paredes, repousa nas mesas, ilumina as cabeceiras das camas e chama com letras gordas e nomes de muitas origens, anunciando novos mundos e revelações. Vi o bem que ele ia fazendo nos outros e senti o modo como deixava a casa com a quietude e a frescura de uma catedral. Era um amor que salvava nas noites de insónia, nas doenças que obrigavam ao repouso absoluto, nos dias de chuva persistente. Mais forte e tentador do que qualquer outro chamamento, ele sempre trouxe o espanto, o deleite e a alegria em que os amores verdadeiros nunca falham. Uma vez, numa festa, meti-me a ler o livro que eu própria levara para oferecer ao aniversariante. E, para minha felicidade e alívio, sumiram-se, como no fundo de um poço que despejasse tudo nos antípodas, as vozes dos convivas que debatiam as façanhas dos filhos, as agruras do quotidiano laboral e as manchetes dos jornais. 

4.1.17

Loucura

A loucura não é uma doença, mas uma imperfeição original do ser. Tal como o cancro, que a cada segundo dispara naturalmente em cada organismo e que abortamos sem que a vontade conte e a consciência saiba - até um dia -, também a loucura lateja nos subterrâneos da alma e emerge quando há condições a seu favor. Depois, da mesma forma que ao cancro se usa chamar cabrão e outros insultos próprios para quem vem de fora e vem por mal, à loucura atribuem-se designações várias, complexas, por vezes insuspeitas, e tratamentos com nomes difíceis. Num ou noutro caso, talvez andemos ao engano, amaldiçoando e nomeando o que, afinal, é da nossa natureza e tem o nosso apelido.

3.1.17

*

Com tanta fé posta na passagem do ano, quanta fé sobra para a passagem dos dias?

30.12.16

Escrever

Escrevo para suspender o mundo quando a marcha é veloz e hipnótica. Não presumo ver o que outros não tenham visto nem sequer pensar sobre o que a outros tenha escapado. O universo é de todos e tão escancarada a sua maravilha e evidente o seu absurdo que só quem dorme não se deslumbra, não se ajoelha, não se comove, não se inquieta, não teme. Mas Deus não faz a ninguém o favor de parar tudo e permitir uma vagarosa e detalhada contemplação. Se nos desse tempo para entender, estaria Ele condenado. Então eu escrevo para O desautorizar. E faço-o com o gozo próprio de um vulgar capricho, com a ligeireza de um gesto avulso que, por não ter consequência, jamais terá de prestar contas. Depois, lavo as minhas mãos, retomo o andamento e é como se nada tivesse acontecido.

29.12.16

Rabanadas e panquecas

É com uma satisfação comovida que o senhor Pereira me diz que este ano as filhas vieram consoar e com elas trouxeram maridos e filhos. Já não me lembrava da última vez que tivemos de abrir a mesa toda. Usa as palmas das mãos para esfregar os cantos dos olhos, onde a saudade, a mágoa, a ternura, quem sabe o arrependimento, passam ao estado líquido. Vendo-o assim, fico sem palavra. Não estou habituada a que se exponha frágil, com aquele lábio trémulo e a velhice tão bem aceite e evidente nas linhas do rosto, na curva das costas, nas veias do pescoço. Este senhor Pereira é-me desconhecido. Mesmo sabendo eu que todo o Homem tem o seu avesso e que isso não deve causar estranheza a não ser a quem dá os primeiros passos na observação atenta da espécie.
Também a mim começam a humedecer os olhos, porque penso na minha sobrinha que veio de tão longe, do outro lado do mundo, só para o Natal. E parece que também se curvam as minhas costas. As filhas do senhor Pereira só vieram da freguesia ao lado, mas, enfim, há muitas formas de se medir distâncias e raramente os quilómetros servem com rigor esse propósito.
- E o seu filho? Espero que também esteja bem. - mudo de assunto porque não sei o que fazer à comoção instalada.
Ele funga e leva os olhos, bem abertos, a dar uma volta pelo horizonte. O vento seca-os e ele recompõe-se.
- Esse é que não veio este ano. Foi passar o fim de semana à terra da namorada, que por acaso fica lá para as suas bandas.
A namorada é novidade, mas não percamos tempo com o que pouco importa na história e pode até ser efémero. Ouçamos o senhor Pereira, que ainda tem muito que contar:
- Ela é de... Pena... Pana... Penelongo... ou coisa do género.
Solto o riso sem pudor, porque o senhor Pereira é das poucas pessoas que lidam bem com o meu atrevimento. Ri-se comigo.
- Não é? Diga lá, então...
- Sei lá, será Penedono?
- Olhe... é! Não é lá para os seus lados?
- Nem por isso. Penedono é distrito de Viseu.
- Vai dar no mesmo.
Ofendo-me. Empertigo-me. Transfiguro-me. 
- Não, não vai! Uma coisa é acima do rio. Outra, bem diferente, é abaixo.
Mas o senhor Pereira ignora-me, desinteressado que está em debater as geografias deste país que ele menospreza, renega e humilha em conversa de café ou sozinho, diante da televisão. A sua vontade é, afinal, falar das filhas. E agora que se endireitou novamente, recuperando a autoridade sobre as emoções, está pronto para abordar o assunto ao jeito que lhe conhecemos. 
- Aquelas duas raparigas, valha-me Deus!  Não fazem nadinha! Não sabem fazer umas rabanadas, uma aletria, umas filhós... Dá-me a impressão que nem cozer bacalhau. A mais velha meteu-se agora a estudar outra vez, julga que ainda tem idade para andar na escola...
- Escola? Universidade, presumo.
- Vai dar no mesmo.
Tudo dá no mesmo para o senhor Pereira. É a forma que tem de pedir que desvalorizem a sua ignorância.
- E a mais nova faz voluntariado nos tempos livres. 
- Isso é bom, senhor Pereira.
- Oh! Eu já lhe disse: Ana Isabel, andas a perder tempo a ajudar os outros, mas olha que se precisares ninguém vai perder tempo a ajudar-te a ti.
- Essa sua perspetiva é um bocado triste... 
- É a realidade, menina. Já cá ando há muitos anos. Sabe o que lhe digo, a si e a elas, que são da mesma idade e por isso vai dar no mesmo? Se querem chegar a algum lado, olhem em frente e sigam caminho, não se desviem por ninguém.
- Às vezes é no desvio que está o caminho, senhor Pereira.
Aposto que me vai ignorar outra vez e não me engano. Esfrega as mãos, aquece-as com sopros curtos, bate os pés no chão.
- Olhe, o que eu sei é que já não se fazem mulheres como a minha.
Falando no diabo, abre-se a janela e vem o chamamento esganiçado:
- Miro, filho, anda pra cima que fundiu uma lâmpada da casa de banho!
Antes que eu me despeça e abale, ele levanta uma sobrancelha e, a medo, pergunta:
- Diga-me uma coisa: a menina sabe fazer rabanadas, pois sabe?
- Sei fazer panquecas, mas vai dar no mesmo.

