25.8.16

Um rio

Disse ele:
- Desculpe lá, não leve a mal, sou assim, sou transmontano.
Rematei eu:
- Desculpe lá também, não leve a mal, sou assim, sou duriense.
Ficou a olhar-me, fixo e mudo. Conto que tenha percebido que a raiz é justificação medíocre, recurso de quem se descobre vazio de argumentos e põe fora a responsabilidade. Nem tudo o que nos define nos desculpa. Transmontano, duriense, algarvio, beirão, minhoto... no crime, no pecado ou no sucesso, a terra de onde brotámos está absolutamente inocente. Só na arte ficam bem as geografias do caráter. 
Nem o ermo fraguedo dele nem os meus socalcos doridos são a causa do que, mal ou bem, fizemos e dissemos. No fim, acabámos por nos entender. Bem vistas as coisas, é o mesmo, e de mítico feitio, o rio que nos liga.

24.8.16

Microscopia

Duvido que algum dia este blogue se livre do relato das miudezas do quotidiano. É o modo como sei olhar. Não que não dê atenção às coisas enormes, às catástrofes, às mudanças, às polémicas, às descobertas. Mas em tudo o que há de grande, eu gosto de ver o pequenino. Está sempre ao meu lado, no meu dia-a-dia, na minha rua, no meu percurso, no meu trabalho, na minha praia, na minha vista, nas histórias que os meus filhos trazem, até no meu lado negro, a causa de todas as coisas serem o que são.
Os que julgam que vivo alheada ou indiferente ao que se passa no mundo e rola nas notícias, saibam que me agrada mais pensar na semente quando vejo que há sururu em torno da copa da árvore. É nula a utilidade disso, eu sei. Mas, como eu disse, é o meu modo de olhar. Não o escolhi, cresci com ele e acabei viciada. 
Quando penso na mulher que durante as festas abandonou o marido – tão feliz e serena eu a julgava! – e vejo que ele tem de ir à churrasqueira para comer e ouço os seus tormentos noturnos e a sua linearidade diurna, por exemplo, eu descodifico uma parte dos acontecimentos do mundo. Quando a mulher do Senhor Pereira chama coitadinhos aos meus filhos eu descodifico outra. Quando a rapariga da papelaria muda a roupa e o cabelo para atrair o verdadeiro amor, outra. E o arrumador, esta manhã, gesticulando, saltando, apontando, gritando "aqui chefe, aqui!", julgando-se imprescindível à hora em que, na realidade, a praça estava tão vazia que até um comboio podia entrar aos piões! 
A humanidade não precisa de grandes teses para ser explicada. Qualquer bairro serve.

23.8.16

Festas da Nossa Senhora daqui

Terminada a procissão, o povo reconciliou-se com a sua natureza original. Desfizeram-se os arranjos de flores, recolheram-se as velinhas. A fanfarra dispersou e os automóveis tiveram autorização para voltar a chiar os travões e pingar óleo no santo caminho, tão devotamente enfeitado por três dias. Devolveram a Nossa Senhora daqui à penumbra fresca do altar, de onde não pode ver como é rija e persistente a matéria das ofensas que lhe fazem. Os anjinhos desembaraçaram-se de asas e auréolas e voltaram à sua terrena inocência, que se exprime no desacato e no prazer, tem olhos ávidos, joelhos sujos e um sexo que há de vir a ser discutido. O presidente da junta pôde finalmente dobrar as costas, livrar-se do fato escuro e de outras solenidades de ocasião e fazer-se uma pessoa comum, cheia de fome, sede, ganas de abanar o capacete. 
Seguiram todos para a banda oeste da freguesia. Invadiram a estrada principal caminhando aos magotes pelo asfalto, com determinação e euforia, como se um destino de merecidas grandezas os chamasse. Esperava-os na praça meia dúzia de barraquinhas de comes e bebes, geridas por mulheres de muito brio a troco de nada, e um cantor suficiente para reproduzir todas essas pimbalhadas que autorizam novos e velhos a escoar a malícia. Ajoelhou, vai ter de rezar. E a insuspeita marinada em que, por cautela, se preservam as emoções quotidianas, levantou fervura, empurrou a tampa, escaldou as ruas. Pela noite dentro, a gente esqueceu como se leva as mãos ao peito com fervor - pelo menos ao próprio. Cumpriu-se a festa tal qual nos outros anos. O fogo de artifício foi pobre, à medida do orçamento, mas ninguém perdeu o dom de se maravilhar e aplaudiram-no com orgulho, como a mãe aplaude o filho só por ele ser seu ainda que não valha muito.
Muitos homens foram para casa bêbados e andaram às voltas antes de acertar na rua, praguejando com fantasmas e duvidando da sanidade do mundo. As garotas ficaram até mais tarde, deram-se à conversa e à vontade dos rapazes, porque em nome da Nossa Senhora daqui foram alargados os horários e as permissões. Por muitas horas ouvi mulheres debaixo da minha janela entretidas na elaboração de suposições acerca da vida alheia e, deste modo, adiando o regresso à cama.
Nessa noite, outras coisas aconteceram aqui nas redondezas, mas foram abafadas pela chinfrineira do arraial. Por exemplo, uma mulher fez a mala e partiu para sempre com a filha, abandonando o marido aos cuidados da churrasqueira da rotunda. É bom homem, mas muito fraco dos nervos, cheio de cismas e terrores. E o amor não sobrevive a tudo.

22.8.16

Compromissos publicitários

A publicidade é uma ofensa explícita. Berrasse menos e talvez desse para disfarçar, mas tão escancarada e presente... como não perceber? Trabalhá-la só me diverte porque me concentro no processo e me abstraio da intenção e da consequência. Postas as coisas cá fora, nas paragens de autocarro, nas revistas, nas autoestradas, nos intervalos das novelas, envergonho-me e renego tudo. O mais novo, às vezes, aponta com o dedo: mãe, olha o que tu fizeste! Mas o que nele é apenas orgulho, pesa-me como uma acusação. 
Para me consolarem, alguns dizem-me que a publicidade é incentivo ao consumo e que o consumo põe a economia a mexer, sugerindo que afinal eu cá também dou o meu valioso contributo para tirarmos os pés da lama de uma vez por todas. E depois, se não fosse a publicidade, como se saberia das novidades, dos pacotes, das promoções? Como fazer as melhores escolhas, como saber o que presta e não presta, do que são feitas as coisas, que causas e valores defendem as marcas, com quais nos identificamos? E não é bom ver que os produtos se vão aperfeiçoando, cuidando para que nada nos falte, perseguindo a nossa felicidade e bem-estar?
E ao ouvir tudo isto que me dizem concluo que afinal não: não é o meu trabalho que sustenta e promove o consumo, é a ingenuidade da multidão. 

19.8.16

Bom dia

Tal como em todas as outras, nesta manhã acordei com alívio. Não sofro de apneia do sono nem, felizmente, de qualquer outro mal que me aproxime do abismo da morte enquanto durmo. A minha vulnerabilidade reside precisamente no oposto: na consciência da vida. É por saber do que sou que sei do risco que corro. Quando a Lili Caneças disse que estar vivo é o contrário de estar morto, toda a gente se riu por ver ali uma lapalissada, ninguém notou que era um pequeno equívoco.

*
À chegada disse bom dia e a senhora da limpeza revirou os olhos: só se for para si. Não estava triste, só queria parecer triste para condizer com o mundo e obter a sua aprovação. E o mesmo ou semelhante me foram respondendo os outros ao longo da manhã, tanto pobres como ricos, amantes e solitários, chefes e subalternos, informados e alheados, doentes e saudáveis. Senti-me um ultraje, uma ofensa a essa infelicidade geral que por arrogância se presume emparelhada com a lucidez. 
À medida que o dia findar, os humores hão de compor-se e uma alegria infantil, urgente, renovará o ar, abrirá sorrisos, amaciará o tom das conversas. Afinal, é sexta-feira e as previsões anunciam o regresso do sol. É sabido que nas pessoas muito lúcidas, a felicidade, além de rara, depende de coisas elevadíssimas como o calendário, o relógio e o tempo que faz.

17.8.16

Uma desilusão

Ando a ler um romance cujos personagens são todos portadores de profundas, rebuscadas e eloquentes teses existenciais. A intelectualidade e a filosofia a martelo. A explicação da vida, da morte, da condição feminina, do amor, da maternidade, do trabalho, tudo sob a forma de sentença. Os diálogos não têm o pulsar espontâneo das verdadeiras conversas. Todos os momentos são iluminados e analíticos. Nada sobra para deduzir, ninguém profere interjeições, ninguém interrompe ninguém, não há dúvidas, reticências ou descontrolo. Em suma, a vida não acontece.
Passa uma gaivota aos guinchos no céu e nem pensar em pôr um homem incomodado a dizer "esta cidade está que não se aguenta de passarada!". Antes: "já reparaste como animal e ser humano vivem infligindo-se tão horríveis torturas, um invadindo o espaço do outro, como se competissem por uma divindade, algo que os transcende e que buscam desesperadamente alcançar? Será o propósito de cada ser, no limite, a extinção do outro?". Há de responder a mulher: "e não crês que aí reside o motor da evolução? Será a destruição, na verdade, o impulso da vida ou mesmo do amor se o considerarmos como uma manifestação de básicos e até predadores instintos?" Passa a empregada e diz "minha senhora, para quem, como eu, nasceu e cresceu no campo e não conheceu vida que não fosse de fome e trabalho, a verdade é outra, talvez mais simples mas não menos importante porque deveras a sinto: as aves resumem aquilo em que nós, humanos, falhamos: a liberdade. Por isso o seu grito ofende. Mas pior, minha senhora, são os excrementos que largam no quintal, eles simbolizam a força de uma espécie que, apesar de desprovida de consciência e razão, tem a mais mortífera e corrosiva de todas as armas. Mas, enfim, que sei eu?, a minha condição é de uma mera criada cuja sabedoria jamais poderá exceder a destreza com que lava os cristais para os banquetes dos senhores". 
A empregada sai. O homem: "Não te parece que há nesta rapariga qualquer coisa de subversão? Porque não a dispensas? São estas as pessoas que precipitam a desgraça social!" A mulher: "Pobre de ti, tão douto porém de tão falível moral! As tuas palavras revelam o quanto temes as mulheres enquanto seres capazes de idealizar e transformar. Recusas o poder do feminino e, com isso, recusas-te a ti mesmo pois não és senão o fruto desse poder! E, de resto, para equilibrar um lar são necessárias forças antagónicas. Sem esta empregada, a nossa família perderia o norte por não ter a materialização dos demónios contra os quais luta e que, no fundo, justificam a sua existência quotidiana."
O outro: "Queres tu dizer que toda a vida é, inevitavelmente, uma luta?" 
Ela: "Talvez, mas és tão óbvio e superficial no modo como o dizes que me sinto desprovida de ânimo para continuar a conversa. Simplificar assim as verdades é ofender a grandeza dos espíritos que as concluíram. Agora vou dormir um pouco. Acredito que o sono é o único estado em que podemos experimentar as vidas a que não fomos destinados. Há quem chame a isso sonhos, eu chamo-lhes existências paralelas e fragmentadas. Felizes os que não recordam o que sonham pois estão livres da angústia de saber que são apenas uma ínfima parte de tudo o que poderiam ter sido."

É inútil ir ao google. Estes diálogos não existem, são uma invenção medíocre e amanhada à pressa para servir de exemplo.  Mas, enfim, não se tire o mérito a este romance que ando a ler. Eu é que não chego para ele.

15.8.16

A felicidade, graças a Deus

A mulher do senhor Pereira nunca fez questão de ser feliz, basta-lhe que os outros a suponham feliz. Pertence àquela vasta e insuspeita categoria de pessoas que asseguram a manutenção do sistema e tornam dispensável a tirania e o policiamento escancarados. Por ser oposta à natureza de todos os seres, a sua moral é desumana e inflaciona o valor da segurança em detrimento do livre arbítrio. É normal estas pessoas tornarem-se arrogantes, provindo o seu complexo de superioridade da certeza de que aos descendentes não deixarão vergonhas, divórcios ou dívidas, mas uma casa e um pezinho de meia que dignifique o nome da família e mantenha o respeito através das gerações.
A felicidade é um desejo leviano, uma inconsequência e uma fonte de frustrações. Por si só, poderá constituir uma meta? Como, sendo tão ambíguo o seu significado? Diga uma pessoa para si mesma o meu sonho é ser feliz e passará os seus dias aos ziguezagues, sempre negando uma coisa para alcançar outra, caindo em abismos por querer livrar-se de grilhões, afundando-se por recusar morrer à sede. Oh, não! Não é assim com a mulher do senhor Pereira! A prudência e o calculismo mataram-lhe os talentos, esfriaram-lhe os afetos, tiraram-lhe o direito de se revoltar contra a traição, mas deram-lhe o que pediu: estabilidade. Pergunte-se-lhe como vão os filhos e ela, compondo com muito jeitinho a cabeleira de negro falso, responderá que as raparigas, licenciadas, casadas e já mães
, graças a Deus. E o rapaz... bom, tendo o seu feitio, tem também os seus direitos. Afinal, qual é o filho bem amado que não torna sistematicamente à casa materna para se consolar com a melhor comidinha e ter a roupa lavada como deve ser? Às vezes vai ela a casa dele fazer uma limpeza geral, que as empregadas hoje em dia só varrem por onde passa a procissão. É com gosto, naturalmente. E o marido? Ora, a prova de que está muito bem casada é que aos sessenta e seis anos ainda não precisou de aprender a mudar uma lâmpada nem de se preocupar com assuntos de bancos, graças a Deus
A mulher do senhor Pereira não sabe que eu sei do dia em que ela premiu a tecla verde do telemóvel dele e escutou aquele cumprimento amoroso, cheio de uma quentura que ela jamais soube dar ou receber. Por isso, quando me encontra aproveita para exercitar mais um pouco a sua arrogância. Amiúde dirige-se aos meus filhos como coitadinhos e, mais pelo sentido do dever do que por honesta preocupação, se algum dia a menina precisar de alguma coisinha... Está convencida de que fomos vítimas de uma enorme e irreparável desgraça. Mas eu penso igual acerca dela, apenas me inibo de lhe aplicar aquilo a que Agostinho da Silva chamava de "suplementos de humilhação", essa falsa generosidade que se inclina à pena por não ter outro motivo além do engrandecimento próprio.
A mulher do senhor Pereira não é rara nem se apresenta com originalidade. Sofre de um mal comum, que contamina silenciosamente e com mais facilidade do que se supõe. E ri com espalhafato, ri de uma ponta à outra da rua, ri entrando nos cafés, nos cabeleireiros, no pronto-a-vestir, ri para que toda a gente saiba que, graças a Deus, não há nódoa que lhe caia no pano.