28.12.16

Esforço

Com a desculpa de terem de adormecer os filhos, as mães aninham-se com eles em camas de um corpo só e sucumbem ao cansaço debaixo de estrelas fosforescentes, embaladas pelo próprio canto, certas do único amor que lhes é dado sem reserva ou condição. Uma, duas horas depois, acordam, aflitas pelo descuido a que se deram. Algumas dizem-me que encontram a vida exatamente como antes do sono: a loiça amontoada, as sobras ainda nos pratos, o lixo aberto, os maridos cavando o seu lugar no sofá e lamentando que não passe nada de jeito na televisão. Estás cansada? Eu também. Senta-te aqui comigo. Não sentam, não podem. Vão fazer o que tem de ser feito. Eles ficam. 
No dia seguinte eles preparam um arroz branco e dois bifes e elas falam disso a toda a gente, como quem louva um atrasado mental que venceu mais uma dificuldade e cujo esforço deve ser aplaudido.

20.12.16

Retiro

Creio já o ter dito em anos anteriores: o Natal é o tempo em que sou mais egoísta. Não saio, por nada, de dentro da minha muralha, não abandono a minha mesa. Nem comigo mesma sou solidária, não gasto um segundo a lamber feridas próprias, menosprezo todas as tristezas e dissabores que já vivi, e a minha memória, que costuma ser de invejar, fica curta e fraca. Canto muito. Encho a barriga, sem arrependimento pela abundância. De forma voluntária e plenamente consciente, entrego-me à ilusão de o mundo ser perfeito.
Uma vez, caí na asneira de corromper essa perfeição indo à missa do Galo. O sermão do padre não foi de paz e amor, mas de guerrilha. Durante uma hora serviu-se da palavra do seu Deus para atiçar a indignação e a desconfiança nos nossos corações. Jurei que nunca mais. Eu e a minha família saímos sem beijar os pés do Menino, furando a custo o exército de devotos que caminhava para o altar com as boquinhas estendidas, famintas de perdão. Fomos os únicos. Comungámos à mesa, enquanto a miudagem disputava com fervor o Rossio e a Rua Augusta em volta do tabuleiro de Monopoly, que tem mais de cinquenta anos de uso.

(votos de um Feliz Natal para todos)

19.12.16

Miniaturas

A professora do mais novo compra tudo o que é miniatura. Se é pequenino é bonito, diz ela. Já viu esta torrezinha dos Clérigos, que perfeição, que amor? Sabe que é tolice, não há serventia alguma naquela montra de chinesices que alinha em aparadores, oratórios e cristaleiras e, por tuta-e-meia, engorda a cada semana. Mas ter vícios é de gente normal e ao menos este não mata nem endivida. De resto, ela é uma professora eficiente, a canalha anda com letras e contas na ponta da língua, certinha e bem preparada para o futuro conforme o predizem. 
Com a professora do mais velho, a cantiga era outra. Compreendia, sinceramente, que os olhos das crianças sãs, curiosas, acordadas, mais se importam com o trajeto de uma formiga desalinhada do que com uma soma de frações. Desprezava, sem esconder, as mães para quem a hora da quantificação das virtudes dos filhos era a mais decisiva. É só uma prova, por amor de Deus! Mas já a inocência das criaturas estava irremediavelmente adulterada e, com a purga das ansiedades, encharcava-se o recreio de vómitos e lágrimas. 
Esta mantém a sala bem organizada, ao jeito dos aparadores, oratórios e cristaleiras onde dispõe meticulosamente as miniaturas. Há objetivos. Nenhuma graça ou talento desculpam acentos tortos ou contas mal feitas. Os pequeninos são lindos, mas têm um lugar que deve ser cumprido. Até confio na ternura dela, no cuidado com que trata, no esmero e mais ainda na competência técnica. Mas, em boa verdade, o modo como o mais novo papagueia, sem vacilar, determinante artigo indefinido plural masculino não é coisa que me impressione ou tranquilize particularmente.