11.8.16

Madrugada

Ainda o sol por nascer e a vizinha sai a passear de trela o gato siamês, perturbando a minha meditação. Supõe-se que nada perturbe quem verdadeiramente medita e, com efeito, já meditei com salvas de morteiro, tempestades diabólicas, arraiais ao virar da esquina, desatinos entre bêbados e euforia de canalha. Mas a vizinha anda de um lado para outro a arrastar os chinelos e a murmurar tolices ao gato, cuidando que mais ninguém a ouve, porque a esta hora só os sacrificados, os insones e os tolos como eu estão a pé. E a minha consciência, quieta e expandida tal qual um lago no regaço das montanhas, agita-se como se lhe desse o vento – lá se vai o perfeito reflexo do infinito na minha profundidade! 
Chego à janela. A iluminação pública ainda cintila e, num quintal próximo, um homem em pijama trata das galinhas. As rolas vêm em bando colonizar a árvore onde em tempos o mais velho tinha a sua fortaleza e marinava sonhos de lonjura e rebeldia. 
Quando o gato siamês aninha o rabo, compenetrado na libertação do que não mais lhe pertence, a vizinha põe-se a rezar bichano lindo que é da dona, bichano lindo que é da dona, bichano lindo que é da dona. E eis a singeleza do quotidiano a ressoar em contra mão, de fora para dentro de mim, galgando sem ponta de esforço a muralha que me salva de morteiros, tempestades, arraiais, desatinos e euforias. 
Por hoje, desisto. 

10.8.16

Paralelo 15 N

O senhor Pereira, pois claro! Vem sempre a propósito e, repescando-me algumas fúrias, atiçando as minhas inflamações crónicas, salva-me de cometer excessos de tolerância. Porém, coitado, tão cheio de gentilezas e maneiras de pai, nunca me fez mal algum a não ser o de desenrolar, em cada encontro, o mapa psíquico deste país.
Está agora bem longe, o senhor Pereira. A imaginação mostra-mo de bandulho cheio, torrando na beira de uma piscina, rindo sozinho de um prazer superior, vitorioso e genuinamente feliz. Sorte a dele, que é de poucos. Ainda há dias me confidenciava a menina da EDP que duas semanas de férias são nada: durante a primeira persegue-a o trabalho deixado para trás, na segunda já lhe dói o trabalho por vir. Tormentos destes não aparenta o senhor Pereira. Mantém o jeito risonho e aquele modo de ajuizar com leviandade e distância, como quem nunca perdeu, sofreu, falhou ou penou. Está tudo bem, senhor Pereira? Uma maravilha, menina! E a gente a saber as filhas desavindas, o filho parasitando ao seu redor, a mulher já viciada na resignação e a tentar virar o jogo a seu favor adotando os tiques daqueles que nem perante Deus dão o braço a torcer.
Terá desembarcado e entrado diretamente no autocarro que o levou ao resort. No percurso, às misérias avistadas da janela terá reagido com as mesmas exclamações que solta ao ver os noticiários no aconchego do sofá. Este mundo está perdido! Porém, o mundo está sempre demasiado longe e até quando o senhor Pereira chega perto dele, são quilómetros feitos e nada mais, cada nova realidade se mantém em rota própria, caminho paralelo, estrada que se põe para trás à medida que o autocarro anda para a frente. E? Acaso um homem tem de carregar as dores dos outros sete biliões? O que importa é que todo este mundo perdido ainda tem muito sol, marisco, cerveja, águas turquesa, exotismos, cisnes esculpidos com turcos de banho, sabonetinhos mimosos nas casas de banho, orquestras e bailes pela noite dentro, muitos criados e bandejas. 
Então, o senhor Pereira ao comprido na beira da piscina, provando bebidas de muitas cores, com o olho atrás das nádegas das estrangeiras, fotografando até os ladrilhos do chão para mostrar no regresso. E a mulher a seu lado, em fato de banho, exibindo a inevitável distorção do corpo feminino, que é culpado de nascença e duramente castigado com o tempo. O ventre gordo, os seios mortos, as mãos nodosas, os ossos ocos. A cabeleira negra, avolumada à custa de muito trabalho, é o abajur de um candeeiro sem ponto de luz. 
Mas logo, à hora do jantar, é a ela que ele pedirá ajuda para escolher a roupa e saber o nome do que lhe servem no prato. Dançarão juntos noite dentro, harmonizados na técnica, com o passo muito acertadinho. Nenhum deles tem intenção de calcar o outro. E quem olhar concordará que dão um grande espetáculo.

8.8.16

Silêncio

Noite dormida. Prato cheio. Cama feita. Luz solar. Contas arrumadas. Memória desempoeirada. Desejos encaminhados. Férias plenas. Trabalho fácil. Espaço livre. Inimigos derrotados. Costas endireitadas. Coração leve e limpo. Respiração profunda. Ninguém me atormenta. Ninguém me está a faltar. Ninguém me deve. 
Por mim, virava-se agora a página do calendário. Está feito o ano. Sete meses vencidos e já apetece celebrar, estoirar a rolha do espumante, regar os tetos, e, uma vez mais, evitar o erro de fazer planos e promessas. Para manter a liberdade de virar no sentido oposto ao da curva provável ou caminhar em direção a um horizonte só em cima da hora vislumbrado. Avançar é o que conta. Tolo é o que se mantém deitado e dormente para poder dizer que sonha muito.
Assim postas as coisas –  sem transtorno, carência, mágoa, raiva, dor, saudade ou preocupação – que motivo há de uma pessoa desenterrar para escrever?

29.7.16

Prematuro equinócio

A cabeleireira espanta-se de me ver entrar tão antes do equinócio. Mãos na cintura, testa franzida, é com desconfiança que me pergunta se já venho para a poda. Não, não há podas, desta vez  a coisa é a valer. Solto o cabelo, explico o que quero, ela entusiasma-se, mas depois:
- E não se vai arrepender?
Arrependo-me de uma única coisa na minha vida, já tem mais de vinte e cinco anos e ainda hoje me persegue. Um corte de cabelo não está ao nível. É o que penso para me tranquilizar. A ela, garanto que está decidido, entrego-lhe o champô e acomodo-me.
- Arrependido deve estar a esta hora o Professor...
Fala a senhora a quem a manicura desbasta as garras.
- Qual professor? - a cabeleireira penteia-me o cabelo com a ternura de uma despedida, antes de lhe meter água.
- O Professor!
- O marido da doutora Laura?
- Marido que, a bem dizer, por um triz deixava de ser.
A manicura suspende o trabalho e inclina-se para ouvir melhor. A cabeleireira começa a lavar-me mansamente. Eu fecho os olhos e suspiro, certa de que vem aí novela.
- Ele tinha outra...
- A sério? Que estranho! Isso não é de homem! - ironiza a manicura, retomando o trabalho com energia dobrada.
A cabeleireira, apaziguadora, busca uma verdade que dê mais conforto:
- Isso deve ser má língua.
- Foi a doutora Laura que descobriu. Meteu-se a mexer no telemóvel dele e estava lá tudo, uma pouca vergonha, tratavam-se por amorzinho e tudo...
- E ela, que é inteligente, pôs-lo fora de casa, não? - a manicura insiste na ironia.
Não, a coisa passou-se de modo diferente. São outras as palavras que a senhora usa, mas esta a história que contam: a doutora Laura confrontou o Professor, primeiro ele encolheu-se de vergonha, depois foi tomado por umas ganas e disse que se tinha apaixonado, e perdidamente, como nunca antes lhe acontecera, que lhe pulsava no corpo um sangue novo, desconhecido, e no espírito sentia a garra e a alegria dos que se creem eternos. Um homem para lá dos cinquenta, um Professor, um pai de filhos, falando como um garoto sem norte.
- E a doutora Laura? - a cabeleireira ampara-me a cabeça, limpa-me e conduz-me até ao espelho.
Coitada, desfez-se num pranto ao vê-lo tão seguro e decidido, começou a gritar assim que percebeu que, sem querer, precipitara a desgraça. Tivesse ficado quieta e calada e talvez o preservasse até à morte. Na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, ele disse que o mais honesto era cada um seguir a sua vida. Ela atirou-se ao chão, agarrou-se-lhe ao tornozelo, implorou, pediu desculpa por qualquer falha ou defeito, lembrou-lhe a dor que causaria aos filhos e tudo o mais que lhe ocorreu no cume do delírio: recordações, promessas, dinheiros, favores...
- Eu julgava que a doutora Laura era uma mulher com dignidade... - a manicura, desolada.
- E é! Quem não tem dignidade é o Professor! - acusa a senhora.
A cabeleireira põe a tesoura a trabalhar. Os meus longos cabelos vão desfalecendo no mosaico. Folheio uma revista para não me enfrentar no espelho. E depois? Uma miséria. O Professor a tentar sair de casa e ela agarrada ao tornozelo dele, chorando como uma perdida, varrendo o chão com o próprio corpo, implorando-lhe que não a deixasse, perdoar-lhe-ia a infidelidade e nunca mais se falava no assunto.
- Pois, e foi a correr contar-le a si e a mais quantos? - alvitrou a manicura. É a pessoa mais lúcida daquele salão. Jovem, desbocada, trôpega na gramática, nem sempre casa o verbo com o sujeito, fraca nos pronomes, mas pouco lhe escapa.
- Precisou de desabafar, coitada. Andava que fazia pena. Felizmente, tudo se resolveu.
- Separaram-se? - pergunta a cabeleireira, apreciando-me de todos os ângulos. Fecho a revista, olho o espelho, estranho o novo corte mas não a resposta da senhora:
- Nãããããão... ele ficou!
- E a outra?
- Deixou-a!
- Eu cá não confiava! - a manicura, entredentes.
- Ah, mas foi mesmo à frente da doutora Laura, que ela obrigou-o. Ele pegou no telefone, ligou-lhe e disse que acabava ali, que a família era tudo e o casamento era para toda a vida.
- Ai, não me faça rir... - o gozo da manicura está na fronteira da indignação.
Desconfortável na cadeira, enojada, submeto-me aos últimos retoques quando entra a dona Maria Isabel. Abençoada mulher, desta vez veio e conto com ela para desmontar o circo e refrear a multidão, como é seu hábito. Mas a dona Maria Isabel atravessa o salão como se fosse mouca, ignora os comentários e as interjeições em torno da doutora Laura e do Professor e vem cumprimentar de beijinho a cabeleireira. Depois olha-me profundamente através do espelho, pousa a mão sobre o meu ombro nu. E com dois dedos maduros, sólidos, coroados de pedras muito antigas, levanta-me o queixo e vira-me ligeiramente a cabeça, como se me preparasse para o retrato da minha vida.

28.7.16

Recordações menores

Não sei se é da pasmaceira, de ignorar a quantas anda o relógio, do borbulhar das águas que embala o espírito, mas tenho sido visitada por recordações menores, episódios distantes e de tão pouca importância que me aborreço de saber o meu cérebro ocupado com trivialidades, quando não faltam por aí grandes e nobres causas para alimentar o pensamento. Deito-me à sombra, dorida dos pequenos prazeres - doem-me as pernas de tanto pedalar, a barriga de muito comer e a cabeça de não lhe dar uso - e mal fecho os olhos, elas começam a chegar numa lentidão traiçoeira, uma puxando outra como se viessem unidas por lógicas que não distingo.
Lembro-me, por exemplo, do dia em que cuspi uma batata cozida quando comia ao balcão da dona Arminda, foi há vinte anos, um excesso de tempo para tão irrelevante memória. Expliquei-lhe que a batata sabia mal, a veneno, uma coisa terrível, engolir nem pensar. A dona Arminda empertigou-se, como se a batata lhe tivesse saído do ventre e custado uma vida de sangue e suor. Aqui é tudo muito limpinho, que é que julga? Não duvido, é só mesmo para alertar, outras podem estar iguais... Virou-me costas, a dona Arminda, praguejando entredentes, os outros é que lhe deviam e ninguém lhe pagava. Depois desta, outras recordações semelhantes vêm e dou comigo a espantá-las com gestos à volta da cabeça, num desespero miudinho de querer fugir ao que não importa nem fez diferença.

O senhor Pereira vai fazer milhares de quilómetros para se enfiar num resort de águas mornas e passarada exótica, com tudo incluído. Mais uma vez, realiza o sonho. Trabalhou muito para isto, diz a cada passo. Foram décadas e décadas a fazer horas extraordinárias, quantas vezes sem ver os filhos acordados, sacrificando até os fins de semana. Não que tivesse um cargo de responsabilidade, pelo contrário, era um funcionário comum num departamento com dezenas iguais. O que o senhor Pereira fez foi agarrar todas as oportunidades, oferecendo-se para lá da hora, disponibilizando-se em todas as situações, servindo sem bufar, sujeitando-se a tudo o que lhe acrescentasse uns contos à remuneração. Calculo que tenha sido nesse tempo que aprendeu a vergar-se e a cumprimentar, no modo baboso que lhe conheço, como está a senhora doutora? Agora, diz-me com propriedade que neste país não dá para passar férias. Uma pessoa come mal, paga muito, a água é fria, o povo não tem maneiras e somos mal tratados por qualquer funcionariozeco. Lá fora é outra coisa. São pormenores, menina, são pormenores. O modo como nos falam, a vénia que nos fazem, arranjam-se de outra maneira, bebe-se outras coisas. Não lhe digo, só penso, que ele é tolo de achar que, enfiando-se num resort, está lá fora. Mas sorrio, condescendente. Também o senhor Pereira está a tentar enxotar as suas recordações por, certamente, as cuidar menores.

25.7.16

Biquíni

Nove horas da manhã, a luz ainda ao comprido, e o casalinho namora sentado na beira da piscina. Namora é modo de dizer, que mal se tocam, ele é que se inclina a pretexto de sussurros e enrosca o nariz nos caracóis dela, que ri de favor, sem se virar. Vai insistindo ele no seu jogo de sedução e, como é rapaz novo, presumo que esteja na posse de competências que bastem para dobrar uma mulher à roda dos vinte, mas a indiferença dela tem causa superior: é o biquíni que não está bem. Vai com uma mão ao soutien, penteia com os dedos as franjinhas que oscilam sobre a lisura do ventre. Ai, que chatice, desabafa alto para ninguém. Ele inclina-se de novo, olha de viés para o peito dela, que é rijo e generoso, diz-lhe mais qualquer coisa. Ela ajeita agora as alças. Não contente, desfaz o laço na nuca, volta a fazê-lo.
- Estás bem... - diz-lhe ele em tom apaziguador.
Não, talvez não. As franjinhas estão outra vez desalinhadas e a simetria parece não estar garantida, porque ela puxa para a direita, depois ajusta para a esquerda, por fim enfia as mãos por dentro e acomoda melhor os seios. Ele continua a falar-lhe baixinho, roça um ombro, pelo sorriso se vê que o palavreado é quente. Ela, se o ouve é mal e com interesse nenhum. Pelo menos mais três vezes penteia as franjinhas, ajeita as alças, puxa para um lado e repuxa para o outro, impacienta-se, bufa. Nada do que ele diga o faz merecer, sequer, um breve olhar, um sorriso de cumplicidade.
É dos livros que o mais comum é o inverso: são elas que falam, contam e divagam, enquanto eles se ausentam, libertando a mente em campos relvados, automóveis potentes, rabos de outras saias ou mesmo superiores preocupações com assuntos de finanças e gestão. Mas aquilo a que muitas mulheres já se habituaram, talvez poucos homens se submetam. Este, pelo menos, farta-se agora de falar e não ser escutado.
- Deixa-te mas é de merdas! Achas que com umas mamas dessas alguém repara no biquíni?
Levanta-se, ergue os braços e cai na água sem fazer ondas, como um sabre afiado. Só volta a vir à tona quando está bem longe, na outra ponta do tanque, e de lá lhe despacha um aceno antes de tornar a mergulhar.

18.7.16

Pudor

Durante muitos anos tive pudor em dizer às outras mulheres que podia comer do que quisesse sem engordar. Aos comentários acerca da minha magreza, eu respondia humilde, quase culpada, que era só herança genética. Não obstante esses meus cuidados, elas descuravam os seus. Muitas delas, munidas daquele extraordinário saber clínico que os maldizentes, os pessimistas e os hipocondríacos costumam debitar, diagnosticaram-me coisas terríveis: cancro, hipertiroidismo, bicha solitária, anorexia nervosa, bulimia ou mera ruindade de feitio. Falharam em tudo. Além dos diagnósticos, também prenunciaram uma série de desgraças, por estranha coincidência todas relacionadas com a minha condição de fêmea. E enumeravam-nas com altivez, como quem avisa e, por isso, meu amigo é. Infertilidade. Ou, caso assim não fosse, pelo menos impossibilidade de parir como a natureza manda. Ou, caso assim não fosse, partos demorados, sofridos e com marcas feias. Falharam em tudo. Por fim, reservaram-se a satisfação de prever a minha menopausa, lembrado-me a toda a hora que a gordura, mas mulheres, não é escolha mas destino. Falharão também. E entretinham-se olhando-me de viés, perguntando por onde me agarrava o meu homem, se eu levantava com as rajadas de vento e outras crueldades socialmente legitimadas pelo simples facto de andarem na boca das maiorias. Enquanto isso, faziam aulas de ginástica com umas bermudas de plástico que se dizia que queimavam gorduras e passavam semanas a fazer dietas à base de rissóis e folhas de alface. Não eram gordas, eram só desorientadas.
Quando, enfim, reconheci que ao meu receio de as ofender elas sempre responderiam com o que de pior reside no íntimo da condição feminina, passei a dar o troco em moeda igual e sem paninhos quentes. E passei a desfilar de cabeça alta, orgulhosa, não da minha magreza, que não é virtude nem defeito, mas daquilo em que sobre elas levo realmente vantagem: a imunidade à inveja, único pecado que nunca cometi.

E tendo escrito este texto como se me referisse sempre às mesmas mulheres, devo esclarecer que isso não é facto. Eram umas há trinta anos, outras há vinte, outras há dez, como são outras hoje. Mas é curioso que parecessem uma só, uma mulher universal, potentíssima, perversa, reencarnando e reincidindo do mesmo modo, desbocada pelas mesmas fraquezas e temores, triste de nunca ser cúmplice do corpo que Deus lhe deu para sua casa, seu abrigo e seu cuidado.
Ora, posto isto, os leitores imaginarão que sou um esqueleto ambulante, de clavículas e costelas à vista, rosto e abdómen cavados, joelhos e cotovelos como armas brancas. Podeis ficar com essa ideia, mas lembrai-vos também que toda a frustração distorce o olhar com vista ao consolo de quem dela sofre.

15.7.16

Respirar

O mais velho atribui-me a virtude de analisar profundamente antes de agir. Fazendo fé nas suas palavras, esse é o meu grande trunfo, o que me faz ganhar jogos, discussões e amigos. Acomodo-me no colo dele, seguro-me na musculatura das suas coxas, e confesso-lhe que não é exatamente assim, já tanto fiz por impulso, paixão, fúria, desatino e até capricho! Travo a língua a tempo e poupo-o ao que ele não tem ainda idade para entender: se tivesse profundamente analisado antes de agir, não teria tido filhos.  Mas – tola – julguei que o melhor que podia fazer pelo mundo era educar um ser humano para o bem. 
Ontem à noite, enquanto eu lhe ensinava o modo certo de respirar para aquietar as pernas e adormecer em paz, o mundo voltava a dizer que não, que é inútil, que o nosso destino é vivermos sufocados, sem pingo de sangue, sem sonho possível.

(Estás feliz, meu amor? A única coisa que eu quero é que tu sejas feliz! - sussurrava ternamente esta manhã uma mulher, falando ao telemóvel.)

12.7.16

Um homem

Um homem vindo dos arredores da capital bateu-me. Bom, não em mim, mas no meu carro. Muita gente passou e não parou a não ser para apreciar o dano material, que o dano causado aos nervos importa pouco. Até os conhecidos, depois de satisfeita a curiosidade, logo seguiram acenando até amanhãEra dia de jogo da seleção, havia muita pressa e ansiedade nas ruas. 
Quase uma semana depois, recebo, desse homem que me bateu e prontamente pagou, a mais inesperada e improvável de todas as mensagens. Chegou-me às primeiras horas da manhã, valeu para o resto do dia, valerá por toda a semana e por muitos anos.
Não sei se é mais triste ou mais reconfortante isto de encontrar em estranhos o que dos que estão perto muitas vezes não se recebe. O mundo raramente é o que julgamos. O melhor é não julgar coisa alguma, manter a confiança mas nunca a desbaratar.

11.7.16

O meu país *

Quando olho para o meu país vejo uma criança a brincar descalça, com cabelos principescos, de ouro fino e delicado, mas umas unhas sujas de esgravatar a terra. Irresponsável, como se nunca mais chegasse, como se nunca mais tivesse de chegar o tempo de se preocupar com coisa alguma. Não quer saber de filhos, nem de netos, nem da vida que lhes há de dar, tem tempo para pensar nisso, um dia, quando crescer. Logo se verá. Só conta a hora que passa. Anda a correr, de papagaio de papel na mão, à espera que o vento sopre de feição. Se o papagaio cai murcho no chão, não faz mal, toca a correr para o outro lado a ver se levanta outra vez. O meu país acredita que a sorte vira. A sorte.
Quando olho para o meu país vejo-o assim infantil, descomprometido, desresponsabilizado e, no entanto, cheio de sonhos e horizontes. Mil anos de história e uma maturidade que não há forma de chegar. O meu país não cresce, não perde este hábito de pôr a língua de fora e desatar correr como se não fosse nada com ele para depois, logo a seguir, aparecer a desfazer-se em lágrimas e beicinhos. Tenho até medo que, por um qualquer fenómeno sobrenatural, o meu país salte diretamente desta infância mental para a menopausa e fique seco, estéril, flácido. E tão exausto que prefira morrer. Como em todas as crianças, vejo no meu país uma alegria espontânea e genuína, contudo uma insistente tendência para cruzar os braços e fazer birra. Como em todas as crianças, vejo no meu país uma lucidez, uma sabedoria, um conhecimento original que me encanta, contudo uma permanente tentação por transgredir, desrespeitar, fazer de conta que não sabia de nada. E como todas as crianças, o meu país tem um sorriso que, no final, me enternece e me faz cair de joelhos: é o seu gosto húmido a sal, o cheiro da maresia, o namoro fiel entre o verde e o azul, a língua exata, exigente e expressiva e uma verdade confortável onde posso encostar-me e sossegar de vez em quando. Então, desculpo-o por tudo e percebo porque é que somos sangue do mesmo sangue.

* post de 2010

8.7.16

Movimento "Queremos ouvir os bloggers a declamar poesia"

Entendi que estava na altura de embarcar também nos desafios blogosféricos do venerável Dom Pipoco e da surpreendente Tia Palmier. Porém...


7.7.16

Paz

Tendo para a crença de que tudo se organiza naturalmente de forma a que as coisas e as pessoas cheguem, cumpram e vão, no tempo certo. Inútil é meter as mãos e forçar a entrada ou a saída seja do que for, seja de quem for, nas nossas vidas. Desejar é legítimo, rejeitar idem, mas na prática um e outro são puro desgaste enquanto as condições se opõem às nossas vontades. 
Não insistir, portanto, para que alguém saia das nossas vidas. A paciência é virtude sábia, terreno fértil. Antes esperar que um deslize as faça escorregar para o lugar do nosso esquecimento. E perdoar, não para que sigam elas em paz mas para que nos seja possível, a nós, evoluir num caminho benigno e tranquilo. 
Constato esta verdade com alívio, recordando como quase todas as batalhas em que entrei me deram vitórias breves e de todas as vezes em que aguardei obtive paz duradoura.

29.6.16

Atentados

Talvez a maioria de nós nunca tenha sido feliz em Bruxelas ou em Istambul. Mas em Paris quase todos o fomos e por isso chorámos tanto dessa vez e escrevemos lençóis de poética intenção e pintámos as identidades virtuais com as cores da França e impingimos as nossas memórias da cidade das luzes presumindo que a todos interessariam e, naquele dia, mais valeriam. Até na solidariedade somos egocêntricos. O que damos é muitas vezes à troca de uma recordação, um espelho, uma ideia que nos dê sentido à caminhada, qualquer coisa que nos lembre que somos vivos e sensíveis.

Ou então estamos apenas a habituar-nos. 

28.6.16

Pontualidade

De manhã cedo, antes do trabalho, às vezes vou ver o mar. Desço até ao Castelo do Queijo e sigo devagar pela marginal até à fortaleza de São João. A essa hora, a Foz é zona livre de perigos. Ou já trabalham ou dormem ainda aqueles que transformam as esplanadas em recintos de feira e desfilam bronzeados, roupas e automóveis na passarela de asfalto. Está tudo limpo, a luz é branca e honesta, as águas rebrilham com a subtileza das mais sofisticadas preciosidades, a ondulação é só um afago, ninguém diria que, ano após ano, este mar engole mais uma dose de areal e que, em dias feios, chega a varrer a avenida. 
Não me perco de amores pelo mar. Ainda que me fascinem as suas profundezas, à superfície vejo-o como uma metáfora de certos modos de vida. Para lá e para cá, numa rebentação inútil, levantando e assentando areias, bramindo noite e dia, humores instáveis, ora enchendo ora vazando conforme as luas, quantas vezes tomando o que não lhe pertence para no dia seguinte se pôr ajoelhadinho e humilde, a chamar e a pedir perdão. Prefiro os rios, que têm origem, rota, destino, os seus cursos são como o sangue a pulsar, vivo e rico, nas artérias do mundo. Em todo o caso, a marginal deserta às primeiras horas da manhã faz o mar parecer mais belo e eu encanto-me por esse horizonte mal definido, que olho com a testa franzida e a alma cheia de inquietações miúdas.
Quando chega a altura, volto, penetro na densidade urbana, encaixo-me no cortejo, submeto-me ao para-arranca, resigno-me à inversão de importâncias. A cada pausa nos semáforos, deito o olho para o lado e lamento pelos que tomam um pequeno-almoço de iogurte magro e bolachinha em andamento, pelos casais que se despedem com beijos de raspão e pelas mulheres que, entre todas as artes possíveis, aprimoram a de fazer um risco preciso de eyeliner ao volante. Talvez durmam demasiado, penso. Eles dirão, certamente, que vivem é demasiado. E eu, que por esta hora já estou mais do que lavada, arranjada, de barriga cheia e olhos bem dilatados, vou devagar, não tenho pressa de chegar aonde sou paga para convencer os outros a fazer o que eu desprezo. Ainda assim, sou pontual.

27.6.16

O massacre

Parece-me agora é hábito massacrar as pessoas que não têm animais tanto quanto era costume massacrar-se as mulheres que não tinham filhos. Eu cá antipatizo com insistências e perseguições deste e de todos os géneros, pois sabe de si cada um e não vejo porque há de ser valoroso quem tem filhos e bichos e não há de sê-lo, por outros e vários motivos, quem quer viver por sua conta.
Vem isto a propósito da cena a que assisti na bucólica esplanada onde gosto de me sentar ao fim de semana por meia horinha, tempo suficiente para beber um café, ler as gordas dos jornais e vasculhar absurdos nas conversas que giram em redor. Juntaram-se na mesa ao lado quatro jovens casais, três deles trazendo cachorrinhos, dois com filhos, um deles sem filhos, cães, gatos, chinchilas ou periquitos, conforme adiante percebi. O encontro foi festivo, muitos abraços e beijos, certamente ali tinha havido ausência e saudade. Desfiaram os comentários habituais: os miúdos estão enormes, cortaste o cabelo, estás preto, que fizeste para emagrecer? Serenado o entusiasmo dos cumprimentos iniciais, mandaram vir os cafés e meteram-se à conversa. Desde logo os cachorrinhos tornaram-se o centro das atenções. Primeiro comentaram as delícias do pelo e do olhar, depois avançou-se para a troca de experiências, contando uns aos outros da dedicação incondicional, das façanhas e gracinhas dos seus bichos, do nascer ao pôr-do-sol. Por fim, lançaram-se nas opiniões acerca dos modos de cuidar, tratar, educar, limpar, exercitar. 
Ao casal sem animais não restava senão ir acenando com a cabeça para não ficar de todo à margem e, simpaticamente, demonstrar algum interesse pela conversa. Mas eis senão quando a interpelação de um dos jovens do grupo os faz passar, num segundo, de espetadores a protagonistas:
- E vocês, quando é que pensam em arranjar um bicho para vos alegrar os dias?
- Os nossos dias já são bem alegres, garanto-te. – entreolharam-se, cúmplices, quase maliciosos. Ele pousou-lhe a mão na perna, fincou-lhe os dedos na carne.
- Sim, mas uma coisinha destas preenche-nos, estás a compreender? – acrescentou uma amiga.
- Não dá, animais nem pensar, é muita responsabilidade e nós ainda agora fomos morar juntos. A casa nem está toda mobilada, calma lá...
- Que tem isso a ver? – de novo o amigo.
- Olha, não queremos estar presos, para já é viajar, divertirmo-nos, andar com os nossos projetos...
- Isto não é uma prisão, é um amor... E há sempre alguém que aceita e cuida dos animais nas férias... – outro amigo.
- Está bem, mas é sempre preocupação. Por enquanto não é o que queremos.
- Por cada preocupação que te dá, um animal compensa-te com mil alegrias. Olha pra isto, olha pra esta coisa mais linda –  e a amiga que dizia isto embalava o cachorro no colo, dando-lhe beijos repenicados à troca de sôfregas lambidelas.
Entretanto as crianças esparramadas nas cadeiras, dedilhando fervorosamente nos tablets, olhos convergentes, pés balouçando. O casal perdia as forças para continuar a discutir, ela chamou o funcionário e pediu uma água com gás e limão, ele acendeu um cigarro e desviou o assunto, comentou o tempo quente, como este Verão tardara! Mas um dos outros, ainda cheio de fôlego, decidiu falar ao coração:
- Há tantos animais abandonados... Vocês não têm pena? Se cada pessoa adotasse um, olha o bem que se fazia...
- Sim, mas é preciso dedicar-lhes tempo e nós...
- Se calhar isso é uma visão um bocado egoísta, não? –  outra vez a amiga.
- De qualquer forma, neste momento não temos condições para... 
- Nunca ouviram dizer que onde comem dois comem três? –  o amigo, obtendo o coro dos restantes. 
Levantou-se o casal. Que desculpassem, mas estavam a precisar de esticar as pernas e ainda tinham de passar no supermercado. Com um aceno vigoroso e apressado: um dia destes ligamos para combinar qualquer coisa.
Ligam, ligam.

17.6.16

Perfumes e companhias

Dizem que os perfumes identificam quem os usa, mas a minha ideia é oposta. Vendem-se em frascos, às coleções, às séries, em quantidades industriais, não vejo como isso possa dar um toque pessoal a quem quer que seja. Estranho que se pague às largas dezenas de euros para ter o mesmo cheiro do vizinho, do colega, do patrão, da atriz da novela, da designer de moda. Podeis poupar-me à explicação de que a fragrância se torna única ao reagir com a pele e que o que nuns fica enjoativo noutros lembra a frescura de prados verdejantes. O único aroma que nos individualiza é o nosso. Andando bem frescos e lavadinhos, somos mais atraentes, interessantes e fica garantida a singularidade que, a todo o custo, procuramos nas lojas e pela qual gostamos de pagar.
É fácil concluir que dispenso perfumes e que tenho um nariz cheio de cismas, relutâncias e sensibilidades. Acontece, porém, que não consigo livrar-me deles porque é costume a gente usá-los de um modo que se impõe e contamina. Não bastassem já as roupas e a quinquilharia, não fosse suficiente falar alto, bater os tacões, interromper, buzinar, ainda é preciso um cheiro que berre ao mundo "eu estou aqui!". E logo às primeiras horas da manhã reparo que, só por ter tocado no puxador da casa de banho, na máquina do café, por ter apertado a mão a este ou àquele, por não sei quem me ter afagado um ombro, sou uma mescla de Jean Paul Gaultier, Dolce & Gabbana, Chanel, Zara Kids, Frozen ou coisa que o valha. Ao almoço, o meu palato é corrompido pela profusão de fragrâncias químicas. O gosto de uma alheira com grelos e ovo estrelado deforma-se. O aroma do azeite com alho e coentros é abafado. Até uma punheta de bacalhau perde para um Armani qualquer. O que sinto não é a presença de gente e menos ainda de indivíduos - afinal, quantos cheiram ao mesmo? 
Por isso me dá para rir quando ela, à passagem do diretor, se põe muito excitadinha a suspirar ele cheira tão bem! E ele, consciente, encorpa-se, simula indiferença com um aceno preguiçoso. Nenhum dos dois se lembra que o cheiro não é dele, é do frasco de perfume. E milhões usam igual. Sorte teria ela se ele lhe desse a conhecer o seu próprio aroma, o original, o verdadeiro.

10.6.16

A educação proibida

O documentário que abaixo publico tem quatro anos, talvez muitos já o conheçam. Diz que na altura em que foi lançado tornou-se viral mas temo que isso seja falso, pelo menos em Portugal, ou então o facto de eu viver a leste das redes sociais impediu-me de detetar o fenómeno.
São duas horas e vinte de reflexão sobre o sistema de ensino global. Não estou à espera que em fim de semana prolongado e soalheiro alguém vá investir tempo a ver. A minha fé de que isto interesse a alguém diminui ainda mais quando me lembro de que as preocupações de pais, professores e instituições deste país nunca incidem sobre a raiz, a pertinência e o objetivo do sistema de ensino, antes giram torno das performances nos exames, dos resultados nas pautas e do financiamento dos colégios. Acresce o cansaço de que, nesta altura no ano letivo, todos querem finalmente libertar-se, que a corrida terá sido longa e penosa para muitos.
Em todo o caso, para quem desconhece, aqui fica "A educação proibida". Estou certa de que quem vê até ao final agradece, não a mim, claro, mas a quem se dá ao trabalho de nos lembrar o que, todos os dias, somos forçados a esquecer.

9.6.16

Estrada nacional

Uma mulher caiu de joelhos na berma da estrada nacional, sentido inverso ao dos peregrinos. Bateu com a têmpora esquerda no muro, abriu um lanho até ao olho. Logo parou um portentoso camião e dele saiu o motorista, acorrendo com a rapidez, a inteligência e o sangue-frio de um bombeiro. Do outro lado, veio uma jovem loira, de trança e calças floridas. À mulher, corria o sangue por entre os dedos da mão com que amparava a cabeça, pingando-lhe no colo e empapando o avental de xadrez. A jovem loira ajoelhou-se também para conversar com ela, enquanto o motorista tocava nas casas próximas em busca de auxílio. Atrás do camião foram-se acumulando outros veículos, ignorantes do que se passava. Em menos de um ai, a fila chegou à estação de serviço. Depois começaram a ganir as buzinas e era quem mais tentava passar sem ver por onde, menosprezando regras, prioridades e intenções alheias, que é sempre grande a urgência daquele que nunca olha para o lado e sempre lhe pertencem as questões de vida ou de morte e sempre é valioso o seu tempo, acima do dos outros.
Em sentido contrário, seguimos com tranquilidade ao perceber que a mulher estava bem entregue. Parar, só por curiosidade leviana ou por alguma dessa pena que a gente se põe a sentir quando precisa de encontrar consolo na própria sorte. Na nossa faixa, é provável que ninguém se tenha atrasado. Mas o motorista do camião poderá sofrer as consequências por qualquer coisa que agora não me ocorre nem consigo nomear. A rapariga loira, aonde quer que fosse chegará tarde. Os outros tarde chegarão, não lhes há de ter valido a impaciência e o escarcéu das buzinas. Havia uma mulher de joelhos na berma da estrada nacional, a sangrar. 

3.6.16

Os dias que passam e nos deixam

Comovi-me de ouvi-lo dizer-me uns versos de Pessoa. Orgulho tolo de mãe não foi, que para dizer uns versos basta lê-los e ter memória que os guarde. Minha riqueza de menino, também não. Versos de Pessoa estão à disposição de todos os meninos e qualquer um os recita, disseca e comenta quanto à métrica e às figuras de estilo. Comovi-me de, naquele instante, ao jorrarem os versos da sua boca com o ritmo e a entoação de um humilde dizer, sem farsa nem drama, estarmos juntos num lugar onde ainda não nos havíamos encontrado. Olhos nos olhos, pois somos agora da mesma altura e não voltaremos a ser – ele avançará, eu ficarei. É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte*
O meu irmão costuma dizer-me tu choras por tudo e por nada, caramba! Mas é falso. Eu não choro por tudo, eu só choro por nada. Sólida num funeral, numa despedida, na notícia de uma doença grave, talvez até na iminência do fim do mundo, porém escangalho-me, dissolvo-me diante de uma perfeição, miudeza que seja, coisa que aconteça sem deixar rasto ou herança, um nadinha ou ainda menos, uns versos que um menino diga e que qualquer outro pode dizer.

*Sou lúcido, Álvaro de Campos

31.5.16

Aproveitamento escolar

Por causa de uma conversa sobre o Tempo, desassosseguei o mais velho. Culpa dele. Conhecendo-me há tantos anos, devia ter adivinhado que a inocência do seu comentário podia ser a ponta de um novelo que eu iria puxar, durante os dez quilómetros de percurso, até instalar a dúvida e o caos. Dois mil e dezasseis não está a passar, está a voar. Gastámos o caminho à volta disto, o para-arranca para colocar hipóteses, as estradas abertas para arriscar respostas – e poupo os leitores aos detalhes da reflexão não só para evitar o enfado mas também porque, sendo coisa nossa, tem valor que não pretendo dividir. 
A espaços, o silêncio. Então, em que estás a pensar? Nisso, não consigo parar de pensar nisso do Tempo, com quem é que eu posso falar melhor? Talvez com a professora de Física, sugeri sem convicção. Riu-se com aquele desdém adolescente que não sei se mais irrita ou mais promete. Essa?! Mandá-lo-ia sentar-se e calar, anotar o sumário, copiar as fórmulas do quadro. Imita-lhe a voz nasalada e os olhos revirados: lá vem o menino com disparates, depois queixe-se se não tiver aproveitamento. Rimos. E concordamos que "aproveitamento" é apenas uma entre as muitas palavras ocas, ridículas, que suportam a máquina do ensino. Repito que o assunto é do âmbito da Física. Inútil. Ele é que sabe. E a professora de Ciências? Mais aberta, sim, talvez se interessasse, mas anda sempre cheia de pressas, deixá-lo-ia pendurado. Falar sobre o Tempo com quem a toda a hora se queixa de não o ter? 
Já perto da escola, avisa-me que abordará o tema com o professor de Língua Portuguesa. Franzo a testa, interrogo, que tem Camões a ver com isto? E vêm ao caso aliterações ou complementos oblíquos? Ele é o único que não anda aqui só para dizer cenas, é um homem preocupado com a nossa inteligência, tenho de aproveitar.

27.5.16

O tempo vai mudar

O senhor Pereira é um homem de ambições menores: um carro vistoso, férias em hotéis com praia de acesso restrito, a vitória nas discussões do quotidiano. Junta uns trocos e realiza as duas primeiras. Levanta um pouco a voz e alcança a terceira. Assim, poupa-se ao sofrimento, a devaneios e frustrações, e por isso mantém a coluna direita, olha em frente, não aponta para o chão como é tendência dos deprimidos nem para as nuvens como fazem os sonhadores. Que o amor não lhe assista, que a mulher não se lhe entregue, que as filhas não lhe falem, que o filho não o admire, importa? Ninguém vê, alguns suspeitam mas nenhum pode jurar. A vizinhança elogia-lhe a organização e o pragmatismo. Ele limpa as poeiras do dia-a-dia com gestos simples. Conselhos para a vida não, mas ajuda para pequenos enguiços e obstáculos muitos lhe pedem. É um homem que resolve. Tem destreza para contas de cabeça, sabe quantas horas de voo são daqui à República Dominicana e quando se deve mudar a correia de distribuição. Temos de estar preparados para tudo, diz ele, agradecendo o crédito que lhe dão. Em público, a mulher manifesta algum orgulho nisso, mas não basta. Preferia que ele gostasse de conversar sobre os divinos mistérios da matemática, o colonialismo na América Central, ou a desolação dos mundos onde um automóvel dura até ser só carcaça. Porém, desistiu e esqueceu. Largos anos de casamento ensinaram-lhe a vantagem das futilidades e a simplificação da vida. Com um gesto preguiçoso e bem treinado, diz-lhe:
-  Miro, põe um casaquinho pelas costas que o tempo vai mudar.

24.5.16

No lugar de Julieta

Fez-se com brevidade o luto por Julieta. O meu sentimento de culpa pela queda fatal de que foi vítima ficou resolvido. E fui aceitando a ideia de que, ainda que eu tivesse redobrado os cuidados, acariciado as folhas, sussurrado palavras de incentivo, não a espevitaria. Para me tranquilizarem, os meus filhos foram-me lembrando o que eu própria lhes digo: que as coisas da natureza são imperfeitas e transitórias, cheias de caprichos e sinais que escapam à sensibilidade humana. Culpa, remorso e revolta são gastos inúteis de energia.
No lugar de Julieta será, assim, colocada uma nova orquídea. Decidi, porém, que há de ser de outra cor porque o branco, apesar de luminoso e inspirador, tem uma inocência que fragiliza. Preciso de uma orquídea forte, de boa linhagem, que tenha teimosia de viver, nada de tiques de aristocracia e futilidades. Será violeta. E há de dar-me mais paz do que preocupações. 
O mais velho, fascinado por tragédias de amor, sugeriu desde já que lhe chamássemos Inês e, numa visão que me estremeceu da cabeça aos pés, pressenti uma vida tão breve como a de Julieta, culminando com penas e ais. Nem pensar. Era o que faltava, ver de novo uma bela flor morrer pela insistência numa paixão sem espaço nem futuro. 
Entre Dalila e Madalena, será feita a minha escolha. Certa de que não a livro da morte, conto, ao menos, livrá-la de tolices.

23.5.16

Contradições

Temem de morte as correntes de ar mas julgam-se seguros com aparelhos de climatização. Viram a cara aos estranhos na rua e seguem gente que não conhecem nas redes sociais. Tratam obsessivamente o corpo com sementes e cereais exóticos e reservam para a alma comprimidos e resignações. Aceitam toda a espécie de lixo para se orgulharem de, mais tarde, o separar no ecoponto. Creem que um vírus morre mesmo com cêgripe mas desconfiam dos benefícios da meditação. Choram de não ter tempo para nada e compram oitenta canais de tevê. Acreditam piamente que neste país já lá vão as ameaças de ditadura, que poder escolher é a sua maior fortuna: escolher o canal que veem, a marca do aparelho de compram, os pedidos de amizade que aceitam, a cor do contentor onde põem o lixo. Estranho que nada disto os apazigue ou lhes dê sonos tranquilos.